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Formação do estudante universitário para o protagonismo e a autonomia

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Publicado em 2/08/2017


Da esquerda para a direita, o pró-reitor de graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Hiroshi Caldeira Takahashi, o reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Naomar Monteiro de Almeida Filho e o Acadêmico Luiz Bevilacqua .

Mesmo havendo consenso sobre a participação do estudante na escolha de sua própria trilha curricular ser fundamental, por que as nossas universidades ainda não conseguem aplicar isto de forma efetiva? Foi esse o questionamento que serviu de pontapé inicial para o debate “Formação do estudante universitário para o protagonismo e a autonomia: Desafios para a transformação do ensino superior brasileiro”

O doutor em engenharia elétrica e pró-reitor de graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Hiroshi Caldeira Takahashi, abriu as falas fazendo um comparativo entre o antigo modelo de participação estudantil nas faculdades. Nele, o estudante atuava como receptor, apenas absorvendo o conhecimento passado pelos professores. “O estudante entra no curso sem nada e sai com um tanto de coisas aprendidas. Esse conhecimento é um acúmulo de informações desconectadas de um significado real”, sintetizou Takahashi.

O engenheiro elétrico explicou que esse sistema é herança das primeiras universidades criadas, iniciadas com a Universidade de Bolonha, na Itália, que tinham o objetivo de escolarizar massas e fazer com que os cidadãos aderissem a uma identidade nacional. “É efetivo em criar cidadãos com opiniões padronizadas, mas isso está muito aquém do que uma sociedade atual espera de seus cidadãos. É um paradigma de baixa eficiência”, explicou o pró-reitor.

Para Takahashi, um momento marcante na história do protagonismo estudantil foi a criação do movimento estudantil, em Córdoba, na Argentina, quando o estudante se colocou na posição de debater o que deveria ser a universidade dele. Nessa discussão, entra a possibilidade de o aluno planejar os conteúdos que irão compor seu currículo, de forma intra-atividade e intra-curricular. "A transdisciplinaridade tem grande relevância nessa questão, porque permite recombinar áreas do conhecimento e não condiciona o estudante à uma especialidade. Para que isso aconteça, é preciso que deixemos sempre disponível a possibilidade da prática da liberdade em diversas instâncias”, defendeu o professor.

O pós-doutor em epidemiologia e reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Naomar Monteiro de Almeida Filho, criticou a forma de relacionamento das universidades brasileiras com o restante da sociedade. Almeida Filho instituiu na UFSB a estrutura de ensino que foi recomendada por um estudo da Academia Brasileira de Ciências (ABC), que derivou no documento Subsídios Para a Reforma do Ensino Superior. Ele reforçou a preocupação da UFSB em se abrir para as necessidades da sociedade e lembrou que o conceito de “extensão” já preconiza que a universidade tem autonomia e que os serviços que prestam à sociedade são apenas uma tarefa extra, realidade que deve ser revertida. “Nós criamos um conselho estratégico social a partir de um fórum na comunidade. Esse desenho está sendo pensado para abrir espaço para a juventude local, sem formas mecânicas de restrição”, explicou o reitor.

Para Almeida Filho, a educação que é hoje passada nas universidades tem pouca utilidade, porque não contempla as rápidas atualizações em cada área. Além disso, criticou a forma setorizada em disciplinas como é organizado o conhecimento. “A indústria retreina todo estudante que sai da universidade, que só serve para fornecer o diploma e dar ’autorização’ para o indivíduo trabalhar na área. O que fica de aprendizado é a capacidade de se manter aprendendo coisas novas”, defendeu o reitor.

O epidemiologista criticou ainda a forma como as universidades e os próprios professores usam sua autonomia para fazer uma manutenção da velha ordem. “Os professores querem suas turmas para ensinar do seu jeito e isso vai contra a ideia de equipe docente”, comentou o professor, em alusão ao sistema segmentando, formado por equipes de professores de diferentes áreas, em diferentes campi, adotado pela UFSB.

O engenheiro civil e coordenador do Comitê de Estruturação Acadêmica e Implantação da UFABC, o Acadêmico Luiz Bevilacqua, fechou as apresentações destacando aspectos das universidades brasileiras que atrasam a flexibilidade curricular. Bevilacqua lembrou que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das primeiras do país, nasceu, na verdade, da união de diferentes escolas politécnicas. “A integração só veio, de fato, com a pós-graduação”, pontuou ele. O Acadêmico criticou ainda o conteúdo passado pelos professores, que não se atualiza, mesmo estando defasado em relação ao mercado, e o número de disciplinas, que julga excessivo. “ Está sendo criado lá fora o conceito de universidade transnacional. Nosso papel acabará sendo o de receptores, mas há a possibilidade de sairmos desse contexto. O problema é que a universidade é, em si, tradicional, e não quer se movimentar”, criticou Bevilacqua.


(Thaís Soares para NABC)


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