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Acadêmico fala da adoção das cotas na Universidade de São Paulo

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Publicado em 6/07/2017

Adoção de cotas pela USP divide estudantes e acadêmicos
Implantação aumentará gradualmente até 2021, quando 50% das vagas serão destinadas a alunos da rede pública

A decisão da maior universidade do Brasil, a Universidade de São Paulo (USP), de adotar cotas sociais e raciais gerou debate entre estudantes e acadêmicos. Os defensores da medida acreditam que a USP poderá ser democratizada com participação de minorias. Já os contrários criticam o caráter imediatista da mudança e destacam que a inovação vai gerar novas discussões na universidade, como a necessidade de apoio financeiro para os estudantes de baixa renda que ingressarem na instituição por meio do sistema de cotas.

O Conselho Universitário da USP, formado por professores, estudantes e funcionários, aprovou a determinação que 50% das vagas da universidade sejam reservadas a estudantes da rede pública — sendo 37,2% delas para pretos, pardos e indígenas (PPIs), número que corresponde à proporção da população de São Paulo que se identifica desta forma. A implantação será escalonada, aumentando ano a ano, até 2021, quando a meta será atingida. Já no vestibular de 2018, incluindo Fuvest e Enem, 37% dos ingressantes serão da rede pública.

O reitor Marco Antonio Zago  classificou a decisão como histórica no site da USP: “É emblemático, porque representa uma universidade, que tem liderança e muita visibilidade no país, assumir que a inclusão social é uma questão importante do ponto de vista de integração de nossa população”.

Sistema de democratização

Voluntária e aluna da associação Educafro, voltada para ações inclusivas na área do ensino, Keitchele Lima, de 26 anos, pretende estudar Direito e poderá ser beneficiada pela medida:— Com certeza terei uma oportunidade melhor. Saber que tem essa possibilidade, além da concorrência ampla, é fundamental. Mesmo se eu não conseguir passar, ficarei feliz por outras pessoas terem a oportunidade. Keitchele acompanhou toda a votação pela mudança e destacou que, mais importante que o ingresso em si, é a possibilidade de ampliar o diálogo de minorias no espaço acadêmico.

— É bom saber que eu posso ocupar o espaço, a cota também tem a importância da representatividade — avalia.

Autor da proposta que instituiu a cota racial, o professor André Singer, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da universidade, diz que a decisão da USP é histórica, já que a instituição era a única entre as universidades públicas paulistas a não adotar o sistema.

— As cotas raciais são uma reparação necessária a populações historicamente excluídas e ajudam a democratizar a universidade e o país — acredita.

Já o estudante Breno Ricardo, de 18 anos, aluno do curso particular Etapa, tem outra visão sobre o assunto:
— O ensino público é claramente defasado hoje em dia, mas acho que a cota para o estudante não seria vantajosa. Você dá uma chance a mais de (a pessoa) entrar numa universidade boa, mas sem aumentar o estímulo para que ela se supere. Não seria mais justo aumentar o investimento na educação pública para que seja melhor ou igual ao da rede particular? — questiona.

O rapaz, que estuda para passar na faculdade de medicina, alega que a medida é imediatista e defende uma mudança na educação a longo prazo.

— O ideal seria tentar elevar a qualidade geral do ensino, mas não pelas cotas — afirma Breno.

João Cyro André, professor da Escola Politécnica, foi um dos oito integrantes do Conselho Universitário que votou contra a cota racial porque acredita que a oportunidade deve ser baseada exclusivamente na condição econômica do aluno. O acadêmico também destaca que os alunos que ingressarem na universidade pelo novo sistema precisarão ser “monitorados muito bem”.

— Uma pessoa de condição socioeconômica baixa, mesmo com boa capacidade, se não tiver alimentação, transporte e tempo para estudar, não vai aguentar alguns cursos da USP, como engenharia e medicina.

Apoio financeiro

O professor disse que, ao longo nos últimos meses, discutiu, junto a outros docentes de sua unidade, a questão da cota com representantes de universidades federais de Minas, do Rio, de São Paulo e do ABC que já implantaram o benefício.

— Pelos relatos, dá para concluir que é fundamental que haja um apoio financeiro (para os cotistas). Os alunos que não receberam esse apoio tiveram muita dificuldade e uma parte até abandonou a universidade.

De acordo com João Cyro, a USP, que oferece auxílio moradia e de transporte para parte de seus alunos, não teria, com o orçamento atual, condições de proporcionar esses benefícios também para uma nova leva de estudantes. Há um sistema de bolsas para estudantes de baixa renda, que precisará ser revisto e ampliado, salientam especialistas.

— É preciso discutir se esse apoio será feito pela universidade, pelo governo estadual ou pelo governo federal — explica Cyro.

Segundo dados divulgados em junho, 36,9% dos calouros que ingressaram no último vestibular da USP fizeram o ensino médio em instituição pública. Com relação ao perfil racial, 19,3% dos alunos que estão no primeiro ano se autodeclararam como pretos, pardos ou indígenas.

Confira a íntegra.


(Juliana Arreguy e Sérgio Roxo para O Globo)


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