Novo relatório do IPCC foi tema de edição especial dos Webinários da ABC

11 de agosto de 2021 Por (Marcos Torres para ABC)

Os participantes da edição especial dos Webinários da ABC “Brasil e as mudanças climáticas: Novo relatório do IPCC”

O papel do homem no aquecimento global é irrefutável. Essa é uma das conclusões do novo relatório realizado pelo grupo de trabalho 1 (WG1) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em inglês). O Painel é uma colaboração de 195 países, envolvendo especialistas do mundo inteiro para fornecer avaliações regulares sobre mudanças climáticas e suas diversas implicações. 

O documento publicado nesta segunda-feira (09/08) focou nas bases físicas do aquecimento. Para discutir as principais conclusões, foi realizado uma edição especial dos Webinários da ABC, contando com a participação dos pesquisadores Paulo Artaxo (USP, membro titular da ABC), Thelma Krug (IPCC), José Marengo (Cemaden, membro titular da ABC) e Lincoln Alves (Inpe), que participaram ativamente da elaboração do documento. O evento foi mediado pelo presidente da Academia Brasileira de Ciências Luiz Davidovich. 

Dados: IPCC, Tradução: Jornal da USP

Essa é a primeira vez que o relatório quantifica a influência humana no clima. Os efeitos antropogênicos já são responsáveis por um aquecimento médio global de 1,1°C, número que aumenta para 1,6°C nos continentes.  “É indiscutível que as atividades humanas estão causando mudanças climáticas, tornando eventos extremos como ondas de calor, chuvas torrenciais e secas mais frequentes e severas.” apontou Paulo Artaxo. 

Outro aspecto inovador do documento é a linguagem, mais enfática e direcionada do que nos anteriores, clamando por medidas imediatas em grande escala para reduzir emissões de gases de efeito estufa. Muitas das mudanças já são irreversíveis, mas podem ser mitigadas. O cumprimento dos objetivos do Acordo de Paris, por exemplo, pode ser a diferença entre termos, para 2100, um aquecimento médio de 1,5°C, no melhor cenário, ou de 4,3°C se nada for feito. “Os relatórios do IPCC têm papel importante na criação de pontes entre a ciência e a política” destacou Thelma Krug. 

Um dos efeitos mais diretos do aquecimento é a elevação do nível do mar, consequência do derretimento das calotas polares. Em uma das previsões de mais longo prazo, estima-se que até 2300, o potencial de aumento dos níveis oceânicos chega a 15 metros, o que traz implicações gravíssimas para todas as áreas litorâneas do globo. 

Relação entre o global e o regional 

O relatório também enfatizou estas conexões. As alterações nos ciclos hídricos são de especial atenção para a América do Sul, “que muito provavelmente assistirá a um crescimento nos níveis de chuva a noroeste (Colombia, Peru e Equador) e sudeste (Paraguai, Uruguai, norte da Argentina e sul-sudeste do Brasil). Ao mesmo tempo, é também provável a intensificação das secas no Nordeste e nas áreas centrais do Brasil, bem como no Chile e sul do Peru” ressaltou Lincoln Alves em sua apresentação. 

Esses dados são economicamente muito relevantes para o Brasil, uma vez que apontam para problemas na produção agrícola do país, seja no agronegócio ou na agricultura familiar. A intensificação da seca na região amazônica dificulta também o controle de queimadas, aumentando o desmatamento e criando um ciclo vicioso, no qual a floresta sequestra cada vez menos carbono e acaba se tornando mais uma emissora desse elemento para a atmosfera. Por outro lado, a maior precipitação no Sudeste indica que desastres naturais, como inundações e deslizamentos, podem se tornar cada vez mais frequentes. 

As metrópoles também foram analisadas do ponto de vista local. “É sabido que as cidades são hotspots de aquecimento, devido à verticalização, à falta de cobertura vegetal, aos efeitos do trânsito e da poluição do ar. Isso é particularmente relevante quando consideramos a estimativa de 80% da população mundial vivendo em cidades até 2050 ” disse José Marengo, destacando a importância de soluções verdes para os grandes centros urbanos. 

Uma novidade trazida desta vez pelo IPCC foi a criação de um Atlas Interativo, que permite ao usuário uma busca mais localizada de dados, podendo ser acessado por qualquer pessoa – o que pode contribuir para uma maior agilidade na elaboração de políticas públicas. 

Discussão 

O webinário contou com ampla participação do público nas perguntas para os convidados. Foi repetidamente enfatizado pelos palestrantes que o papel do IPCC é apresentar os dados que podem ser utilizados como orientação para os governos, mas destacando que o IPCC não formula políticas públicas nem impõe mudanças. Thelma Krug destacou que o Painel tem apenas 12 funcionários – todos os cientistas que elaboram os estudos o fazem voluntariamente.

Foi feito um breve panorama da evolução do órgão ao longo dos anos, o crescimento no número de participantes e a maior complexificação dos dados em relação a documentos anteriores. Um exemplo disso é que pela primeira vez gases com meia-vida curta foram considerados separadamente. O metano é o principal desses gases e o Brasil responde por grande parte das emissões mundiais. A redução desses níveis pode contribuir muito para frear o crescimento das temperaturas em um curto espaço de tempo. 

Foi lembrado também que este relatório é um precursor de outros dois documentos, cuja publicação é esperada para o ano de 2022 e que entrarão mais a fundo nos impactos e nas possíveis mitigações para o aquecimento global. Com relação a medidas a serem adotadas pelo Brasil, estas devem seguir diretrizes gerais que valem para o resto do mundo: acelerar a transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis, estancar o desmatamento, sobretudo na Amazônia, e adaptar as economias urbana e rural para os efeitos futuros das mudanças climáticas. 

O relatório completo do grupo de trabalho 1 (WG1) do IPCC pode ser acessado aqui. 

O webinário na íntegra pode ser assistido no canal da ABC no YouTube.