Aprendizado, integração, dinamismo, network, excelência, inspiração, interatividade, colaboração. Essas foram algumas das primeiras palavras que vieram à cabeça de alguns dos 68 participantes do 4º Encontro Nacional de Membros Afiliados, promovido pela Academia Brasileira de Ciências, em Fortaleza, entre 24 e 26 de junho.

Se nos encontros anteriores o foco foi em política científica e no debate sobre os desafios dos jovens pesquisadores para desenvolver a carreira com a estrutura vigente, este ano o encontro concentrou-se na necessária mudança de atitude do cientista brasileiro diante de uma nova realidade. Um novo olhar para a comunicação da ciência para a sociedade, desenvolvido por meio de palestras e dinâmicas com especialistas. Possibilidades alternativas de financiamento para pesquisa, quando o Estado não está cumprindo seu papel, foram tema para interação entre os membros afiliados da ABC e representantes de instituições privadas ou públicas com experiência em inovação, inclusive Acadêmicos seniores.

Empenho exigido dos participantes

O biólogo André Quincozes dos Santos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou as atividades de estímulo ao uso das mídias sociais para divulgação de pesquisas como um ponto forte do evento. “Isso amplia a visibilidade da ciência entre a população, muito necessária no momento atual”, observou.

Esta também foi a opinião da biomédica Andreza Fabro de Bem, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), avaliando que o uso de ferramentas digitais torna o cientista responsável por explicar com clareza sua ciência e, com isso, desmistificá-la. “Foi uma super sacada da comissão organizadora do 4º ENMA”.

“Este tema é muito pouco desenvolvido em nosso meio e, certamente, foi um golaço da ABC abordá-lo no evento. Nos fez sair de nossas bolhas”, comentou o físico Felipe Bohn, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ele considerou excelente, também, a oportunidade de ouvir e refletir sobre outros caminhos para obtenção de recursos para o desenvolvimento de pesquisa. E refletiu que, para conseguir isso, “é preciso tornar mais acessível o que fazemos para o público em geral.”

“Foi sensacional ‘forçar’ a academia a olhar para a sociedade”, apontou o biólogo da Universidade Federal do Amazonas Igor Luis Kaefer. Ele participou do encontro anterior, em 2016, que teve um foco mais acadêmico. Dessa vez, experimentou “menos academicismo, mais desafios e a oportunidade de interação com profissionais não cientistas, como designers, atores e jornalistas.”

Entrar um pouco no mundo da arte e da comunicação jornalística foi revelador para o biólogo José Julio de Toledo, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), e o despertou para a necessidade de usar linguagem mais acessível e fortalecer a comunicação com a sociedade. “O cientista precisa ser mais sensível às questões sociais. Este encontro evidenciou a necessidade de mudarmos, no sentido de uma ciência mais inclusiva.”

Planejando os desdobramentos

E ficou um gostinho de “quero mais”. Márcio Weber Paixão, químico da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), quer mais tempo para refletir com profundidade sobre caminhos e estratégias para ampliar sua atuação na divulgação científica. A engenheira da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Raquel Minardi gostaria de ter mais acesso a mentorias de pesquisadores seniores sobre questões relativas à pesquisa e carreira. O biólogo Rodrigo da Fonseca, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sentiu falta de um momento para posters ou pequenas apresentações para incentivar as colaborações cientificas. A biomédica Flávia Lima Ribeiro Gomes, do Instituto Oswaldo Cruz, quer saber mais sobre como estabelecer colaborações internacionais proveitosas e gostaria de participar de oficinas de preparação de projetos com este fim.

E mais boas ideias surgiram. O biólogo Rui Daniel Schroder Prediger, da UFSC, sugeriu que fossem organizados grupos por área de interesse de pesquisa e promovidas oportunidades para discussão de colaborações. O engenheiro Tiago Roux de Oliveira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro propôs a organização de eventos menores, entre os Encontros Nacionais bianuais, (Uerj), para trabalhos mais integrados e criação de práticas mais efetivas de inserção social.

O engenheiro Renan Campos Chisté, da Universidade Federal do Pará (UFPA), foi bem honesto em sua avaliação. Contou que não tinha altas expectativas, pois imaginava “que fosse ser uma reunião tradicional, onde os membros falam da sua própria pesquisa, como num minicongresso”. E, como ele mesmo diz, essas informações estão disponíveis na internet para quem tiver interesse em encontrar. No entanto, relatou sua grande surpresa “com o cuidado da ABC em nos oferecer momentos tão valiosos de aprendizado, que nos tiraram de nossas zonas de conforto. Nos abriram os olhos para assuntos importantes, que complementam a nossa formação e ampliam nossa possibilidade de contribuição efetiva para com a sociedade.”

Sim, o próximo comitê científico terá muito trabalho pela frente, para atender às inúmeras sugestões e à fome de ciência e de atuação social dos jovens cientistas da ABC. Novidades em breve!