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Educação superior para o mundo contemporâneo

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Publicado em 2/08/2017


Da esquerda para a direita: Ronaldo Mota, Helena Nader , que coordenou o debate, Klaus Kapelle e Carlos Henrique Brito Cruz.

Transdisciplinaridade pode ser a chave para uma reformulação na educação superior do país. Esse foi o caminho indicado por Klaus Werner Kapelle, pós doutor em Física e professor titular da Universidade Federal do ABC (UFABC), uma das primeiras universidades brasileiras a instaurar o sistema de bacharelado interdisciplinar, baseado em recomendações de estudo conduzido pela ABC, intitulado Subsídios para a Reforma do Ensino Superior. Juntaram-se a ele na mesa o físico e reitor da Universidade Estácio, Ronaldo Mota, e o engenheiro eletrônico e diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Acadêmico Carlos Henrique de Brito Cruz .

Kapelle apresentou um panorama esperançoso para a educação no Brasil. Para ele, é preciso ver as posições das universidades brasileiras nos rankings mundiais com lentes positivas. “Há 27 universidades brasileiras entre as 4% melhores do mundo, segundo a Times Higher Education. Essa é uma visão que a mídia não mostra”, defendeu. Por outro lado, em 2016, 2% das publicações científicas do mundo tinham pelo menos um autor brasileiro e o país era o 15º em publicação de artigos e 19º em citações, o que significa que a riqueza produzida pelo país não está sendo revertida para a educação, considerando o lugar de nono maior PIB no mundo. “Isso mostra que o Brasil é um gigante científico não reconhecido. Há uma enorme demanda em potencial para a educação superior, mas que ainda não é real e, no momento, esse gigante está cortando as próprias pernas”, ponderou o físico, fazendo alusão à crise econômica do país.

O pesquisador apresentou a estrutura diferenciada da Universidade Federal do ABC. A instituição funciona sob um sistema de bacharelado interdisciplinar, no qual o aluno decide, ao entrar, se cursará as disciplinas de Ciências Tecnológicas ou Ciências Humanas por dois anos e, ao fim dessa grade, opta por concluir a graduação com o diploma de bacharelado ou continuar estudando para ter também o de formação específica. “Na UFABC só há duas portas de entrada, mas muitas de saída e a escolha de profissão é um fenômeno emergente. O aluno monta seu currículo e, ao final, de acordo com o perfil das matérias que cursou, vê em qual graduação se encaixa”, explicou Kapelle.

O físico garantiu ainda que, com a formação oferecida, é comum encontrar empresários que empregam alunos da universidade e pedem por mais profissionais vindos de lá. Para a demanda da indústria, a UFABC oferece também o doutorado acadêmico industrial (DAI), que garante a orientação acadêmica, mas conjugada com as necessidades do setor. "O DAI é uma modalidade na qual a identificação do projeto de doutorado é resultado de um período passado pelo doutorando em laboratórios e centros de pesquisa de empresas e indústrias, públicas ou privadas", explicou.

O reitor da Universidade Estácio, Ronaldo Mota, fez uma comparação com a estrutura social apresentada pelo sociólogo Gilberto Freyre ao explicar a situação do ensino superior no país. Para ele, a situação das universidades públicas ainda é de grande desigualdade e a estrutura de ensino precisa de inovação, que é a criação de um benefício para muitos. “ O Brasil ainda mantém a casa grande e senzala. Quando o país faz uma coisa boa, faz para poucos, e quando faz para muitos, faz de má qualidade”, criticou, citando o autor brasileiro.

Para Brito Cruz, da Fapesp, alguns pontos que influenciam negativamente no rendimento das universidades públicas brasileiras são a pouca preocupação com o impacto científico internacional, que se reflete em poucas disciplinas lecionadas em inglês; a falta de interesse em trazer bons estudantes para as universidades; a alta burocratização e um excessivo valor dado ao número de horas/aula, dando mais importância à quantidade do ensino do que à qualidade.

O Acadêmico apresentou também dados de autores que se dedicaram a entender como funcionam as melhores universidades do mundo. A bibliografia apresentou como resultado uma relação diretamente proporcional entre autonomia, orçamento advindo de editais competitivos e melhor desempenho, além da progressão salarial se dar independente do mérito.

Cruz pontuou ainda que há muito o que investir e melhorar na forma como o ensino superior é conduzido no Brasil. “No país, não há nenhuma universidade que tenha 7% de seus artigos publicados entre os 10% mais citados do mundo. Na Espanha, por exemplo, quase todas as universidades se mantém com mais de 7% de artigos entre os 10% mais citados”, comparou. Para ele, o país deve se perguntar quantas universidades de excelência quer e pode ter, apostando então no tripé formado por investimento no ensino, autonomia da instituição e meios de executá-lo.


(Thaís Soares para NABC)


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