Projeto para salvar os muriqui-do-norte recebe 1 milhão de dólares

6 de novembro de 2026 Por Universidade de Wisconsin-Madinson

*Traduzido de University of Wisconsin-Madinson

Quando Karen Strier começou a pesquisar os muriquis-do-norte no Brasil, na década de 1980, descobriu que eles representavam uma anomalia entre os primatas. Naquela época, a maior parte do que se sabia sobre primatas provinha de pesquisas realizadas na África e na Ásia, focadas em espécies que, supunha-se, ofereceriam pistas mais claras sobre a evolução humana. Portanto, ao encontrar uma sociedade pacífica de macacos — na qual a agressão era rara, os machos permaneciam em seus grupos de parentesco, as fêmeas eram independentes e os abraços eram frequentes —, ela se deparou com algo que contrariava todas as normas antropológicas que havia estudado até então.

“Eles ganharam, na literatura e na imprensa, o apelido de ‘macacos hippies’ e tornaram-se um símbolo de sociedade pacífica”, diz Strier, professora de pesquisa (Vilas Research Professor) e titular da cátedra Irven DeVore de Antropologia [da Universidade de Wisconsin-Madinson, EUA]. “É um exemplo muito diferente do que observamos em chimpanzés e babuínos, nos quais os machos são maiores que as fêmeas, existe uma natureza agressiva e ocorrem até conflitos que lembram guerras.”

Infelizmente, esses muriquis, conhecidos por sua natureza pacífica, estão criticamente ameaçados de extinção. Nos mais de 40 anos em que Strier os estuda, ela acompanhou a população diminuir, crescer e, agora, voltar a diminuir. O grupo que ela pesquisa começou com apenas 50 indivíduos; em 2015, a população atingiu um pico de 356 animais. Secas, doenças e predação, ao longo da última década, contribuíram para os desafios enfrentados por essa espécie, que é endêmica do Brasil.

Uma família de muriqui-do-norte (Foto: Marcos Amend)

“[A perda populacional] foi um verdadeiro alerta para mim”, diz Strier. “Embora o habitat estivesse sendo protegido — não havia extração seletiva de madeira nem caça —, esses pequenos fragmentos florestais, e os animais que neles sobreviviam, continuavam extremamente vulneráveis ​​a fatores como doenças e mudanças climáticas.”

O Phoenix Species Project — uma iniciativa de US$ 200 milhões da Re:wild e do Bezos Earth Fund — traz esperança para Strier e seus objetos de estudo peludos. O projeto destinará US$ 1 milhão ao longo de cinco anos, voltados diretamente para a conservação do muriqui-do-norte; Strier lidera o esforço, atuando como ponto focal e gestora da recuperação da espécie.

“A Dra. Karen Strier trabalha com muriquis desde 1983, e praticamente tudo o que sabemos sobre essa espécie provém de seu projeto e de sua liderança”, afirma Fabiano de Melo, codiretor de recuperação de espécies no projeto e ex-pesquisador de pós-doutorado sob a supervisão de Strier. Melo é professor de manejo de vida selvagem na Universidade Federal de Viçosa e um dos vice-presidentes do Grupo de Especialistas em Primatas da Comissão de Sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN SSG). “Ao refletir sobre este momento e a importância deste financiamento, posso afirmar, sem dúvida, que se trata de um dos passos mais significativos para a conservação do muriqui-do-norte, em um momento crucial.”

Graças às quatro décadas de estudos de Strier sobre os muriquis-do-norte, pesquisadores possuem um conhecimento profundo da natureza desses primatas, bem como das ameaças que eles enfrentam. Isso inclui a perda de habitat, a fragmentação florestal, a predação excessiva, doenças, os impactos das mudanças climáticas, entre outros fatores.

Strier também estabeleceu conexões com governos locais, proprietários de terras e grupos de conservação, que estão prontos e dispostos a ajudar esses primatas de temperamento pacífico.

“Este projeto será fundamental para a implementação efetiva de estratégias voltadas aos muriquis, como parte das políticas públicas para a conservação da espécie”, afirma Leandro Jerusalinsky, cogestor de recuperação da espécie, chefe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas e Xenartros (ICMBio/CPB) e vice-presidente do Grupo de Especialistas em Primatas da IUCN SSC.

Karen Strier durante evento com a ABC em 2025 (Foto: Erikson Fernandes)

Strier vê este financiamento como o fechamento de um ciclo. Ela recorda os primeiros anos, quando percebeu que, na sociedade desses macacos, as fêmeas eram os indivíduos independentes — uma descoberta sem precedentes. Agora, essa pesquisa será utilizada para criar uma estratégia de conservação, que incluirá a dispersão assistida para ajudar a prevenir o “gargalo genético” (redução drástica da variabilidade genética). Trata-se de um esforço para transferir fêmeas isoladas para outro grupo de muriquis, favorecendo o acasalamento e o nascimento de novos indivíduos saudáveis. Sem o seu estudo inicial, não se saberia que era necessário deslocar as fêmeas, nem em qual época do ano isso deveria ser feito.

“Não poderíamos ter encontrado uma pessoa melhor para liderar o Projeto de Recuperação do Muriqui do que Karen Strier, cujas descobertas científicas sobre esses animais, ao longo dos últimos 43 anos, têm sido o pilar fundamental para a sua conservação”, afirma Russell A. Mittermeier, diretor de conservação da organização Re:wild e presidente do Grupo de Especialistas em Primatas da Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN. “Quando apresentei a Karen a esse animal, em 1982, praticamente nada sabíamos sobre ele. Hoje, é uma das espécies de primatas mais bem estudadas do mundo, e o trabalho de Karen constitui um dos estudos contínuos de maior duração já realizados sobre qualquer primata… Existe uma excelente oportunidade para a recuperação deste animal extraordinário.”

Leia o original, em inglês, na UW-Madinson.