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Elsevier lança, na ABC, relatório sobre a presença de mulheres na ciência

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Publicado em 26/06/2017

No dia 22 de junho, a editora Elsevier lançou o relatório “Gender in the Global Research Landscape”, que mede e analisa a participação de mulheres na área de pesquisa em diferentes regiões do globo. O evento aconteceu na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC) que, em parceria com a editora, recebeu a diretora da GenderInSITE, Alice Abreu; Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas para a América Latina da Elsevier; Helena Nader , presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); Rita Pinheiro Machado, coordenadora da academia do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI); Márcia Barbosa, diretora da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e Margareth Goldenberg, sócia-diretora da Goldenberg Consultoria.

A Elsevier é uma editora de origem holandesa, herança da Casa Elsevier, que tem publicado produções científicas desde o século XVI, tendo, inclusive, publicado trabalhos do cientista Galileu, na mesma época em que suas pesquisas eram criticadas e perseguidas pela Inquisição. O vice-presidente de Relações Acadêmicas para a América Latina da instituição, Dante Cid, abriu o debate, explicando que a equidade de gênero é um dos pilares de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) e pontuou alguns dos principais números presentes no estudo da Elsevier. A pesquisa que gerou o relatório, segundo Cid, apresenta resultados de dois diferentes recortes de tempo: entre 1996 e 2000 e 2011 a 2015. Como não há indicação de gênero dos autores de pesquisas científicas, foi feito um cruzamento dos dados de nomes dos autores e as características de gêneros dos nomes em diferentes países para se definir a quantidade de homens e mulheres nas autorias.

Dos resultados apresentados, Cid destacou alguns números. A participação de mulheres em todas as áreas analisadas cresceu dentro deste período de tempo. Embora o número tenha aumentado, a presença feminina em áreas como Engenharia e Física ainda é baixa, com 3% de pesquisadores mulheres na área, contra 7% de homens, em Engenharia e 2% de mulheres para 5% de homens em Física e Astronomia.

Em um panorama mais geral, o número de citações em artigos de trabalhos brasileiros ainda é menor do que a média mundial, porém com pouca diferença entre os gêneros. Já nas patentes, a participação feminina ainda é baixa, de 19% contra 81% dos homens, entre 2011 e 2015.

Após a apresentação dos dados, a AcadêmicaHelena Nader, presidente da SBPC, expôs um panorama da evolução científica no Brasil e a relação dela com a participação feminina na área. “A institucionalização da ciência tem 66 anos. Antes dela, se fazia ciência por hobbie. E a mulher não votava e nem fazia faculdade. Hoje somos maioria na universidade. Ciência institucionalizada e direitos para mulheres são assuntos muito novos”, argumenta Nader.

Helena ressalta ainda um dos dados apresentados por Cid, sobre interdisciplinaridade. Na pesquisa, o Brasil aparece como o país menos interdisciplinar da América Latina, isto é, com menos artigos com citações de outras áreas. Pontuou ainda a falta de cooperação científica internacional no Brasil. “O que é assustador e me preocupa é que fazemos pouca contribuição internacional, tanto homens quanto mulheres. E isso é reflexo dos cortes na pesquisa”, defende.

Fechando a primeira rodada de apresentações, a física da UFRGS Márcia Barbosa, diretora da ABC, trouxe uma visão direcionada sobre o porquê a participação feminina nas chamadas disciplinas STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), como engenharia e física, é tão baixa.

Ela defende que um dos principais problemas que gera esta situação é a pouca representatividade de mulheres nos comitês, ministérios e cargos de gestão do meio científico. Barbosa mostrou também que, além de haver poucas mulheres adentrando os cursos de disciplinas STEM, esse número vai diminuindo ainda mais a medida que evoluem na carreira. Esse fenômeno, conhecido na Europa como “efeito tesoura”, pode ser explicado, dentre outros motivos, pelo frequente desestímulo e obstáculos que as mulheres enfrentam no meio e que não são vividos por homens. Desde preconceitos de gênero no ambiente de trabalho, até a dupla jornada, barreiras que, a princípio, podem parecer pequenas, se acumulam, afastando as poucas mulheres que já estão inseridas no meio da pesquisa, como Márcia argumenta.

Barbosa apresentou também alguns resultados que mostram que a luta pela equidade de gênero na ciência não representa apenas uma pauta de direitos das mulheres. Do ranking mundial de rendimento de empresas, todas as que mais lucram estão também no topo da lista de empresas com equidade de gênero.

Para Márcia, o afastamento de mulheres das áreas conhecidas como ciências duras começa desde a infância. Ela cita um estudo de Princeton que mostra que crianças de 6 e 7 anos já entendem que profissionais mulheres bem-sucedidas são classificadas como esforçadas, enquanto profissionais homens são considerados inteligentes, mostrando que já há uma distinção entre a capacidade cognitiva masculina e feminina.

A pesquisadora defendeu, por fim, que programas que estimulam a participação feminina na ciência devem ser difundidos. Citou como exemplos o“Tem menina no circuito", que apoia a presença de mulheres nas áreas exatas e o Prêmio Mulheres na Ciência, promovido pela L’Oréal em parceria também com a ABC e Unesco e que premia cientistas mulheres que se destacam em suas áreas.

A mulher na indústria e inovação

A segunda parte do evento propunha abrir o debate também para as perspectivas dos setores da indústria e inovação. Alice Abreu, diretora da GenderInSITE, instituição internacional que trabalha pela inserção de mulheres na ciência, tecnologia e inovação, iniciou a segunda rodada de apresentações reforçando a ideia de que a equidade de gênero científica gera lucros para a própria área de ciência e inovação. “Constatamos que mais mulheres levam a uma ciência melhor”, argumenta.

Três passos para alcançar este patamar de igualdade são propostos pela professora Londa Schiebinger, coordenadora do projeto de Inovações de Gênero: “Consertar os números, consertar as instituições e consertar o conhecimento”. Para explicar os passos teorizados pela professora, Alice explica que é necessário mudar a cultura das instituições em relação à questão de gênero. “Os processos que levam a uma carreira científica são complexos e condicionam, dentro das instituições, os lugares onde mulheres e homens se situam. Deveríamos focar em como trazer a perspectiva de gênero para as universidades e assim transformá-las”, argumenta.

Abreu reforça que os dados de gênero na pesquisa são escassos, e para que haja um estudo disso, é necessário registrá-los. Cita a Europa como pioneira dessa base de dados, com uma publicação a cada três anos sobre os números de mulheres na pesquisa. “O relatório da Elsevier é uma ferramenta que ajuda a organizar essa questão dos números. A própria Capes, que é a instituição com dados acadêmicos mais confiável possível não tem nenhum indicador de gênero”, pontua.

Ela cita ainda projetos que se baseiam na lógica de equidade de gênero na ciência e que tem trazido bons resultados. Dentre eles estão os programas Egera, Garcia e Cheer, que trazem essa visão para dentro da academia e os programas Advance e Athena Swan. O primeiro financia mais de 65 instituições, que devem criar programas de dez anos, com uma avaliação feita a cada cinco, para analisar resultados. O segundo é também institucional e dá um selo de equidade de gênero para a instituições que se filiam a esse sistema e atingem estágios de efetiva equidade.

Trazendo a visão do setor empresarial para o debate, Margareth Goldenberg, do movimento Mulher 360, falou do empoderamento feminino nas empresas. Ela apresentou a proposta do programa, que tem empresas em diferentes partes da cadeia produtiva, atingindo assim mais setores do mercado. A iniciativa atinge também empresas de recrutamento, para evitar que a falta de oportunidades para mulheres comece desde a seleção.

O programa atua de forma a estabelecer metas de avanços da presença da mulher nas empresas, criando uma plataforma de ações afirmativas e deixando que as empresas se regulem para atingir esses objetivos. Trabalha ainda com princípios de empoderamento para mulheres (WEPs, na sigla em inglês), que pretendem não só garantir a inserção da mulher no mercado, como também seu bem-estar e segurança e a evolução na carreira, e ainda manter dados e registros disso, para garantir que não haja um retrocesso dos resultados obtidos. “Hoje, empresas fundadoras como Coca-Cola, Unilever e Johnson & Johnson já tem 50% de mulheres em cargos de liderança”, diz Goldenberg.

Fechando a rodada de apresentações, Rita Pinheiro Machado, coordenadora da academia do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), trouxe a perspectiva da mulher dentro da inovação.

Dentro da janela de tempo proposta pelo relatório da Elsevier, Machado afirma que houve um aumento considerável na participação de mulheres na inovação. No intervalo entre 1996 a 2000 e 2011 a 2015 o número de mulheres inventoras cresceu 12 vezes. “As patentes, por outro lado, não experimentaram o mesmo crescimento”, afirma ela.

Machado reforça que a criatividade e inovação é uma característica inerente aos humanos, que independe de gênero. No entanto, a falta de oportunidade dada às mulheres desencadeia os baixos números da participação feminina na inovação.

Confira a repercussão do estudo na mídia brasileira:

Participação feminina em artigos científicos aumenta até 12%
Brasil é um dos países onde a proporção é mais igualitária

Brasil lidera o ranking mundial do número de mulheres cientistas em relação ao número de homens

Brasil e Portugal têm maior percentual de mulheres na produção científica

Brasil e Portugal têm maior percentual de mulheres na produção científica
No caso brasileiro, houve um crescimento significativo na comparação com 1996-2000, quando 38% da pesquisa do país era feita por mulheres

Brasil e Portugal têm maior percentual de mulheres na produção científica
No caso brasileiro, houve um crescimento significativo na comparação com 1996-2000


(Thaís Soares para NABC)


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