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Cientistas da UFRJ descobrem um caminho para deter o mal de Alzheimer

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Publicado em 14/06/2017

Confira a matéria de Ana Lucia Azevedo para o jornal O Globo, com as ex-afiliadas da ABC Flávia Carvalho Alcântara Gomes (2011-2015), Fernanda Guarino de Felice (2009-2014) e o membro titular Sérgio Teixeira Ferreira .

Um caminho para diagnosticar e tratar o mal de Alzheimer foi descoberto por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em animais, a estratégia deteve o até agora inexorável processo de perda de funções do cérebro causado pela doença quando em fase inicial. Ela consiste em restabelecer a comunicação de sinais nervosos interrompida e, com isso, restaurar a memória. É como por de novo em pé linhas de transmissão derrubadas e restaurar o funcionamento do cérebro.

A descoberta mereceu destaque numa das principais publicações científicas especializadas, a revista “Journal of Neuroscience”. O estudo foi realizado com animais, mas traz luz para tratar a doença humana. Progressivamente mais comum à medida que aumenta a expectativa de vida, o mal de Alzheimer é a doença neurodegenerativa que mais afeta pessoas no mundo.

O alvo do estudo não foram os neurônios, mas um outro tipo de célula do cérebro até há alguns anos considerado secundário, os astrócitos. Sem eles, as mensagens químicas que permitem ao cérebro comandar o organismo não são enviadas.

Saiba mais sobre a pesquisa

Os astrócitos são células do sistema nervoso central que também desempenham importante papel na transmissão de sinais nervosos

— O que descobrimos não significa a cura, mas uma estratégia para conter o avanço da doença. Também pode ser um indicador do Alzheimer, quando as perdas de função cognitiva ainda não são evidentes — destaca a coordenadora do estudo, Flavia Alcântara Gomes, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB/UFRJ).

A principal característica do mal de Alzheimer é a perda da memória e dos processos cognitivos. A doença rouba do cérebro a capacidade de raciocinar. A pesquisadora explica que isso acontece porque conexões nervosas — as mensagens químicas — são destruídas por um tipo de substância inflamatória que a ciência chama de oligômeros ab. Os pesquisadores da UFRJ descobriram que os oligômeros atacam com ferocidade os astrócitos.

— Eles se tornam defeituosos e perdem funções — diz a pesquisadora. O resultado é que os astrócitos deixam de produzir uma substância essencial para a comunicação nervosa, chamada TGF-b1. Sem ela, o sistema de comunicação do cérebro começa a colapsar.

— Vimos que os níveis de TGF-b1 eram baixíssimos nos camundongos que servem de modelo para o mal de Alzheimer. Mas essa é uma molécula bem conhecida e podemos sintetizá-la. Quando a demos aos animais, a memória deles voltou. Eles pararam de apresentar sintomas e tiveram funções do cérebro restauradas — afirma a pesquisadora.

Outra a aplicação da descoberta é usar a medição dos níveis da TGF-b1 como biomarcador da doença. Baixas concentrações dessa substância poderiam indicar a existência da inflamação associada ao Alzheimer antes do surgimento de sintomas.

— Tanto o Alzheimer quanto outras formas de demência parecem ter forte relação com inflamações no sistema nervoso central. O que causa essas inflamações ainda não sabemos. Certamente há muitas causas e gatilhos. Mas, talvez, possa haver um tratamento comum para combater a inflamação — diz Flavia.

O estudo, que contou com a participação do grupo liderado por Sérgio Ferreira e Fernanda De Felice, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, é um mergulho na complexa química que comanda os processos de vida e morte.

— Entender a doença de Alzheimer é tentar compreender o próprio envelhecimento. Certamente há milhões de moléculas envolvidas. Nosso estudo encontrou uma e, com ela, uma forma de combater os sintomas. Não sabemos quantos anos ainda levaremos para usar esse conhecimento para ajudar as pessoas doentes — pondera a cientista.

Crise ameaça continuidade do estudo

A descoberta é promissora, mas isso não a torna imune aos efeitos da falta de verbas da qual agoniza a ciência no Brasil. Flávia Gomes salienta que o estudo só foi possível com os fundos concedidos pela Faperj, o CNPq e a Capes.

— Agora tudo isso está ameaçado. Estamos orgulhosos porque se trata de ciência 100% nacional, feita no Rio de Janeiro — diz Flávia.

Mas, como toda a ciência nacional, não há garantia de continuidade, observa a cientista: — Só temos amargado perdas de patrimônio científico. É pesquisa básica sem a qual não há avanços da ciência.


(Ana Lucia Azevedo para O Globo)


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