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Ciência moldando materiais e vidas

A ciência é uma construção coletiva e todo bom trabalho deve estar apoiado “sobre os ombros de gigantes”. A metáfora dos anões estarem sobre ombros de gigantes (em latim: nanos gigantum humeris insidentes) expressa o significado de “descobrir a verdade a partir das descobertas anteriores”. Esse conceito tem origem no século XII, e é atribuído a Bernardo de Chartres. Seu uso mais conhecido vem de Isaac Newton, que escreveu em 1675: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.” No caso do químico Tiago Elias Allievi Frizon, novo membro afiliado da ABC, esse foi um aprendizado que veio naturalmente. Filho caçula de uma professora da rede pública com um comerciante, Tiago sempre foi incentivado a cursar uma faculdade e teve o exemplo de dois irmãos que ingressaram no ensino superior antes dele.

Tiago nasceu em 1982, no município catarinense de Ponte Serrada, onde passou a maior parte da infância. Aos 12 anos, se mudou para Concórdia, também no estado de Santa Catarina, e lá viveu até passar para a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sempre gostou de praticar esportes, especialmente voleibol. Na escola era assíduo e responsável, e conta que sempre gostou de ciência: “Fui influenciado por programas educativos infantis na TV e também por uma brincadeira de fazer perfumes com flores e folhas em casa. Já na escola, minha professora de química, Marla, certamente me estimulou a seguir nesse caminho”.

Durante o início da faculdade, Tiago lembrava das noites que a mãe virava corrigindo provas e isso o afastava da docência. Porém, sua experiência com monitorias na graduação o fez mudar de ideia. Percebeu que a vida universitária unia duas de suas paixões: ensinar e pesquisar. E foi assim que iniciou no Departamento de Química da UFSC sua trajetória acadêmica, desde a iniciação científica até o pós-doutorado.

Tiago Frizon atua no desenvolvimento de materiais avançados para aplicação industrial, desde tecnologias para telas de celular e televisão, nanopartículas minerais com atuação farmacológica, até a criação de inovações metodológicas para reduzir o impacto ambiental da indústria. “O que me encanta na minha área é a possibilidade de moldar a matéria e obter novos produtos com uma variedade de aplicações, temos realmente um mundo de inovações onde atuar”, relatou o pesquisador.

Nas palavras do Acadêmico, “a ciência é resultado de conhecimento adquirido através de pesquisa e muito estudo, indicando um caminho seguro na tomada de decisões”. Ele reforça esse caráter colaborativo da profissão ao lembrar dos muitos nomes que o ajudaram nessa caminhada: “Tereza Cristina, Augusto Ceccato, José Bertolino, Hugo Gallardo, Antônio Luiz Braga, Fernando Molin, Deise Maria, Gilmar Conte, Rodrigo Cristiano, Fernando Bryk, Fernando Ely, Marcelo Godoi, Paulo Taube Júnior, Jamal, Sumbal, Gian, Juliano, Fábio, Rômulo, Vanessa, Jesus, isso só pra citar alguns”.

Sobre a eleição para a Academia Brasileira de Ciências, Tiago diz que é “um privilégio e um motivo de orgulho pertencer a um grupo tão seleto de cientistas brasileiros”, destacando o papel das sociedades científicas na vanguarda do conhecimento. Mas destaca que essa é uma honra não apenas individual, mas coletiva. “É um reconhecimento à UFSC, de onde sou egresso. É a universidade pública cumprindo seu papel social”.

Mas nem só de ciência vivem os cientistas. Na música, seus estilos principais são o rock’n roll e o pop rock, que fizeram parte de sua juventude. Amante da culinária, adora experimentar comidas diferentes e degustar um bom vinho. No tempo livre, Tiago gosta de aproveitar a companhia da família, viajar e se desligar do trabalho, pois ninguém é de ferro.

Retorno para a sociedade através da tecnologia e da inovação 

Vinicius Farias Campos nasceu em 1984, na cidade de Cruz Alta, no estado do Rio Grande do Sul (RS), a 346km da capital Porto Alegre. O novo membro afiliado da ABC é biólogo (2007), mestre (2009) e doutor em biotecnologia (2011), tendo concluído todas as fases de sua formação na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Caçula da família, filho de uma professora de escola municipal e de um policial civil, teve o irmão mais velho, que já cursava a Faculdade de Direito da Universidade de Cruz Alta (Unicruz) quando Vinicius ainda era criança, como inspiração para ingressar no ensino superior.  

Ótimo aluno em matemática e física, Vinicius optou pelo curso de engenharia elétrica na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em seu primeiro vestibular, mas não foi aprovado. O acontecimento fez com que ficasse indeciso quanto ao seu futuro por pelo menos seis meses. Estudando por conta própria e também em um cursinho pré-vestibular, decidiu prestar vestibular para a UFPel, mas em uma nova área – já que, naquela época, a UFPel não oferecia cursos de engenharia. A paixão pela área de genética foi determinante para que o cientista optasse pela biologia, curso no qual foi aprovado. Ele deu início à graduação em 2003, aos 19 anos. 

Logo após ingressar na universidade, no segundo semestre do curso, Vinicius Campos deu início à um estágio no Laboratório de Genética de uma outra universidade, a Católica de Pelotas (UCPel). Já no terceiro semestre, ele descobriu que a UFPel possuía um Centro de Biotecnologia e participou de um processo seletivo de iniciação científica para atuar no Laboratório de Engenharia Genética Animal. Foi então contemplado com uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e, já na reta final do curso, conseguiu uma bolsa do CNPq. “Por acaso, na universidade que fui estudar havia um centro com pesquisas muito avançadas na área de genética, o que reforçou minha certeza sobre a escolha do curso e da universidade”, comentou o Acadêmico. 

Ao longo de sua vida na UFPel, Campos conta ter conhecido muitas pessoas marcantes, especialmente alguns grandes cientistas que o incentivaram muito em sua formação. Um professor marcante foi Tiago Collares, também membro afiliado da ABC, que na época da graduação de Campos estava no mestrado e foi seu orientador da iniciação científica. Considerado por Campos um “grande incentivador, amigo e hoje colega de profissão”, Collares foi seu orientador também no doutorado. Entre os momentos mais marcantes de sua jornada na UFPel, ele destacou os prêmios e colaborações: “O doutorado foi um período de grande aprendizado e recebi o Prêmio Capes de Tese de 2012 na área de biotecnologia”, lembrou o Acadêmico, que defendeu a tese em menos de dois anos e meio. No ano de 2021, ele teve a honra de receber novamente o Prêmio Capesde Tese – desta vez, como orientador. 

Atualmente, Campos é professor associado do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDTec) da UFPel no curso de graduação em biotecnologia. Também coordena um grupo de pesquisa no Laboratório Genômica Estrutural, no qual utiliza técnicas de biotecnologia para buscar melhorias na criação de animais de produção, principalmente bovinos e peixes. Além disso, seu grupo busca sempre parceiros do setor produtivo ou governamental para a transferência das tecnologias geradas através de suas pesquisas, visando um rápido retorno para a sociedade. O cientista colabora em diversas atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação com instituições do Brasil, Estados Unidos, Espanha, Argentina e Uruguai. 

“A ciência, independente da área, trabalha sempre baseada em evidências, sempre buscando dados para dar alguma resposta. Foi assim que a ciência nos fez chegar até aqui, como sociedade e humanidade”, explicou Vinicius Campos, comentando os motivos pelos quais seguiu a carreira científica. “A partir da ciência fizemos descobertas, invenções e melhorias que aumentaram a nossa qualidade de vida de maneira geral. Um exemplo claro da capacidade da ciência em dar respostas para a sociedade foi o desenvolvimento das vacinas para a covid-19”, destacou o pesquisador. 

Entre os muitos títulos em sua carreira, Campos é superintendente de Inovação e Desenvolvimento Interinstitucional da UFPel, coordenador da Regional Sul do Fórum Nacional dos Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec) e membro da Unidade Embrapii InovaAgro da UFPel. É também presidente do Comitê Institucional de Propriedade Intelectual desde 2017, presidente do Comitê Gestor da Incubadora da Base Tecnológica Conectar da UFPel e membro do Conselho de Administração do Pelotas Parque Tecnológico. 

Agora, com mais um título no currículo – o de membro afiliado da ABC -, Vinicius Farias Campos demonstra entusiasmo com as novas possibilidades. Ele avalia que ser um Acadêmico significa que a comunidade científica em geral está reconhecendo o trabalho dos jovens pesquisadores em suas áreas de atuação. “Fico extremamente contente de ter a trajetória reconhecida pela entidade científica mais importante do país. Esse reconhecimento traz a responsabilidade de lutar por melhores condições para a ciência e tecnologia no Brasil.” O fato de vir atuando como gestor de inovação nos últimos anos faz com que Campos creia que sua principal contribuição na ABC será fortalecer a área de inovação para dentro da Academia. “Pretendo demonstrar que a ciência desenvolvida nos laboratórios pode ser transformada em produtos e processos, ser transferida para o setor produtivo, gerar renda e melhorias sociais para o país”, explica o Acadêmico. 

 Quando não está nos laboratórios, Campos se dedica ao seu principal hobby: a música. Ele é guitarrista e, desde a faculdade, participou de muitas bandas de rock – algo que o ajudou a custear uma graduação longe de casa. “Então, a música é parte da minha vida, assim como a ciência.” 

Matemática na veia 

Analisando sua trajetória, o matemático Ademir Pastor Ferreira considera a ciência como o grande agente de mudança em sua vida. Ele confessa seu encantamento pela precisão e beleza que ela oferece para descrever a natureza e a maneira como ela muda nossa forma de ver e pensar o mundo.  

Nascido em 1982, Ademir passou a infância no município paranaense de Assis Chateaubriand, num sítio a 10 km da cidade. Desse tempo, ele carrega muitas de suas memórias mais divertidas. “Vivia brincando pelas redondezas com vizinhos ou primos. Quando podia, saía de casa de manhã e só voltava para as refeições. Gostava de brincar de tudo, especialmente do campinho de futebol”. Os pais eram agricultores e não terminaram o ensino fundamental. Arrendaram uma terra da família e nela trabalhavam, inclusive convocando os filhos algumas vezes. 

Da pesada bola de capotão para as peladas até as reuniões com os avós, os momentos deixaram saudade. Mas Ademir também precisou lidar com adversidades: até os 15 anos, não tinha energia elétrica em casa e contava com o auxílio de uma lamparina à querosene para estudar à noite. Para assistir às aulas, percorria três quilômetros a pé diariamente para pegar o ônibus que o levava ao colégio. “Às vezes era difícil, principalmente quando chovia, mas eu não gostava de perder nenhuma aula, principalmente de matemática, que era minha matéria favorita.” 

Ademir sempre foi muito estudioso. Desde pequeno, gostava de pegar os livros dos irmãos mais velhos para estudar sozinho e tentar resolver exercícios mais difíceis. “Creio que a matemática sempre fez parte de mim”, avalia. Entre os fatores que o colocaram no caminho da ciência ele cita a participação numa maratona de matemática, ainda no 8º ano do fundamental. Ele tirou o primeiro lugar – e o troféu, que marca seu primeiro passo na ciência, está exposto em sua sala até hoje.  

Embora sem referências acadêmicas na infância, com incentivo dos professores os três irmãos conseguiram mudar de vida. O mais velho saiu de casa para cursar a faculdade de química quando Ademir tinha 12 anos; o do meio cursou a faculdade de física, algum tempo depois de mudar-se de cidade para trabalhar em uma cooperativa local. “O principal modelo que me influenciou para seguir no ensino superior foi meu irmão mais velho. Com o sucesso que ele teve, eu vi que era possível.” Orgulhoso, Pastor conta que agora a família tem três cientistas das ciências exatas.  

Quando passou no vestibular, aos 17 anos, para a Universidade Estadual de Maringá (UEM), a primeira preocupação de Ademir foi a necessidade de se manter sozinho. Seu primeiro passo foi trabalhar como boia-fria nos meses de dezembro a fevereiro, visando juntar algum dinheiro para os meses iniciais na nova cidade. “Na época [em 2000], a vida em Maringá não era muito cara e eu fui morar numa república. Tive a sorte de, a partir do terceiro mês na cidade, conseguir um emprego de ‘porteiro folguista’ no prédio onde morava, cobrindo a folga dos porteiros nos finais de semana e férias. Este recurso, junto com os de algumas aulas particulares que dava, eram suficientes pelo menos para pagar o aluguel”, contou o Acadêmico. 

A partir da metade do segundo ano, Ademir conseguiu uma bolsa do Programa Iniciação Científica (Pibic) em análise matemática, podendo abrir mão do emprego de porteiro e passando a e dedicar à sua formação, sob orientação do professor Nikolai Andreevitch Larkine, por quem demonstra profunda gratidão, por conta de uma contribuição fundamental à sua vida. “Por questões de data, a bolsa terminou no meio do último ano do curso e não podia mais ser renovada. Para eu me manter, certamente teria que arrumar algum emprego fora da universidade. Foi então que o professor Larkine me propôs o seguinte: se eu quisesse, poderia continuar com a IC e ele me pagaria com recursos próprios o valor equivalente à bolsa; é claro que aceitei!”  

Em 2003, Ferreira terminou a graduação, tendo sido agraciado com a distinção de “láurea acadêmica”, conferida ao aluno que ao final do curso, além de comportamento acadêmico exemplar, tenha obtido pelo menos dois terços de suas notas acima de 9,0. Diante do sucesso com a monografia, no ano seguinte o Acadêmico foi aprovado diretamente para o doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com bolsa da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ferreira deu sequência aos estudos em equações diferencias, área na qual atua até hoje. O Acadêmico fez um pós-doutorado no Instituto de Matemática Aplicada (IMPA) entre 2008 e 2010 e é professor da Unicamp desde 2014. 

Ademir explica que as equações diferenciais têm origem em diversos fenômenos naturais: desde os modelos mais simples, como a transmissão de calor em uma barra metálica, aos modelos mais complexos, como a descrição de um sistema físico em mecânica quântica. Uma das análises realizadas pelos pesquisadores da área consiste em, de posse de equações que regem um determinado sistema e um estado inicial, prever o que vai acontecer com o sistema no futuro.  

Um dos usos mais conhecidos dessa área da ciência é na previsão do tempo: graças aos cálculos, é possível saber as condições climáticas em um determinado dia e como as massas de ar se deslocam. Durante a pandemia de covid-19, esse modelo matemático foi útil para prever sua evolução, auxiliando cientistas de outras áreas a pensar em novas recomendações e medidas de contenção. Ferreira deixa claro que as equações diferenciais têm uma gama de aplicabilidade em diversos ramos da ciência, havendo exemplos diversos em modelos econômicos, modelos físicos, modelos biológicos, entre muitos outros.  

No tempo livre, Ademir Ferreira gosta de acompanhar os esportes, especialmente futebol, que também pratica desde que se entende por gente. Outra paixão que o acompanha desde sempre é a música: “Meu pai sempre teve um ‘violãozinho’ em casa, e foi com ele que aprendi a tocar os primeiros acordes.” Eclético, o Acadêmico ouve um pouco de tudo – do rock ao sertanejo universitário, de “pisadinha” ao samba de raiz. Mente aberta, importante para todo bom cientista.  

Ciência para melhorar a vida das pessoas 

Escolher uma faculdade nunca é fácil e seguir a carreira dos pais se torna uma alternativa para muitas pessoas na hora da dúvida. No caso de Luiz Osório Silveira Leiria, essa decisão ainda teve uma forte carga emocional. Forçado a mudar de cidade por conta de um câncer repentino da mãe, teve que escolher um curso às pressas para realizar o desejo dela de vê-lo no ensino superior. Felizmente ela venceu a doença e pôde ver o filho alçar voos ainda mais altos até ingressar na Academia Brasileira de Ciências. 

Nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul, o novo membro afiliado cresceu com muito amor e apoio. Filho único de um agropecuarista com uma farmacêutica, Luiz seguiu a carreira da mãe. “Quando eu era criança minha mãe trabalhava em um laboratório de análises clínicas, e vem daí minha familiaridade com microscópios”, lembra o Acadêmico. 

Apesar da afinidade com biologia e química vir de berço, Luiz só despertou para a ciência na faculdade, na graduação em farmácia na qual entrou em 2005, na Universidade Franciscana (UFN) em Santa Maria, no mesmo estado. Inspirado pelos professores José Aparício Funck e Antônio Fontoura Pereira, a quem chama carinhosamente de Coquinho, resolveu fazer pesquisa. “Espero um dia inspirar outros jovens assim como eles fizeram comigo”, revelou. 

O novo Acadêmico fez iniciação científica em farmacologia, mas logo migrou para a área de controle de qualidade de medicamentos. Nessa nova fase, integrou um laboratório credenciado pela Rede Brasileira de Laboratórios Analíticos em Saúde (Reblas, onde fazia ensaios de equivalência farmacêutica. A experiência lhe possibilitou estagiar na indústria, onde chegou a ser efetivado ao se formar. 

“Nesse período, percebi que tinha talento para a pesquisa, mas que o meio corporativo não permitiria que eu me desenvolvesse cientificamente como gostaria”, contou. Foi então que decidiu largar a carreira no setor privado e voltar para o meio acadêmico. Fez então mestrado e doutorado na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), sob orientação do professor Edson Antunes, com quem aprendeu muito sobre desenho experimental e aproveitamento de recursos. Além disso, o valor das relações humanas e da honestidade também foram ensinamentos importantes deixados pelo mestre. 

Conseguiu então uma bolsa da American Diabetes Association (ADA) para um pós-doutorado (2014 – 2017) no Centro de Diabetes Joslin da Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos. Lá teve como orientadores os professores Mauro Saad e Yu-Hua Tseng, com quem percebeu a importância de seu objeto de pesquisa e as inúmeras formas como poderia melhorar a vida das pessoas. Também aprendeu muito sobre gestão de pesquisa e pessoas. “Tive a sorte de ser supervisionado por grandes cientistas e pessoas generosas, que me deram uma dimensão bastante ampla e humanística da carreira acadêmica”, resumiu. 

Desde 2020 Luiz Osório é professor doutor do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Seus estudos são dedicados ao metabolismo energético, com foco em células específicas do tecido adiposo capazes de reduzir o açúcar e a gordura em circulação no organismo e, assim, combater a obesidade e a diabetes. “Para mim, o amor pela ciência se equilibra em dois pontos, um egoísta e outro altruísta. O egoísta está na satisfação de pisar em terrenos nunca explorados, na descoberta. Já o altruísta está na perspectiva de melhorar a vida das pessoas”, observa o Acadêmico sobre seu trabalho. 

Além de cientista, Luiz também é pai de três filhos, dois meninos e uma menina. Junto com a esposa, divide os cuidados do lar, das crianças e das cachorrinhas de estimação. Acostumados com a casa cheia, gostam de se encontrar com amigos e parentes sempre que podem. Quanto a ingressar na ABC, considera um orgulho e uma satisfação imensa ser reconhecido por seus pares como alguém capaz de contribuir para o progresso da ciência brasileira. “Pretendo ser atuante, ajudando a consolidar a ABC como órgão representativo dos cientistas brasileiros e que dá voz às demandas dos jovens que aspiram por melhores condições de desenvolvimento científico e tecnológico”, finalizou.   

Amor pelos animais e por solucionar problemas 

010Na percepção de Bruno Cogliati, os animais de estimação que teve na infância foram sua maior influência para a escolha da profissão. Nascido em 1981, na cidade de Jaú, no estado de São Paulo, ele foi o único da família que seguiu na carreira de cientista. Seus pais são formados em psicologia, mas apenas a mãe atuou por um período na prática clínica. O pai atua na área de controladoria e o irmão mais velho fez faculdade de fisioterapia.  

Bruno se considera um típico garoto paulistano criado em apartamento. Mas isso não foi um empecilho para que ele desenvolvesse o interesse pela ciência e pelos animais: desde pequeno, já delineava procedimentos experimentais, seguindo apenas conceitos básicos aprendidos em programas educativos e enciclopédias. “Fui uma criança extremamente curiosa, com interesse aguçado por novos conhecimentos, e a impossibilidade de colocá-los em prática apenas aumentava ainda mais minha curiosidade”, contou o pesquisador. 

A chácara da avó materna foi o lugar onde Bruno descobriu de fato a paixão pela ciência, e na casa da avó paterna, na capital paulista, foi onde ele deu os primeiros passos no universo científico. Lá vivia um casal de jabutis com mais de 40 anos de idade e, por conta do quintal cimentado, a fêmea colocava seus ovos embaixo da escada. Com isso, os filhotes nunca nasciam. Intrigado, Bruno buscou alternativas: “Nesta época, aos 12 anos de idade, desenvolvi uma incubadora artificial com areia e temperatura controlada para que os ovos pudessem eclodir. Para minha surpresa, um ovo chegou a eclodir, mas o filhote não sobreviveu”, lembra. Nos anos seguintes, o Acadêmico sofreu ao ver os cães de sua avó desenvolveram tumores de mama e ser incapaz de ajudá-los. “A impossibilidade de intervir, por falta de formação e conhecimento adequados, concretizou a certeza sobre meu futuro profissional. Não era apenas o amor e dedicação pelos animais que me motivava, mas também a busca por respostas para problemas ainda sem solução.” 

Em 2001, Bruno Cogliati ingressou na graduação em medicina veterinária na Universidade de São Paulo (USP). O Acadêmico conta que as disciplinas do primeiro ano da graduação foram bem generalistas e o ajudaram a identificar interesses nas áreas básicas das ciências biológicas e veterinárias. Seu primeiro contato com pesquisa científica ocorreu no final de 2001, durante as férias, num estágio realizado no Laboratório de Histofisiologia Evolutiva do Instituto de Ciência Biológicas (ICB) da USP.  Em sua experiência prática na área morfológica, ele pôde desenvolver habilidades específicas na área de histologia e microscopia, assim como se interessou pelos animais silvestres e exóticos, o que o levou a realizar alguns cursos nesta área nos primeiros anos.  

Logo no segundo ano da graduação, Cogliati  foi convidado para realizar um projeto de iniciação científica no Laboratório de Anatomia Microscópica e Imuno-Histoquímica do Departamento de Cirurgia da universidade. Adotou um modelo clássico de experimentação animal, utilizando ferramentas histológicas e imuno-histoquímicas para avaliar a eficácia terapêutica de uma solução inovadora. “Minha iniciação científica foi uma experiência que considero completa, pois permitiu o contato com todas as etapas da metodologia científica, desde a elaboração do projeto de pesquisa e de seu delineamento experimental, aprendizado e execução das metodologias propostas até a interpretação dos resultados, construção dos relatórios e, finalmente, divulgação em eventos científicos.” 

O período da pós-graduação, entre 2006 e 2011, permitiu a especialização de Cogliati em patologia molecular e biologia celular, além do aprofundamento de seus conhecimentos em microscopia e morfologia. Durante o doutorado, o Acadêmico deu sequência à sua linha de pesquisa: em sua tese, avaliou os aspectos morfológicos, histopatológicos e moleculares da fibrose hepática. Em 2010, ele concluiu o doutorado em patologia experimental pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, onde atua como professor desde 2011. É presidente do Escritório de Cooperação Internacional (CCInt) da FMVZ-USP e vice coordenador do Programa de Pós-Graduação em Patologia Experimental e Comparada da instituição. 

Em seu laboratório, Cogliati e seu time de pesquisadores têm direcionado seus esforços para o estudo de doenças hepáticas em modelos experimentais, animais e seres humanos, com ênfase no papel dos (hemi)canais de conexinas e panexinas nas lesões hepáticas agudas e crônicas. As conexinas e panexinas são as proteínas formadoras de canais e junções comunicantes, que são responsáveis pelo fluxo de moléculas e íons entre as células e/ou meio extracelular, desempenhando importante função no controle das características naturais dos tecidos. “Demonstramos que a inibição destes canais por peptídeos miméticos [um tipo específico de aminoácido] foi capaz de melhorar a função hepática e a estrutura do tecido”, relatou o pesquisador. Recentemente, o grupo se concentra em transpor os dados obtidos para organismos humanos, observando a expressão e a função destas proteínas e100m pacientes cirróticos, com Doença Hepática Gordurosa Não-Alcoólica (NASH, na sigla em inglês) e/ou hepatocarcinoma (HCC, considerado o “câncer primário” do fígado). 

O que encanta Bruno Cogliati na ciência “é a liberdade que ela nos proporciona para estudar os fenômenos naturais e desenvolver hipóteses sobre os mais variados temas.” Em sua área, especificamente, a possibilidade de estudar doenças tão comuns e importantes para seres humanos e animais o motiva a buscar novos marcadores e alvos terapêuticos, possibilitando um diagnóstico mais preciso e tratamentos possivelmente mais eficazes. 

Entre a biologia e a química, por que não os dois? 

Diego Stéfani Teodoro Martinez nasceu em 1982, em Três Lagoas, uma cidade pequena no interior de Mato Grosso do Sul (MS), onde passou a infância. É o mais velho de quatro filhos e foi o primeiro a ingressar na universidade. Bom aluno desde cedo, contou que a mãe nunca precisou se preocupar com ele na escola. Aos dez anos, seus pais se divorciaram, e o menino sentiu o peso da responsabilidade de ter que dar exemplo para os irmãos: “Tinha consciência, desde muito novo, que estudar era o melhor caminho para ‘crescer na vida’ e ajudar minha mãe a cuidar dos meus irmãos.”  

Curioso, Martinez sempre gostou de entender como as coisas funcionam e sentia que a ciência o ajudava a entender mais profundamente os detalhes da vida cotidiana. “Eu tinha uma admiração grande pelas minhas professoras de química e biologia. Acredito que foram decisivas por despertar meu interesse em seguir nessa carreira”, observou o Acadêmico. 

Ao fim do ensino médio, Martinez não tinha dúvidas de que gostaria de cursar a faculdade de química. Contudo, não havia esse curso em Três Lagoas e sua família não tinha condições financeiras de custear sua mudança para outra cidade. Ele optou, então, por prestar vestibular para biologia, curso no qual ingressou aos 17 anos, no campus avançado da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) em Três Lagoas. “Vivi a faculdade intensamente. Foram quatro anos excepcionais, de muito amadurecimento e crescimento na UFMS. A biologia virou paixão e profissão”, comentou Martinez, destacando as amizades, os sonhos e o desejo de se tornar um profissional competente no futuro. Nesse período, ele se aprofundou em bioquímica – e começou a entender que poderia viver a sua vocação, juntando química e biologia.  

Martinez concluiu a graduação em 2003 e, no ano seguinte, mudou-se para cursar o mestrado em biologia funcional e molecular na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ao longo dos dois anos de mestrado, o cientista cultivou sua vocação para pesquisa e manteve a cabeça aberta para ocnhecer e viver a universidade.  

Determinado a se tornar um profissional cada vez melhor, participou de muitos cursos e seminários. Mas foi o curso “Introdução a Nanotecnologia”, ministrado pelo professor Oswaldo Luiz Alves e o professor Fernando Galembeck, ambos Acadêmicos, que mais chamou sua atenção. “Eu percebi que poderia juntar a biologia e a química de uma maneira incrível através da nanotecnologia, emergente nesse momento”, destacou Martinez. No mesmo dia, ele foi conversar com Oswaldo Alves, que era químico e um dos precursores dos estudos em nanotecnologia no Brasil – e foi sob a orientação dele que Martinez iniciou o doutorado em química inorgânica na Unicamp em 2006.  

Com muita coragem, Diego Martinez encarou a mudança radical, já que o Laboratório de Química do Estado Sólido (LQES) realiza pesquisas no lado oposto da biologia, trabalhando mais comumente com materiais sólidos e complexos inorgânicos neste laboratório. Ele e seu orientador iniciaram um projeto focado no estudo da interação de nanoestruturas com sistemas biológicos e meio ambiente e, de acordo com Martinez, o apoio de Alves foi fundamental para que a pesquisa fosse adiante.  

A convivência no laboratório com o professor Oswaldo deixou memórias marcantes na vida de Martinez, além de ensinamentos que moldaram sua jornada na academia. “O ambiente científico de alto nível que ele proporcionava aos seus alunos foi uma verdadeira escola para minha formação, tanto como cientista e pesquisador, como na minha vida pessoal”, ressaltou Martinez. “Ele me ensinou a ter crença, respeito e amor na construção do conhecimento. Tudo ao seu tempo, com foco e trabalho constante. Ele foi um pesquisador e professor completo, na minha opinião. Saudades eternas do querido professor Oswaldo.” Alves morreu em julho de 2021, enquanto atuava como vice-presidente da ABC para a Região São Paulo. 

Durante o doutorado, Martinez passou um período de seis meses na Irlanda, em 2010, no Centro de Interações BioNano da University College Dublin. A experiência do doutorado-sanduíche foi muito importante para que ele percebesse que os pesquisadores brasileiros são tão competentes e capazes quanto outros pesquisadores internacionais de renome: “Basta ter oportunidade e ambiente que as coisas acontecem aqui no Brasil também.” Ele concluiu sua tese de doutorado em 2011, sendo uma das primeiras teses no Brasil a estudar aspectos químicos e biológicos de nanotubos de carbono, um dos nanomateriais de maior destaque da nanotecnologia, de maneira integrada. “ 

Atualmente, Martinez é pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) do Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), em Campinas, onde atua principalmente nas áreas de nanobiotecnologia, nanotoxicologia e nano ambiental. Na prática, ele realiza pesquisas e estudos para entender os efeitos de (nano)materiais sobre organismos vivos e meio ambiente visando inovação, segurança e sustentabilidade. “Minhas pesquisas passam pelo desenvolvimento de novos materiais para aplicações diversificadas em saúde, agricultura e meio ambiente, seja para remediação de águas e solos e controle da poluição, ou para a geração de nanomateriais com propriedades biofuncionais, como bactericidas e inseticidas”, explicou o Acadêmico. “Também me dedico ao desenvolvimento de metodologias e protocolos para avaliação da toxicidade e riscos de nanomateriais avançados, de modo que estes novos materiais possam ser utilizados em diferentes setores industriais – como saúde, energia e agricultura – de maneira segura e responsável. É importante que esses produtos não causem efeitos nocivos e impactos negativos na saúde de qualquer ser vivo no planeta.” 

Apaixonado pelo que faz, Martinez afirma que o que mais o encanta na ciência é o enorme conjunto de ferramentas e linguagens desenvolvidos para tentar compreender a natureza e gerar conhecimento científico para as próximas gerações. Em sua especialidade, acha fascinante a possibilidade de estudar materiais de diversos tipos – orgânicos, inorgânicos e biológicos – em escala de tamanho da ordem de nanômetros – ou seja, objetos extremamente pequenos. E é justamente nesta mesma escala de tamanho que a vida funciona e se desenvolve – no nível molecular e celular. “Desse modo, hoje é possível pensar no desenvolvimento de materiais híbridos multifuncionais através da integração de conhecimentos de física, química e biologia, mas com um olhar direcionado para a escala nanométrica (nanomateriais). São infinitas as possibilidades de geração de conhecimento e tecnologias aplicada em ciências da vida e ambiente”, explica o pesquisador.   

Sobre o título de membro afiliado daABC, Diego Martinez afirma que o recebeu com muita alegria, encarando-o como um estímulo para continuar fazendo ciência de qualidade no Brasil. Ele compartilha suas perspectivas para os próximos quatro anos e em quais áreas pretende agir enquanto Acadêmico. “Pretendo me aproximar mais da SBPC e ABC para colaborar proativamente na difusão das suas atividades dentro da minha instituição. Vejo sse título como um marco na minha carreira e será um prazer interagir e colaborar com todos os membros da ABC, em especial com meus colegas afiliados, na direção de construção de novas lideranças científicas no país.”

Combatendo crimes e pragas  

Quantas coisas nos influenciam na hora de escolher uma carreira? E quantas histórias conhecemos de pessoas que escolhem uma área por um motivo, mas se apaixonam por ela por uma razão completamente diferente? A representação do cientista na ficção é, na maioria das vezes, romântica, mas quem consegue viver sem um pouco de arte para colorir a realidade? 

Foi assim com a bioquímica Taícia Pacheco Fill, nascida no ano de 1983. A paulistana conta que, embora brincasse de professora na infância, o que a levou a cursar química e se tornar docente foi outra paixão: as séries policiais. Nesses programas, sempre existe uma personagem cientista que é crucial para a resolução dos casos. Seja na identificação de um assassino por DNA ou na análise de resíduos de pólvora da arma do crime, a figura do químico forense se faz presente com grande destaque. E foi exatamente essa a carreira que Taícia imaginou para si quando escolheu uma faculdade. 

Com apenas 18 anos, Taicia saiu da casa dos pais em São Paulo e se mudou para São Carlos, onde cursou química na Universidade Federal de São  Carlos (UFSCar), que descreve como “maravilhosa, acolhedora e gentil”. A mudança de vida foi brusca, mas ela não era a única nessa situação. Muitos outros estudantes vinham de fora e acabaram formando “uma enorme família”, que resultou em amizades para o resto da vida. 

Com exceção de um período de doutorado-sanduíche na Universidade de Cambridge, Inglaterra, Taicia trilhou toda sua vida acadêmica na UFSCar. No segundo ano de graduação ingressou no laboratório do professor Edson Rodrigues Filho, a quem considera um mestre. “Através do entusiasmo e do olhar dele, acabei me apaixonando pelo meu projeto de iniciação científica, e foi muito natural seguir para a pós-graduação”. Outra figura importante na carreira foi o professor Peter Leadlay, que a orientou em Cambridge. “Um dos cientistas mais brilhantes que já conheci, além de muito humilde e respeitoso”, contou. 

Se a química forense a motivou na escolha de curso, foi o estudo de microorganismos que despertou de vez sua vocação científica. “A primeira vez que olhei num microscópio, me apaixonei”, lembrou. Logo descobriu que sua motivação não eram crimes, mas uma sede pela descoberta e a possibilidade de contribuir com a sociedade. “O universo microscópico é apaixonante e produz inúmeras moléculas importantes para nós. Poucos se lembram, mas o primeiro antibiótico, a penicilina, é produzido por um fungo e salvou milhares de vidas”, explicou. 

Mas nem só de ajudar os seres humanos vivem os fungos: muitos também são responsáveis por perdas consideráveis nas lavouras. A forma usual de combatê-los ainda é com fungicidas, que podem fazer muito mal para a saúde humana e para o meio ambiente. Taicia Fill diz que é aí que entra seu grupo de pesquisas do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Tentamos compreender os mecanismos químicos e bioquímicos da doença causada pelo fungo. Uma vez que entendemos quais as armas utilizadas no ataque à planta, podemos desenvolver estratégias específicas para desarmar estes microrganismos e controlar estas doenças de outras formas”, explica Taícia. Sua pesquisa é financiada pela Fapesp, Fundação Alexander von Humboldt e Instituto Serrapilheira (grantee 2020),

E seu trabalho vem sendo reconhecido seguidamente. Em 2019, foi a vencedora na categoria Ciências Químicas do prêmio Para Mulheres na Ciência concedido pela L’Oréal-ABC-Unesco. Em 2020, foi professora visitante no Instituto Leibniz de Pesquisa em Produtos Naturais e Biologia Infecciosa do Hans Knöll Institute (HKI), na Alemanha, onde havia feito um estágio de pós-doutorado em 2017, também sob supervisão do Prof. Dr Christian Hertweck. 

Quanto ao título de membro afiliado da Academia Brasileira de Ciência, Taícia Fill se diz muito honrada. “Acredito que este reconhecimento trará visibilidade, credibilidade aos nossos trabalhos e sou muito grata pela oportunidade”. Também destacou o fato de ser mais uma mulher cientista ganhando espaço na Academia, pauta com que pretende colaborar com aABC, na questão da igualdade de gênero na ciência. “O que me deixa mais feliz é inspirar jovens cientistas na área da química”, finalizou. 

Confira tudo sobre o Simpósio e Diplomação dos Novos Afiliados para o RJ 2022-2026

No dia 15 de agosto, foi realizado o evento “Simpósio e Diplomação dos Membros Afiliados da Regional Rio de Janeiro da Academia Brasileira de Ciências (ABC)“, na sede da ABC. Esse foi o primeiro simpósio regional presencial realizado desde o início da pandemia e marcou a abertura dos eventos de recepção dos novos membros afiliados, empossados para o período de 2022 a 2026. 

Além dos jovens cientistas, participaram do evento Helena B. Nader, presidente da ABC, e Patricia Bozza, vice-presidente para a Região Rio de Janeiro. A Acadêmica Ana Tereza Vasconcelos (LNCC) foi responsável pela Palestra Magna de abertura, sobre “Ômicas e Bioinformática: Navegando por um Dilúvio de Dados”. 

Abertura

A vice-presidente regional para o RJ, Patricia Bozza (Foto: Clara Schmid/GCOM ABC)

A vice-presidente regional Patricia Bozza demonstrou grande alegria em receber os novos membros. Ela os estimulou para que, ao longo dos cinco anos como afiliados da ABC, se engajem nas diferentes atividades propostas pela Academia e participem proativamente. “Mas, principalmente, espero que vocês se comprometam de fato com a nossa principal missão: o desenvolvimento da ciência e da educação no país”, disse a pesquisadora da Fiocruz. “Além disso, espero que possam discutir e contribuir com ideias novas sobre atividades em prol do avanço na ciência para a nossa sociedade, especialmente no sentido de maior inclusão e difusão científica.”

Em seguida, a presidente da ABC, Helena B. Nader, destacou que este ano a ABC nomeou seu primeiro membro afiliado da área de comunicação. “Ciência não se faz só nos laboratórios. Não acredito nessa divisão em hard science e soft science para separar quem estuda ciências exatas ou bio de quem estuda humanidades. Acho até que, muitas vezes, as humanidades são ainda mais pesadas do que a ciência que eu faço, por exemplo.” A pluralidade de áreas entre afiliados tornou-se uma marca desta nova turma, que conta também com seu primeiro antropólogo eleito.

A presidente da ABC, Helena Nader (Foto: Clara Schmid/GCOM ABC)

A presidente apresentou algumas novidades decididas pela nova Diretoria – da qual estavam também presentes,  além de Bozza, os diretores Maria Vargas (UFF) e Roberto Lent (UFRJ)  -, especialmente a proposta de uma nova dinâmica, na qual os membros titulares de determinada região e o vice-presidente realizem a ponte entre os jovens afiliados e os membros sêniores. “Procuramos reunir um time de diretores regidos pela afinidade. Afinidade de quem acredita em educação, porque sem educação não tem ciência, não tem tecnologia e não tem inovação. Então, estaremos nessa luta juntos”, comentou Nader.

A primeira diplomação de afiliados em modalidade presencial desde o início da pandemia foi também a primeira de Helena B. Nader como presidente da ABC. Emocionada, Nader compartilhou suas expectativas para a presença dos jovens cientistas: “Vocês são o que o Brasil precisa para ser realmente soberano”, afirmou. “Precisamos resgatar essa soberania. Vamos juntos resgatar, porque o sonho dos jovens ninguém pode tirar.”

A Acadêmica Ana Tereza Vasconcelos durante a Palestra Magna (Foto: Clara Schmid/GCOM ABC)

Ciências ômicas e bioinformática: navegando por um dilúvio de dados

A Acadêmica Ana Tereza Vasconcelos ministrou uma palestra magna sobre as chamadas ciências ômicas no Brasil. Áreas como a genômica e a proteômica estudam o conjunto e a interação de todos os genes ou proteínas presentes num organismo, analisando uma quantidade colossal de dados. Para se ter uma ideia, a genômica gera, por ano, uma quantidade maior de dados que gigantes da tecnologia como o Twitter e o YouTube. Essa característica de Big Data faz com que essas ciências caminhem lado a lado com outra área jovem da biologia: a bioinformática.

A ABC esteve direta e indiretamente envolvida no nascimento desse campo no Brasil. O Acadêmico Darcy Fontoura, falecido em 2014, um dos pioneiros da bioinformática no país, foi responsável por criar o Laboratório de Bioinformática (Labinfo) no âmbito do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) em Petropólis, RJ. “Fontoura capacitou uma geração de pesquisadores para a área antes mesmo da chegada da internet”, lembrou Vasconcelos sobre seu antigo orientador.

Em 1994, Vasconcelos e Fontoura publicaram um dos primeiros artigos brasileiros sobre o tema nos Anais da ABC. O trabalho desvendava mecanismos de reparo genético presentes em procariotos, e foi apresentado durante um seminário organizado na sede da ABC. “A Academia esteve presente não apenas na figura do Darcy, mas institucionalmente, contribuindo para a história da bioinformática brasileira”, ressaltou a Acadêmica. 

Desde então, o campo cresceu muito na escala e no escopo. Experimentos cada vez mais inovadores vêm sendo pensados para estudar não apenas genes e proteínas, mas também RNA, metabolismo e epigenética. A bioinformática foi crucial no enfrentamento de desafios recentes, como a zika e a covid-19, e será peça chave na prevenção e monitoramento de futuras epidemias. “Por ser muito recente, é uma área que concentra jovens pesquisadores, que contribuem enormemente para o desenvolvimento científico nacional”, concluiu Vasconcelos.

A seguir, foi a vez dos novos  membros afiliados apresentarem suas pesquisas. Conheça-os aqui:

Análise do passado para pensar as tecnologias do futuro
O geólogo Carlos Ganade é pesquisador do Serviço Geográfico Brasileiro e estuda a evolução geográfica dos continentes através das rochas.

A ciência e a paixão pela sala de aula
Engenheira de materiais, Gabriela Pereira sempre quis ser professora. Hoje, alia pesquisa e ensino para realizar esse sonho todos os dias na Coppe/UFRJ.

Classificar para conhecer, conhecer para preservar
Botânico numa época de destruição das matas, o professor da UFRJ Marcelo Trovó nos lembra da importância de conhecermos mais sobre a biodiversidade brasileira.

A importância de ser curioso
O matemático britânico Simon Griffiths é professor da PUC-RJ e um apaixonado por planetas e samba.

A primeira comunicóloga da ABC
A jornalista Thaiane Moreira de Oliveira, professora da Comunicação da UFF, ingressou na ABC lembrando da necessidade que a ciência e os cientistas têm de se engajar no debate público.

Marcelo Trovó, Carlos Ganade, Gabriela Pereira, Thaiane Oliveira e Simon Griffiths (Foto: Clara Schmid/GCOM ABC)
A afiliada Renata Meirelles recepcionou os novos membros (Foto: Clara Schmid/GCOM ABC)

Boas-vindas, agradecimentos e diplomação

Renata Meirelles Santos Pereira, membra afiliada eleita para o período 2019-2023, comentou sobre os últimos anos da ciência brasileira, repletos de provações para os cientistas e com uma grande disseminação de negacionismo científico-tecnológico, um desafio que se tornou uma missão para os cientistas.

Agora em seu último ano como afiliada, a pesquisadora falou sobre o projeto Conhecer para Entender, criado pela ABC, com vídeos e podcasts, que provocou os cientistas para que explicassem ao público suas pesquisas. “Todas essas ações de divulgação nos proporcionaram muitas trocas científicas e pessoais que agregaram muito”, comenta a professora da UFRJ, mencionando também outras atividades propostas pela ABC para os jovens cientistas, como o 4o Encontro Nacional, as Mentorias da ABC e os grupos de trabalho.

Durante a pandemia, Pereira fez parte do grupo de pesquisa que investigou o perfil dos jovens cientistas brasileiros, cujo resultado não foi dos mais animadores. “Foi lamentável constatar que grande parte dos cientistas brasileiros em jovem e em meio de carreira têm a intenção de tentar dar continuidade à carreira fora do país ou tentar outras áreas de pesquisa.” Para a Acadêmica, é hora de o governo tomar uma atitude para valorizar seus inúmeros cientistas brilhantes – e a primeira parte disso é incorporando políticas públicas que favoreçam sua permanência no país.

Thaiane Moreira falou em nome dos novos Acadêmicos (Foto: Clara Schmid/GCOM ABC)

Para Thaiane Moreira de Oliveira, nova afiliada, fazer a saudação em nome dos novos membros foi uma honra e um desafio. Desde o princípio, todos entraram em um consenso de que o título é um reconhecimento da trajetória e das contribuições feitas ao longo dos últimos anos. “O reconhecimento é uma das bases sociais da vida democrática, e a ciência, enquanto uma instituição democrática, se constituiu em torno desses conceitos”, afirmou a professora e pesquisdora da UFF. Ela listou também alguns dos desafios enfrentados no ensino superior, como a dificuldade de mobilizar mulheres para participar da academia e a luta pela representação afroindígena. Para Oliveira, é dever dos jovens cientistas lutarem para amplificar a participação desses grupos dentro da universidade e também por políticas de Estado que colaborem com o desenvolvimento do país.

A cientista recordou de um momento em que foi questionada sobre onde estavam os professores enquanto ataques à democracia e a ciência aconteciam frequentemente em 2019. Após muito refletir, ela concluiu: “Nossa força como cientistas não é só batendo as panelas, é também produzindo conhecimento. Estávamos lutando com as nossas armas, para tornar a universidade menos desigual, para torná-la mais inclusiva. E nós sabemos a importância da nossa luta.”


Veja aqui a galeria de fotos do evento 

Assista a cerimônia na íntegra no YouTube da ABC


Acompanhe o próximo evento similar: o Simpósio e Diplomação dos Membros Afiliados da Região São Paulo, no dia 21 de setembro!

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