Em meio às notícias sobre as queimadas na Amazônia e o aumento do desmatamento no Brasil, a ABC promoveu o seminário “Sistemas de Monitoramento de Uso e Cobertura da Terra“, em sua sede no Rio de Janeiro, no dia 4 de setembro. O objetivo foi estimular uma discussão científica sobre os vários sistemas de monitoramento existentes, seus usos, aplicações, métodos de validação e novos sistemas em desenvolvimento.

Participaram das mesas de abertura o presidente da ABC, Luiz Davidovich, e os Acadêmicos coordenadores do evento, Carlos Nobre e Adalberto Val. Nobre destacou que, em pesquisa recente feita pelo Ibope, 96% dos brasileiros concordam que o presidente Jair Bolsonaro e o Governo Federal devem aumentar as medidas de fiscalização para impedir o desmatamento ilegal na Amazônia. Por isso, o debate se torna tão importante. “Há pouquíssimas coisas no Brasil que tenham unanimidade, essa é uma delas”, comentou o Acadêmico.

Os coordenadores do seminário: os Acadêmicos Adalberto Val e Carlos Nobre

O presidente da ABC reforçou que, ao esclarecer até mesmo questões que podem ser polêmicas na política, a ABC e os cientistas estão cumprindo o seu papel de estabelecer evidências. “Esse é o melhor caminho para combater as fake news, a ignorância, o obscurantismo anti-ciência que avança no país e no mundo. É estabelecendo a evidência científica. E essa é a nossa missão”, declarou Davidovich.

Pela manhã, a programação teve como foco os sistemas de monitoramento de mudanças de usos da terra na Amazônia. Integraram a primeira mesa redonda Matt Hansen, da University of Maryland; Claudio Almeida, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); Carlos Souza, do Imazon; Marcos Rosa, da Arcplan; e Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Os palestrantes da primeira mesa e o Acadêmico Carlos Nobre durante o debate.

Doutor em geomática e mestre em sensoriamento remoto, o tecnologista do INPE Claudio Almeida defendeu que o Brasil não pode ser simplesmente “comprador de um pacote”. Ele explicou: “Um país que tem um ativo ambiental, como o Brasil tem, em todos os seus biomas, não é só na Amazônia. Ele não pode prescindir de dominar essa tecnologia de ponta a ponta. Não pode prescindir de ter sistemas de monitoramento próprios, muito bem detalhados, de ter controle da tecnologia em cima disso”.

Da segunda mesa, participaram Lúbia Vinhas, do INPE; Andréa Coelho, da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará; Ricardo Abad, do Instituto Socioambiental; e Adriano Venturieri, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Os palestrantes da segunda mesa e o Acadêmico Adalberto Val durante o debate

Além de apresentar os sistemas de monitoramento utilizados na Amazônia, os palestrantes abordaram também suas aplicações em outras atividades. Diretora de fiscalização da Semas, Andréa Coelho falou sobre o uso desses sistemas nas operações de fiscalização no Pará e reforçou que o monitoramento da Floresta Amazônica é, antes de tudo, “um instrumento de luta contra sua destruição”.

O chefe geral da Embrapa Amazônia Oriental, Adriano Venturieri, defendeu a qualificação cada vez maior dos dados gerados pelos sistemas de monitoramento, para que possam apoiar, com maior eficiência ainda, a formulação de políticas públicas de acordo com a realidade local.

A gravação completa das mesas redondas está disponível na página da ABC no Facebook. Para assistir, clique aqui.

A luta de Ricardo Galvão em defesa da integridade da ciência e do cientista

A manhã se encerrou com uma homenagem ao Acadêmico e ex-diretor do INPE, Ricardo Galvão, feita pelo presidente da ABC. Na ocasião, Galvão foi presenteado com um exemplar da publicação da ABC “Ciência no Brasil – 100 anos da Academia Brasileira de Ciências” e foi aplaudido de pé pelo público que lotou o auditório da Academia.

Davidovich elogiou o posicionamento do Acadêmico frente aos questionamentos e críticas à atuação do INPE e à sua própria, como diretor da instituição, e declarou que esse “foi mais do que a defesa da ciência, foi a defesa da integridade da ciência e do cientista”.

O Acadêmico Ricardo Galvão e o presidente da ABC, Luiz Davidovich

Galvão defendeu que os cientistas conseguem trabalhar e dar sua contribuição para o país, independente de qualquer ideologia política. Ele observou que o Brasil passa por uma situação muito difícil e é preciso que a sociedade atue em parceria com a comunidade científica. “Não vamos deixar que as nossas convicções político-partidárias turvem os nossos olhos”, convocou o Acadêmico.

Graduado em engenharia de telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com mestrado em engenharia elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutorado em física de plasmas aplicada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), foi na Unicamp que Ricardo Magnus Osório Galvão iniciou sua carreira como professor, em 1971.cinco

Em 1982, saiu da universidade e foi para o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), onde atuou como pesquisador sênior por cinco anos. Entre 1986 e 1990, seguiu atuando como pesquisador sênior, porém desta vez, no INPE, onde assumiu a direção em 2016. Entre 2004 e 2011, atuou como professor titular no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), onde também foi diretor, de 2005 a 2012.

Paralelamente, Galvão atuou como professor, desde 1983, na Universidade de São Paulo (USP), onde dá aulas até então. Hoje, exonerado do cargo de diretor no INPE e professor titular na USP, o Acadêmico espera que os acontecimentos recentes provoquem uma reviravolta em prol da ciência brasileira.

 

Veja como foi a segunda parte do evento:

Outras aplicações para os sistemas de monitoramento da terra

Tema foi discutido durante o seminário “Sistemas de Monitoramento de Uso e Cobertura da Terra”, realizado pela ABC, em sua sede, no dia 4 de setembro.

E confira a repercussão na mídia:

FOLHA DE S.PAULO, 4/9
Questão da Amazônia nasceu com ataques de Bolsonaro, diz ex-diretor do Inpe

VALOR ECONÔMICO, 4/9
Ex-Inpe critica licitação para monitoramento privado

EXAME, 4/9
Ex-presidente do Inpe critica visão de governo Bolsonaro sobre Amazônia