Conselho Internacional de Ciência se reúne em Pequim

5 de novembro de 2026

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) esteve em Pequim, na China, de 19 a 23 de outubro, para o Beijing Science Dialogue e a Reunião de Meio de Mandato dos Membros do Conselho Internacional de Ciência (ISC, na sigla em inglês). Os dois eventos foram organizados pelo ISC e pela Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST) no Centro Nacional de Convenções da China e reuniram mais de mil representantes da comunidade científica de 88 países. Foi a primeira vez que a reunião de meio de mandato do ISC aconteceu em Pequim.

A ABC foi representada por seu diretor executivo de Relações Internacionais, Marcos Cortesão. Também participaram os Acadêmicos Márcia Barbosa, vice-presidente do ISC para Liberdade e Responsabilidade na Ciência, e Marcelo Knobel, diretor executivo da Academia Mundial de Ciências (TWAS).

Entre os destaques do encontro esteve a posse do físico-matemático holandês Robbert Dijkgraaf como presidente do ISC, sucedendo Peter Gluckman. Em seu discurso, Dijkgraaf defendeu a ciência como “uma força de convergência em um mundo fragmentado”. Os participantes também adotaram a Declaração de Pequim, com o tema “Ciência em um mundo complexo, ciência para um futuro melhor”. O documento reúne 18 compromissos, entre eles a defesa da liberdade científica, normas compartilhadas para o uso de inteligência artificial na pesquisa, o fortalecimento da confiança pública na ciência e um papel maior da ciência na próxima agenda global de sustentabilidade.

A ABC participou de várias reuniões paralelas ao longo da semana. Na reunião informal do S20, grupo de academias de ciências do G20, conduzida pela Royal Society, as academias discutiram os primeiros passos do S20 de 2027, sob presidência do Reino Unido. A ABC destacou que a escolha dos temas do S20 deve aguardar a definição, pelo governo britânico, das prioridades do G20 para 2027. Para a Academia, os temas do S20 precisam estar alinhados aos do G20. Só assim as recomendações da comunidade científica chegarão às questões centrais que os chefes de Estado e de Governo terão à mesa de negociação, o que aumenta a chance de serem levadas em conta.

Representando a presidente da ABC, Helena Nader, Marcos Cortesão participou da 4ª reunião do Comitê Diretor do Fórum Mundial de Ciência (World Science Forum, WSF). A próxima edição do Fórum será de 17 a 20 de março de 2027, em Istambul, organizada pela Academia de Ciências da Turquia (TÜBA), com o tema “Ciência em tempos de crises globais”. A reunião tratou principalmente da definição dos palestrantes. A ABC defendeu que a programação inclua nomes não apenas do Brasil, mas do Sul Global como um todo. Para a Academia, um fórum que discute as crises globais precisa ouvir os cientistas dos países mais afetados por elas, que muitas vezes também estão na linha de frente das soluções. Essa presença é necessária para que o debate seja de fato global e para que as conclusões do Fórum reflitam as prioridades e a produção científica das diferentes regiões do mundo.

No fórum dos membros nacionais do ISC (membros da Categoria 2, que reúnem academias e conselhos nacionais de ciência), a ABC apontou a necessidade urgente de mais coordenação entre o ISC e outras organizações científicas internacionais, como a

Parceria InterAcademias (IAP) e a TWAS. A Academia defendeu uma relação mais colaborativa e menos competitiva entre essas instituições, que juntaria esforços e evitaria trabalho em duplicidade. A ABC reforçou essa mensagem na sessão regional dos membros e Fellows do ISC na América Latina e no Caribe, organizada pelo Ponto Focal Regional do ISC. A sessão também lançou o Relatório Anual 2025 do Ponto Focal e os resultados do projeto-piloto de assessoramento científico com a ParlAmericas.

Para o Acadêmico Marcelo Knobel, diretor executivo da TWAS, que participou pela primeira vez de uma reunião do ISC, o encontro foi “muito abrangente e rico”. “Os principais tópicos atuais, incluindo a diplomacia científica, as mudanças climáticas e a inteligência artificial, foram amplamente discutidos, com a participação de pesquisadores de muitos países e de instituições que compõem o ISC, como a ABC e a TWAS. Foi uma experiência interessante, ampliada pela incrível hospitalidade chinesa”, avaliou.

Já para a Acadêmica Márcia Barbosa, o encontro foi “uma oportunidade de mostrar os projetos que o Comitê para Liberdade e Responsabilidade na Ciência tem desenvolvido a partir de demandas dos membros”. Ela citou iniciativas voltadas à facilitação de vistos para cientistas que precisam viajar para participar de eventos, ao apoio a pesquisadores em áreas de conflito e guerra, à integridade científica diante dos desafios da inteligência artificial, à defesa da confiança pública na ciência e aos desafios éticos ligados à responsabilidade na ciência. Cada tema ganhou um canal próprio de divulgação no site do ISC. Segundo a Acadêmica, as discussões em Pequim deixaram claro que cabe ao ISC propor à Organização das Nações Unidas (ONU) um processo de facilitação de vistos para cientistas e promover uma ampla discussão na comunidade científica sobre o uso responsável da inteligência artificial.

A participação nas reuniões de Pequim reforça o compromisso da ABC com a cooperação científica internacional e com a voz do Brasil e do Sul Global nos principais fóruns de ciência do mundo. A Academia seguirá acompanhando a preparação do S20 e do Fórum Mundial de Ciência de 2027 e trabalhando, junto ao ISC e a organizações parceiras, para ampliar a contribuição da ciência à formulação de políticas públicas. Tais esforços têm por objetivo somar forças visando ao enfrentamento dos grandes desafios globais, à construção de um planeta sustentável e de sociedades mais justas e à garantia de que os benefícios do conhecimento científico sejam compartilhados por todos.