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Mães que fazem ciência

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Publicado em 10/08/2017

Coordenadora do projeto, Fernanda Staniscuaski (UFRGS) com os filhos

Uma carreira científica promissora de um lado e a maternidade, do outro. Depois de concluir o pós-doutorado e tomar posse como professora adjunta do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernanda Staniscuaski percebeu que seria um bom momento para investir em um outro projeto: a maternidade. Mas foi no segundo filho que a cientista começou a sentir o quanto o sistema de financiamento de pesquisa era injusto, especialmente com as recém-mães.

"Em 2015, meu segundo filho tinha apenas algumas semanas de vida quando recebi um e-mail da administradora de um dos Programas da International Foundation for Science. Na mensagem, me informavam que era hora de apresentar o relatório final do financiamento que eu havia recebido. Além disso, eles estavam me oferecendo a oportunidade de solicitar uma nova verba. Na loucura que eu estava vivendo no momento, com um recém-nascido e uma criança de 2 anos e meio em casa, eu ignorei completamente esse e-mail. E nem percebi que estava perdendo a oportunidade de me candidatar a um novo financiamento", lembra Fernanda.

Lívia Kmetzch Rosa e Silva, docente da UFRGS

Seis meses depois, ela recebeu então um segundo e-mail. Para a sua surpresa, a fundação a informava que, além do relatório final, que estava atrasado, a bióloga não estava mais elegível para o pedido de novo apoio. "Para muitos que não são pais, isso pode parecer um erro imperdoável. Mas para aqueles que estão familiarizados com as demandas de crianças pequenas em casa, isso é mais uma ocorrência cotidiana", afirma.

A história de Fernanda é comum a muitos cientistas, que decidem construir, além de suas carreiras, uma família. O sistema de financiamento de pesquisas hoje instituído, no Brasil e no mundo, estabelece como principal critério a produtividade do cientista. Uma relação bastante perversa para aqueles que precisam desacelerar os estudos e o trabalho para amamentar ou se dedicar ao cuidado de um recém-nascido. "O principal ponto de avaliação do nosso sucesso é a produtividade. Se você não produz, não obtém verbas para a pesquisa. E assim entra num ciclo difícil de sair, que dura em média cinco anos após a maternidade", desabafa Fernanda.

Foi compartilhando suas frustrações e dúvidas nesse conflito diário entre ser uma boa cientista e uma boa mãe que a bióloga descobriu que este é um problema bem abrangente, mas quase completamente ignorado. Foi assim que ela se juntou a mais cinco mães, e um pai, e criaram o Parent in Science. A iniciativa visa promover mudanças institucionais que incentivem e apoiem mães e pais que fazem ciência.

Ida Vanessa Doederlein Schwartz , da UFRGS

"É obrigatório iniciar mudanças institucionais se quisermos garantir que as mulheres não sejam forçadas a escolher entre ser uma boa mãe e ser uma boa cientista. Esta é uma demanda mais do que necessária para garantirmos a participação das mulheres na ciência", enfatiza Fernanda, que coordena o grupo.

A primeira ação da equipe, formado em junho do ano passado, é conseguir mapear o universo de mães que fazem pesquisa. Segundo Fernanda, nem o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e nem a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) contam com estatísticas que mostrem o percentual exato de pesquisadoras com filhos pequenos.

O grupo criou, então, um questionário online para obter informações que permitam traçar esse perfil detalhado do impacto da maternidade na carreira científica das mulheres brasileiras. Os dados servirão como base para a reivindicação de políticas de apoio. O projeto e os questionários foram aprovados pelo Comitê de Ética da UFRGS (CAAE 65192017.1.0000.5347). O público alvo da pesquisa são docentes com filhos nascidos a partir de 01/07/2007 e docentes sem filhos que foram contratadas a partir de 01/01/2002.

O único pai do grupo: Felipe Klein Ricachenevsky, da Universidade Federal de Santa Maria

"Fizemos uma estimativa que aponta para mil pesquisadoras mulheres com até 45 anos de idade. Até o momento, já conseguimos que 711 docentes respondessem aos dois questionários (de mãe e não-mãe). Uma vez tendo esses dados em mãos, conseguiremos saber o impacto exato da maternidade e quanto ele dura", diz Fernanda, que pretende apresentar os resultados do estudo às agências de fomento, federal e estaduais.

Segundo a bióloga, o principal objetivo do grupo é criar uma linha de financiamento de pesquisa específica para cientistas recém-mães. Algo nos mesmos moldes do Prêmio L’Oreal-Unesco-ABC "Para Mulheres na Ciência", programa amplamente conhecido e apreciado dentro do meio acadêmico-científico. "Estamos buscando parceiros para isso", ressalta ela, que diz ter se inspirado na Austrália para desenvolver a iniciativa.

"O país conta com uma linha especial de financiamento para docentes que retornaram da licença maternidade. Elas recebem US$ 25 mil e podem usar o recurso durante a licença na contração de um profissional para trabalhar por elas no laboratório ou aplicando o dinheiro na volta às atividades, para financiar pesquisas", afirma Fernanda.

Adriana Seixas, da Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto
Alegre

A coordenadora do Parent in Science ressalta que a iniciativa também tem como foco os recém-pais. "O Felipe Ricachenevsky é o único pai do grupo. É importante que tenhamos, também, o ponto de vista da paternidade. Ainda mais hoje em dia, em que temos uma maior participação dos homens na criação dos filhos", diz Fernanda, que antecipa que o grupo pretende aplicar, num futuro próximo, um questionário similar aos pais cientistas.

Diretora da Academia Brasileira de Ciências (ABC), a professora da UFRGS Marcia Cristina Bernardes Barbosa  ressalta a importância de se levantar a questão de Gênero dentro das universidades. Segundo ela, há uma negação desse tema tanto no meio profissional, quanto no acadêmico.

Alessandra S. K. Tamajusuku Neis, da Universidade Federal do Pampa

"É como se a família não fizesse parte da vida das pessoas", avalia Marcia. Segundo a diretora da ABC, em muitos ambientes, é vexatório dizer que se vai buscar um filho na creche. "Precisamos evidenciar que cuidar das próximas gerações tem um impacto na vida das mulheres. É uma causa que sempre recai mais sobre elas do que sobre eles, os pais. Tanto que o IBGE já comprovou que as mulheres se dedicam 10 horas a mais do que os homens em atividades domésticas", afirma.

Para Marcia Barbosa, muito além de um maior apoio às mulheres pesquisadores, por meio de programas de financiamento, deve haver uma mudança de perspectiva na produção de ciência no Brasil. Segundo ela, os centros de pesquisa devem estar mais atentos para a questão da maternidade. "Hoje em dia as universidades não contam com creche", lembra a professora da UFRGS. "Dentro da nossa carreira, quem não tem citações, não aceita convites para falar em eventos ou não realiza colaborações não aparece. As universidades estão punindo as mulheres, quando mantêm esse olhar enviesado quando ela precisa sair para buscar seus filhos. Temos que corrigir as instituições brasileiras", defende Marcia.

Rossana Colla Soletti, da Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo - Rio de Janeiro)

As mulheres cientistas, com ou sem filhos, que quiserem aderir ao projeto Parent in Science, podem começar participando da pesquisa. Segundo Fernanda Staniscuaski, a expectativa do grupo é chegar a 1 mil questionários respondidos. Eles pretendem já estar com os dados analisados e prontos para divulgação até março de 2018. Outras informações da iniciativa estão disponíveis no perfil do grupo no Facebokk: fb.me/parentinscience. Já para participar, as docentes com filhos devem acessar esse link. O questionário das docentes sem filhos está disponível aqui.


(Aline Salgado, para NABC)


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