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Educação e escolha de carreira: Ciência, por que não?

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Publicado em 4/08/2017

Entre 17 e 22 de julho, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 80 jovens de ensino médio ou do início da graduação de diversos estados do Brasil participaram da primeira edição dos Clubes de Ciência Brasil. Na tarde do dia 17 eles assistiram apresentação de Elisa Oswaldo-Cruz Marinho, assessora de comunicação da Academia Brasileira de Ciências (ABC), instituição responsável pela criação e desenvolvimento do site ProfiCiência, em parceria com a Faperj.

Professora, jornalista e doutoranda em Educação, Gestão e Difusão de Ciência na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Elisa abordou os primórdios da educação, na Idade Média, mostrando que o conhecimento era centrado na filosofia, que se subdividia em ética, lógica e física. Dela saíam as sete artes liberais: as referentes à linguagem e letras formavam o trivium - gramática, retórica e dialética; e as que concernem aos vários tipos de harmonia compunham o quadrivium: música, aritmética, geometria e astronomia.

A Escola de Atenas, de Rafael

As ciências, portanto, eram integradas às artes e humanidades. Ela citou o exemplo de Leonardo da Vinci, conhecido por sua excelência como artista, mas que também podia se dizer engenheiro, na medida em que projetou diversos artefatos como pontes, escafandro, tanque de guerra, assas voadoras e outros, que na época não chegaram a sair do papel. Mostrou, ainda, o quadro de Rafael, pintado no século XVI, a Escola de Atenas, em que Platão e Aristóteles estão juntos – um indicando o mundo das ideias e outro o mundo natural – e as estátuas de Apolo e Minerva ccompõem o espaço, valorizando a sabedoria e a beleza na mesma intensidade.

No século XVII, com o método científico criado por René Descartes, os objetos de estudo passaram a ser divididos e cada parte estudada separadamente. Esta maneira de conhecer foi muito proveitosa, na medida em que gerou um aprofundamento imenso em todas as áreas da ciência. Mas, com o passar do tempo, gerou também uma cisão entre as ciências naturais e as humanidades no século XIX e um excesso de especialização, presente até o final do século XX. “Hoje ainda trabalhamos com a especialização, mas vemos um avanço da ciência da complexidade, que busca integrar as partes e visualizar o todo, estimulando a transdisciplinaridade”, explicou.

A palestrante relatou que a ABC mantém a divisão original das áreas da ciência, e por isso o site ProfiCiência é dividido nas dez áreas que a Academia contempla: ciências agrárias, biomédicas, biológicas, da saúde, da Terra, da engenharia, físicas, químicas, matemáticas e sociais. “Mas os textos sobre as áreas tratam recorrentemente de inter e transdisciplinaridade, que é o modo de fazer ciência do século XXI”, disse Elisa.

Apresentando o site, ela abordou a dificuldade do processo de escolha de carreira para qualquer jovem, dada a falta de informação e orientação profissional no ensino médio. Nas áreas da ciência, então, o desconhecimento do leque de possibilidades ainda é maior. “Ninguém escolhe o que não conhece. Por isso temos apenas 1% dos candidatos à graduação interessados em ciências exatas e 1,5% nas áreas de ciências da vida”, informou.

Para Elisa, um caminho para reduzir essa distância entre o estudante e as profissões em ciência seria a inserção no currículo do ensino médio desse tópico – informação profissional. “O professor de química deveria explicar o que pode fazer um químico, além de dar aula. O mesmo vale para o professor de física, de biologia e de todas as outras disciplinas. Relacionar a escola e os seus conteúdos com o mercado de trabalho, o futuro do indivíduo e o seu papel na sociedade é a verdadeira função do ensino médio, não apenas preparar o aluno para o ENEM. E o site ProfiCiência está aí para ajudar tanto o aluno como o professor a obter informações nesse sentido.”

A consequência desta lacuna na formação do estudante, segundo Elisa, é que muitos jovens ingressam na graduação desinformados e despreparados, o que às vezes gera infelicidade, frustração e evasão. “E a evasão tem um custo alto para as instituições e ensino”, alertou. A palestrante ressaltou que o processo de escolha profissional envolve três aspectos principais: auto-conhecimento, informação sobre o mercado de trabalho e informação sobre as profissões. "Em relação ao auto-conhecimento, existem psicólogos particulares e serviços de psicologia aplicada nas universidades que são especializados em orientação profissional. Para entender as mudanças no mercado de trabalho, o estudante precisa ler jornais e revistas, ler sobre economia, enfim, estar antenado. E para obter informações sobre as profissões, a internet é o melhor caminho", apontou a jornalista.

Ela destacou que o mundo em que vivemos é baseado em ciência e tecnologia (C&T). “Portanto, é um bom lugar para cientistas”, observou. No Brasil, no entanto, a ciência está passando por um período muito ruim. "O analfabetismo científico dos governantes locais impede que entendam que C&T são as melhores opções de investimento para tirar um país da crise, como reconhecem os EUA, a Rússia e a China. Nestes países, nos momentos de crise os investimentos em C&T eram aumentados, mesmo quando necessário fazer cortes em outras áreas", disse Elisa.

Uma das coisas de que o Brasil precisa para se desenvolver

A jornalista ressaltou que o país tem a maior biodiversidade do mundo, um imenso litoral próprio para atividades econômicas ligadas ao mar, sol e vento em algumas regiões o ano inteiro, possibilitando instalação de fontes de energia solar e eólica, muita terra agricultável, enfim, todas as condições para se tornar uma grande nação. “O que falta aqui é vontade política, é a ausência de um desejo real de quem detêm o poder de fazer o país crescer e se desenvolver. Isso só acontece se houver um investimento forte e contínuo em educação, ciência e tecnologia, como vêm ocorrendo em países como a Índia e a Coreia do Sul.”

Apesar da dificuldade, Elisa acha que vale a pena investir nas carreiras científicas no Brasil. “É só com jovens cientistas, educadores e políticos qualificados e dedicados que vamos retomar o caminho do crescimento. Por isso estamos aqui, trabalhando com vocês, que são o futuro. Façam com que o futuro seja melhor do que o presente para a população brasileira.”


(Ascom ABC)


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