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Saúde bucal e a desigualdade brasileira

A saúde é uma das áreas onde a ciência está mais intimamente ligada à promoção de bem-estar e qualidade de vida, dado que o conhecimento é gerado tendo em vista aprimorar o tratamento. Mas a saúde também é, cada vez mais, interdisciplinar, dialogando não apenas com outras áreas biológicas, mas com temas mais relacionados à sociedade em que vivemos. Foi por conta da transversalidade de seus estudos, integrando saúde bucal e desigualdade social, que o cientista Marcos Britto Corrêa se tornou membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC). 

A odontologia é vista como um curso muito prático, onde os profissionais tendem a olhar muito mais para a atuação em hospitais e clínicas. Foram esses ambientes que despertaram a curiosidade de Marcos, influenciando sua escolha de carreira. “Quando pequeno, ficava fascinado com a ida ao dentista. Achava legal aquele ambiente cheio de instrumentos, massinhas, tudo me despertava interesse. Então, na adolescência, a odontologia surgiu como uma possibilidade concreta”, contou. 

Exemplos para a vida acadêmica o jovem tinha em casa. O pai era professor de agronomia na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e, quando Marcos tinha 11 anos, precisou se mudar com a família para Madri para cursar doutorado. Foram quatro anos na capital espanhola e, ao retornar, sua mãe, arquiteta, também decidiu deixar o mercado de trabalho e ingressar como professora universitária.  

Outra grande influência foi Ângelo, seu avô, cujo gosto pelo saber passava para o neto: ambos ficavam horas procurando aprender sobre tudo nas enciclopédias. “Sempre tive uma grande curiosidade. Queria saber o porquê das coisas, tentar explicar ou descobrir o que acontecia. Lia os jornais diários que tinha em casa desde os sete anos de idade”, lembrou Marcos. 

Essa veia científica ele carregou quando entrou para o curso de Odontologia da UFPel e já no segundo semestre foi selecionado como bolsista em um grupo de pesquisa. Mas sua experiência na faculdade foi muito além da pesquisa. Nos cinco anos de graduação, ele se engajou em projetos de extensão, atividades extracurriculares e no movimento estudantil. “Isso é essencial para o estudante. Considero que a formação universitária se dá muito além das disciplinas e atividades curriculares. A universidade te dá a possibilidade de crescimento pessoal de forma muito mais ampla, conhecendo novas pessoas e novas formas de pensar”. 

O primeiro contato de Marcos com a ciência foi no laboratório, auxiliando pós-graduandos no estudo e desenvolvimento de novos materiais para uso clínico. Foi perto da metade do curso que ele conheceu os estudos que acompanhavam a saúde bucal em coortes de nascimento de Pelotas, e essa foi a área onde seguiria carreira. 

Estudos em coortes envolvem o acompanhamento de um grupo de indivíduos selecionados ao nascer, cuja saúde é monitorada ao longo da vida. Esse método é custoso e de muito longo prazo, mas traz revelações fundamentais sobre cuidado e prevenção. As coortes de nascimento de Pelotas são reconhecidas internacionalmente como as de maior tempo de acompanhamento nos países em desenvolvimento. Marcos não poderia estar num lugar melhor. “A partir desse momento me apaixonei pela epidemiologia, na qual foco minha atuação até hoje”, disse. 

Daí em diante, sob orientação do professor Flávio Demarco, Marcos seguiu durante graduação e pós-graduação estudando como fatores de risco – como acesso à saneamento, atendimento médico e prevenção – influenciam na evolução da saúde bucal. O foco em desigualdade social lhe permitiu aferir que questões como renda, escolaridade e raça podem ter impacto maior no resultado final de um tratamento do que diferenças entre as técnicas aplicadas.  

“Por exemplo, ser negro no Brasil aumenta o risco de desenvolvimento de doenças bucais, independentemente da classe social. Temos um conjunto de trabalhos que demonstram o papel do racismo estrutural na saúde bucal, inclusive mostrando que a decisão de tratamento por parte dos dentistas é diferente dependendo de se o paciente é branco ou negro”, alertou o pesquisador. 

Esses resultados têm consequências imediatas para a prática odontológica, chamando atenção para a necessidade de um olhar muito mais atento e abrangente para o paciente, considerando fatores que, na maior parte das vezes, não são levados em conta. “Nosso papel como pesquisador é o da denúncia, ou seja, mostrar uma realidade absolutamente injusta para que estratégias e políticas possam ser elaboradas”, avaliou. 

A possibilidade de colocar à prova o conhecimento atual é o que move a ciência de Marcos Britto, e ele reafirma a importância de os cientistas participarem nas tomadas de decisão por gestores públicos. A ciência é, como qualquer outra, uma atividade política, e por isso deveria ser mais exercitada desde cedo. “Deveríamos discutir metodologia científica básica, estatística básica, já na escola.  Isso ajudaria muito inclusive a combater a disseminação de informações falsas, que hoje circulam de maneira muito fácil em nossa sociedade”, refletiu. 

Hoje, Marcos Britto é professor na sua Alma mater, a UFPel. Olhando para trás, o pesquisador faz questão de lembrar dos professores que moldaram sua trajetória. “Ao longo de toda minha vida acadêmica tenho que destacar o meu orientador, o professor Flávio Demarco. Uma pessoa sensacional, um grande pesquisador que sempre me deu liberdade para criar. Acho que o papel do orientador é esse, permitir ao estudante voar com suas próprias asas”, diz com carinho. “Também destaco os professores Marcos e Dione Torriani e todos os pós-graduandos que acompanhei. Tive o privilégio de ter grandes mestres que se tornaram amigos”. 

Agora membro afiliado da ABC, Marcos Britto destaca o fato de ser da área de odontologia. “Embora a odontologia seja uma área com produção científica de altíssima qualidade, ainda há pouco envolvimento dos pesquisadores na defesa da ciência perante a sociedade. Poder representar a ciência odontológica nacional na ABC é uma grande responsabilidade”, avaliou. 

Mas nem só de ciência vive o cientista. Nas horas vagas, Marcos se dedica a cuidar dos filhos, Paloma e Emiliano, e está sempre ouvindo música brasileira e latino-americana. “Pelotas fica pertinho do Uruguai, então temos uma forma de viver bem similar. Gosto muito do litoral uruguaio, com suas praias lindas, ermas e com clima mais frio. São ótimos lugares para caminhar, parar e refletir. Outro aspecto cultural similar é o mate. Passo o dia com uma cuia por perto”. 

Um refresco na inovação

O engenheiro mecânico Jaime Andrés Lozano Cadena, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca-se como especialista em tecnologias inovadoras de refrigeração. Entre suas contribuições científicas e tecnológicas estão o desenvolvimento do primeiro protótipo de refrigerador magnético do hemisfério Sul e o primeiro protótipo TRL-6 no mundo em climatizar um ambiente usando refrigerantes sólidos.

Talvez as gerações mais jovens não tenham vivenciado a questão do buraco na camada de ozônio, um dos temas ambientais mais significativos das últimas décadas. Essa camada, composta principalmente por gás ozônio (O₃), desempenha um papel vital como um escudo protetor da atmosfera contra os raios ultravioleta emitidos pelo Sol, sendo um elemento crucial no equilíbrio climático terrestre.

O problema é que essa proteção esteve ameaçada. Desde os anos 80, cientistas do mundo todo começaram a alertar sobre um buraco em expansão na camada de ozônio, consequência da destruição causada, principalmente, pelos gases clorofluorcarbonos (CFCs), muito utilizados em equipamentos de refrigeração.

Em um exemplo prático da interação entre a ciência e a política, autoridades globais reagiram com medidas rigorosas para restringir o uso de CFCs, enquanto a comunidade científica continuou a gerar inovações que possibilitaram a substituição dessas substâncias por tecnologias menos prejudiciais ao meio ambiente. O resultado dessa colaboração notável foi que a camada de ozônio deixou de ser uma preocupação iminente, e estima-se que ela se recupere completamente até 2040.

Uma dessas tecnologias inovadoras é a refrigeração magnética, que tem sido objeto de estudo do membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Jaime Lozano. Essa abordagem inovadora utiliza refrigerantes sólidos, cuja temperatura varia devido à aplicação de campos magnéticos. Dessa forma, consegue-se o mesmo efeito de refrigeração, com uma potencial redução no consumo de energia e sem o uso de gases CFCs.

Durante seu doutorado, Jaime Lozano conquistou destaque ao desenvolver o primeiro protótipo de refrigeração magnética do hemisfério Sul. Esse feito notável lhe rendeu o Prêmio Capes de melhor tese de doutorado defendida em 2015 no Brasil, na área de Engenharias III.

Colombiano, natural da capital, Bogotá, Jaime queria ser cientista desde criança. Aos nove anos teve a oportunidade de visitar a Nasa, numa viagem com a família, e decidiu que queria ser “um astrônomo que faz naves espaciais”. Ele ainda não percebia que essas duas áreas são bem diferentes e que sua paixão por tecnologias inovadoras se encaixava melhor na engenharia mecânica.

Mas a mecânica não foi sua primeira opção. No ensino médio, graças à influência de um bom professor, Jaime se encantou pela química, através dos vários experimentos práticos com que teve contato em sala de aula. A partir daí, o Acadêmico decidiu que queria ser químico, mas como o curso de química pura não existia na Universidade dos Andes, onde se inscreveu, optou pela engenharia química. “Gosto bastante dessa área e, apesar de ter me tornado engenheiro mecânico, meus trabalhos sempre se relacionaram com a química, especialmente através das ciências e engenharia dos materiais”, refletiu. 

Ao longo da faculdade, Jaime percebeu que poderia conciliar os cursos de engenharia química e engenharia mecânica, mas a última acabou virando seu foco. “Percebi que a mecânica tinha mais o meu perfil, especialmente pela minha paixão pelas máquinas e por ver as coisas funcionando”, contou.

A prática laboratorial era bastante presente no currículo da universidade e isso o fascinava. Ao fim do curso, o caminho de Jaime se entrelaçou com o Brasil, quando teve a oportunidade de fazer seu trabalho de conclusão na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob orientação do professor Paulo Wendhausen. O estudo sobre a produção de ligas magnéticas moles de ferro e cobalto (Fe-Co) introduziu o cientista na área de campos magnéticos, o que se desdobrou até suas pesquisas atuais.

A parceria com o professor Wendhausen continuou no mestrado, quando também foi coorientado pelo engenheiro, pesquisador e professor Alvaro Toubes Prata, atualmente diretor da ABC. Nessa etapa, Jaime estudou a síntese e a caracterização dos materiais refrigerantes sólidos e teve a oportunidade de passar um período na Universidade Técnica de Delft (TUDelft), nos Países Baixos, acompanhando um dos grupos que trabalham na fronteira do conhecimento desse campo. Ao retornar ao Brasil, Jaime estava obstinado em demonstrar a aplicação prática de seus estudos e embarcou no que seria o grande divisor de águas de sua carreira, o doutorado.

De volta à UFSC, agora sob orientação do professor Jader Riso Barbosa Junior, ele topou o desafio de desenvolver o primeiro protótipo de refrigeração magnética do hemisfério Sul. Graças à infraestrutura do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Refrigeração e Termofísica (INCT RT-Polo) do Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC, e a um período na Universidade Técnica da Dinamarca (DTU), ele conseguiu tirar do papel seu projeto inovador.

Desde então, Jaime Lozano segue trabalhando para desenvolver inovações nacionais. Entre elas, destaca a criação de uma adega de vinhos e de um ar-condicionado com a tecnologia de refrigeração magnética, cujo processo de funcionamento é explicado em ótimos vídeos de divulgação científica no canal do YouTube do INCT RT-Polo. Em março de 2023, o Acadêmico ingressou como professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na área de ciências térmicas.

Atualmente, ele vem trabalhando em outras frentes de pesquisa, especialmente voltadas para as tecnologias de hidrogênio, liderando um projeto de gerenciamento térmico em células de combustível e desenvolvendo trabalhos sobre liquefação do hidrogênio. “Eu gosto de ver as coisas funcionando, tenho paixão pela experimentação e pelos desafios tecnológicos”, relatou. “Também gosto de interagir com pessoas e sempre tive facilidade em coordenar pessoas, recursos e projetos. Gosto dos desafios e me encantam as discussões técnicas, científicas e filosóficas”.

Agora na ABC, o Acadêmico se diz honrado e toma para si a responsabilidade de lutar pela ciência brasileira. “Espero contribuir para a revitalização da ciência nacional, expondo os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que temos realizado no INCT RT-Polo da UFSC. Estou sempre buscando caminhos para impulsionar a ciência no nosso país”, afirmou.

Além do fascínio por ciência e tecnologia, Jaime Lozano é também um apaixonado por futebol, o que o ajudou a se adaptar rápido ao Brasil. É sempre um dos líderes na hora de organizar peladas com os amigos e adora atividades físicas como trilhas e ciclismo. Em casa, é um apaixonado por cultura, estando sempre rodeado por livros, músicas, filmes e poesias. “Assim como Maria Bethânia, eu também já não posso viver mais sem o Fernando Pessoa e a Clarice Lispector”, afirmou.

Paixão pela Nutrição

“De tudo que o homem inventou nessa Terra, acho a ciência o que há de mais honesto, é ‘olha aqui esse problema, acho que tem essa solução, testei assim, você concorda?’” — é assim que a nutricionista Bruna Leal Lima Maciel, membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC), descreveu seu olhar sob a ciência.  

A Acadêmica cresceu rodeada de influências positivas na ciência: os pais eram médicos e professores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). A escolha por uma área da saúde não foi exclusiva de Bruna, seus dois irmãos mais novos se formaram em educação física e veterinária. “Sem nenhuma dúvida, meus pais despertaram meu interesse. O ambiente acadêmico sempre me foi muito familiar, com seus laboratórios e jalecos brancos. Mas foi só com 15 anos que entendi que queria fazer nutrição”, contou. 

Nessa época, a mãe de Bruna fazia doutorado e resolveu cursar a disciplina Nutrição Materno-Infantil na London School of Hygiene and Tropical Medicine, na Inglaterra. A filha viajou com a mãe como presente de aniversário. Bruna conta que, ainda adolescente, não entendia o valor daquele lugar e daqueles cientistas, mas acabou se encantando pela professora Ann Ashworth Hill, que lecionava a matéria. “Aquela mulher me marcou, era tão gentil e cheia de histórias. Falava sobre seus trabalhos com a Organização Mundial da Saúde (OMS), com o combate à desnutrição infantil nos países em desenvolvimento. A partir desse momento eu não conseguia pensar em fazer outra coisa”, lembrou. 

Assim que completou 18 anos, ela entrou no curso de Nutrição da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e lá aproveitou tudo que o ambiente acadêmico tem para oferecer. Logo conheceu a professora Nágila Damasceno, da disciplina Métodos de Análise de Alimentos, e seguiu como monitora tendo a docente como inspiração. No mesmo período, Bruna dava aulas de inglês em um cursinho da cidade. “Eu não sabia, mas estava tendo meu primeiro contato com a docência. Desde então, nunca deixei de ser professora”, avalia hoje. 

Mas além do ensino, o outro pilar da carreira de um cientista é a pesquisa. Foi também no início da faculdade que a Acadêmica teve seu primeiro contato com a área, a partir da iniciação científica com a professora Derlange Belizário Diniz. “Atuei dois anos na área de avaliação nutricional infantil. Descobri que ia receber uma bolsa no dia do meu aniversário e acabei gastando praticamente tudo com participação em congressos”, rememorou.  

Além da monitoria e da iniciação científica, outra atividade que teve um enorme impacto em sua carreira foi um estágio voluntário no Hospital São José, em Fortaleza. “Ali foi onde eu fiquei verdadeiramente encantada pela nutrição e decidi que faria mestrado na área”. No geral, ela avalia que aproveitou o período na Uece em sua plenitude. “Foi um despertar para minha alma”, disse a Acadêmica. 

Após se formar, em 2005, a pesquisadora decidiu seguir na pós-graduação, escolhendo a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) como sua nova casa. A formação ampla que o curso oferecia e a possibilidade de morar na mesma cidade que os padrinhos influenciaram na escolha.  

O início, sob orientação da professora Selma Maria Bezerra Jerônimo, foi desafiador. Bruna se sentia ainda muito crua após sair direto da graduação. Mas, como geralmente se dão as coisas, o trabalho começou a fluir e o resultado foi um trabalho em que definia variáveis nutricionais importantes associadas ao tratamento de leishmaniose infantil. A parceria deu certo e a Acadêmica logo entrou no doutorado com a mesma orientadora. Dessa vez em bioquímica, analisando especificamente os efeitos nutricionais da vitamina A na mesma doença.  

“O mestrado e o doutorado comprovaram como eu gostava do ambiente acadêmico. Fui formalmente apresentada à bioestatística, percebi que tinha facilidade para aquilo, ajudava colegas em análises e redação de artigos. Me sentia muito feliz em poder contribuir”, refletiu. 

Essa habilidade adquirida em análise de dados e escrita científica se somou à prática docente e pavimentou o caminho para que Bruna fosse logo aprovada em um concurso para professora na UFRN, ainda durante o doutorado. “Eu tinha 27 anos, muita vontade de acertar, facilidade em ensinar e desenvolver trabalhos, além de um amor enorme pela nutrição. De lá para cá, sinto que as coisas foram acontecendo naturalmente”, contou. 

Desde então a Acadêmica tem se envolvido em diversos trabalhos sobre infecções entéricas, estado nutricional, desnutrição e obesidade. Outra frente em que trabalha é a da extensão, trabalhando junto a projetos culinários, sempre com o objetivo de oferecer uma dieta balanceada e nutritiva. 

“Atualmente estudo a barreira funcional gastrointestinal, tanto na desnutrição quanto na obesidade. Quero compreender como a dieta e estado nutricional associam-se com essa mucosa, que tem total relação com imunidade e inflamação. A pandemia me fez olhar para a comunidade acadêmica com novos olhos e hoje também estudo qualidade da dieta, estresse percebido, insegurança alimentar e habilidades culinárias nessa população. Acredito firmemente que aprender culinária pode impactar positivamente na saúde”, explicou Bruna sobre o próprio trabalho. 

Sobre a eleição para a ABC, foi uma surpresa e uma responsabilidade. “A titulação me deixou mais observadora, mais atenta sobre como posso contribuir. Isso tem direcionado minhas decisões dentro da ciência”, afirmou. 

Mas nem só de ciência vive o cientista: Bruna também é bailarina clássica, desde os sete anos de idade. O que começou como uma paixão na infância a acompanhou até hoje e não há nada que a conecte mais com seu corpo e suas emoções. Também é praticante de yoga e uma leitora ávida de romances e história. Divide a vida com o esposo Saulo e os dois filhos, Gabriel e Heitor. “Tudo é motivo de festa quando estou com eles”, finalizou. 

Amor pelos animais que ajuda a salvar vidas humanas

Um dos conceitos mais em voga nas ciências da saúde atualmente é o da Saúde Única, que entende a saúde humana como intimamente ligada à saúde do ambiente e dos seres vivos que o habitam. Por esse conceito, a saúde dos animais é peça chave nas estratégias de prevenção, então pesquisas em veterinária são fundamentais. 

Esta é uma daquelas profissões que enchem os olhos das crianças, principalmente aquelas apaixonadas por animais. Por esse motivo, a afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Débora Castelo Branco não sabe nem dizer quando escolheu a carreira. “Desde criança, sempre quis ser veterinária. Como era muito pequena quando ‘decidi’, não consigo me lembrar de nenhum processo, apenas sei que sempre fui encantada por animais e a natureza”, contou. 

Nascida e criada em Fortaleza, Débora cresceu rodeada por amigos e primos, com quem sempre brincava ao ar livre. O pai é advogado, a mãe bancária e o irmão, dois anos mais velho, ingressou na faculdade na mesma época que ela. Se Débora não conhecia nenhum cientista em quem se espelhar, a curiosidade fez com que ela trilhasse esse caminho. 

A escolha pela veterinária a levou para a Universidade Estadual do Ceará (Uece). Durante os quatro anos de graduação, Débora chegou a fazer iniciação científica e também estagiou em clínicas e zoológicos. A microbiologia, área em que viria a se especializar, já aparecia em seu trabalho de conclusão de curso, quando estudou a sarcocistose, doença transmitida por um protozoário capaz de infectar humanos e animais. Essa foi sua primeira experiência como orientanda do professor Marcos Fábio Gadelha Rocha, com quem ainda trabalharia no futuro. 

Após se formar, Débora embarcou para o Paraná (PR), onde fez residência em Clínica Médica e Cirúrgica de Animais Selvagens. Nesse período, foi orientada pelo professor Rogério Ribas Lange e alternava seu tempo entre o zoológico de Pomerode, SC, e o Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná (HV/UFPR). “No zoológico, eu atuava diretamente no manejo veterinário dos animais, e no hospital trabalhava no atendimento de mascotes não convencionais e com algumas pesquisas. Essas atividades me mostraram o quão desafiadora e instigante é a pesquisa veterinária, e me fez querer seguir na área”, rememorou.  

No mestrado, voltou a Uece e à orientação de Marcos Fábio, agora para realizar uma caracterização das leveduras encontradas no trato intestinal de calopsitas. Já no doutorado, com o mesmo orientador, mas dessa vez na Universidade Federal do Ceará (UFC), a Acadêmica se aprofundou sobre um gênero de levedura, Candida, pesquisando sua resistência a antifúngicos. Durante o Pós-Doutorado na UFC, também na área de Microbiologia Médica, foi supervisionada pelo Professor José Júlio Costa Sidrim, quem foi e é uma grande fonte de inspiração. “Tive grandes mentores durante minha residência e pós-graduação, eles me ajudaram muito”, reconheceu. 

“Me dedico à microbiologia médica humana e animal, buscando compreender micro-organismos que causam infecções em seres humanos e animais. Estudo processos infecciosos, resistência às drogas antimicrobianas e como as interrelações entre humanos, animais e ambiente interferem nesses processos. Ademais, busco encontrar alternativas terapêuticas para tratar processos infecciosos”, explicou a cientista. 

Durante a pandemia, Débora se deparou com um novo desafio: adaptar toda a infraestrutura e a rotina laboratorial para a testagem e diagnóstico de pacientes com suspeita de COVID-19. O trabalho foi árduo, mas, para ela, responder a essas urgências gerando conhecimento e inovações para a sociedade é o que encanta na ciência. 

Para além da ciência, a pesquisadora gosta de estar rodeada de amigos e familiares, seja onde for. A paixão pelos animais é cultivada também em casa. “A presença e companhia dos meus mascotinhos é imprescindível”, disse. 

Agora na ABC, Débora acredita que a diplomação como afiliada é um reconhecimento à sua trajetória e uma oportunidade de intercâmbio científico. “Quero contribuir para estimular a formação de estudantes de graduação e pós-graduação, em especial, gostaria de ser referência para mais meninas e mulheres na ciência”, concluiu. 

Conhecendo mais a fundo os cristais

A trajetória na carreira científica costuma caracterizar-se por sua estabilização tardia. Em geral, pesquisadores são efetivamente contratados pelas universidades somente após se tornarem doutores, e a maioria ainda atravessa um período de pós-doutorado. Nesse período, as bolsas desempenham um papel crucial no sustento desses profissionais, efetivamente constituindo a principal fonte de renda. Além das bolsas de mestrado e doutorado, uma modalidade não tão amplamente difundida, mas de extrema importância, que é a bolsa de iniciação científica. Apesar dos valores modestos, essas bolsas são fundamentais para a permanência de muitos estudantes de graduação. 

O caso da professora Gardênia de Sousa Pinheiro, eleita membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências no período 2023-2027, ilustra a relevância da bolsa de iniciação científica. Hoje, doutora em física, ela relata que um dos fatores determinantes para a escolha dessa área foi a perspectiva de obter um estágio com bolsa de iniciação científica logo no início da graduação, única forma que teria de se manter na faculdade. 

Nascida em Itapiúna, no interior do Ceará, Gardênia cresceu na capital, Fortaleza. Em um ambiente com poucas crianças na sua idade, era uma menina quieta, observadora e muito dedicada aos estudos, co m clara vocação para matemática. “Eu assimilava rapidamente o conhecimento,sem grande esforço. Minha mãe, percebendo isso, sempre procurava estimular o meu raciocínio me presenteando com jogos”, lembrou. 

Outro fator determinante para sua carreira científica foi sua escolha, durante o ensino médio, pelo curso técnico em informática industrial no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Lá, teve a oportunidade de conhecer excelentes professores de física, a quem começou a admirar e a se espelhar. Embora a escolha óbvia apontasse para a área de computação, Gardênia percebeu que a Física poderia proporcionar-lhe uma base mais sólida no início de sua jornada universitária. “Em conversas com meus professores, percebi que na área da Física eu teria mais oportunidades de conquistar uma bolsa de iniciação científica logo no início do curso, o que representaria um significativo apoio financeiro”, observou. 

Dessa forma, Gardênia ingressou na Universidade Federal do Ceará (UFC) e, imediatamente, buscou uma oportunidade de estágio. “Na segunda semana de aulas, procurei o professor Francisco Erivan de Abreu Melo, que indagou sobre minhas habilidades em eletrônica e programação. Naquele momento, ele necessitava de alguém com o perfil para cuidar da parte de instrumentação do laboratório.” 

Durante esse período, Gardênia inicialmente ficou responsável pelo desenvolvimento de software no laboratório, porém, logo se apaixonou pelo objeto principal de pesquisa: os cristais. Na ciência, os cristais são definidos como materiais sólidos cujas unidades constituintes, sejam átomos ou moléculas, se organizam de maneira tridimensional, adotando formas geométricas bem definidas. “O que me fascina é que, dependendo de suas propriedades, os cristais podem ser utilizados de maneiras extremamente diversas na indústria”, explicou. 

Na área de pesquisa com cristais, Gardênia realizou mestrado e doutorado, aplicando técnicas como difração de raios-X, espectroscopia Raman e infravermelho, bem como análise térmica, a fim de compreender o comportamento desses materiais em condições extremas de temperatura e pressão. Esse processo permite antever como esses materiais se comportarão em processos industriais, incluindo aplicações na indústria farmacêutica. Ao longo de sua jornada de graduação, mestrado e doutorado, recebeu orientação de diversos professores: foi orientada por Francisco Erivan de Abreu Melo, coorientada por Paulo de Tarso Cavalcante Freire e colaborou com Josué Mendes Filho e Alejandro Pedro Ayala. “Todos são exemplos de cientistas para mim, seja na dedicação, na competência ou na liderança que exercem“, enfatizou. 

Após obter o título de doutora em 2013, Gardênia alternou períodos de pós-doutorado entre a UFC e a Universidade Claude Bernard, em Lyon, na França, até ser contratada como professora de física na Universidade Federal do Piauí (UFPI). “Além de atuar como professora e cientista, agora pretendo contribuir para o fortalecimento da pesquisa científica no Piauí como membra da ABC”, ressaltou. 

Sua entrada na Academia Brasileira de Ciências ocorreu em um momento oportuno. Gardênia retornou de sua licença-maternidade na metade de 2022, após o nascimento de sua filha, Nina, que completou dois anos e com quem agora compartilha a vida. “A nomeação como membra afiliada da ABC ocorreu em um momento significativo de minha trajetória profissional e pessoal. Considero-o um reconhecimento de minha dedicação à física e à academia”, concluiu. 

A matemática é a linguagem da natureza

A matemática é a linguagem fundamental da natureza. Diversas versões da famosa citação de Stephen Hawking permeiam a nossa compreensão e destacam uma realidade incontestável: a matemática é o conjunto de símbolos que empregamos para descrever o Universo de forma coerente e precisa. Essa compreensão é essencial para explicar por que a matemática desempenha um papel tão crucial nas ciências, sendo fundamental nas disciplinas exatas e igualmente relevante nas áreas das ciências biológicas e sociais 

Essa capacidade de irradiar luzes para outras áreas do conhecimento é o que encanta o membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Márcio Henrique Batista da Silva. “A ciência é multifacetada e, por meio dela, podem ser desenvolvidas estratégias para melhorias que envolvam as vidas humanas em todas as áreas”, disse. 

O Acadêmico teve origens humildes, na cidade de União dos Palmares, no estado de Alagoas. Seu pai trabalhava como mestre de obras, enquanto sua mãe era feirante, no entanto, ambos sempre instigaram seus filhos a valorizarem os estudos e o esforço como meios para uma vida melhor. Sua irmã, que é 11 anos mais velha, já frequentava a faculdade de pedagogia naquela época e servia de inspiração para o jovem Márcio. Ele relembra: “Naquela época, eu não percebia os sacrifícios que minha irmã fazia para estudar, nem que eu viria a experimentar o mesmo processo no futuro.” 

Márcio fez ensino médio no Centro Federal de Educação Tecnológica de Alagoas (Cefet/AL), atual Instituto Federal de Alagoas (IFAL). A oportunidade de realizar ensino técnico concomitante ao ensino médio fez com que se aprofundasse nas áreas de física e matemática, e a facilidade natural que demonstrou o colocou no caminho do ensino superior. 

Em 2001, Márcio deu início ao seu percurso acadêmico ao ingressar no curso de Matemática na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Desde os primeiros momentos na universidade, demonstrou um forte interesse pela pesquisa, buscando imediatamente oportunidades de iniciação científica. Foi nessa fase que ele teve a oportunidade de trabalhar sob a orientação do renomado Acadêmico Hilário Alencar. Esse encontro resultou em uma bolsa concedida por meio de um programa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Matemática (INCTMat) para o novo aluno. “Desde o início do curso já havia traçado como metas realizar mestrado e doutorado e me dedicar a pesquisa”, lembrou Márcio.  

Após a graduação, então, Márcio ingressou logo no mestrado, também na UFAL. Os anos que passou na universidade foram de imenso crescimento não só intelectual, mas também pessoal. “Desse período destaco os professores Francisco Barros – o famoso Chico Potiguar -, Sinvaldo Gama, além, é claro, de Hilário Alencar. Estes tiveram um papel fundamental na minha formação e me mostraram possibilidades que eu jamais teria conhecido”. 

Já no doutorado, o matemático embarcou em um novo desafio: se mudar para o Rio de Janeiro para estudar no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Nesse período, foi orientado pelo Acadêmico Manfredo do Carmo, cuja generosidade intelectual o inspira até hoje. Após seu doutoramento, Márcio Batista ingressou como professor da UFAL, onde trabalha continuamente até hoje, com um breve período de pós-doutoramento na Universidade de Princeton, nos EUA. 

Durante toda a carreira, Márcio estudou geometria diferencial, mais especificamente trabalhando com superfícies mínimas, ou seja, superfícies que minimizam localmente a área de um objeto. Uma área que se alimenta bastante desses estudos é a arquitetura, pois esses tipos de construtos, além de muito bonitos, podem otimizar o aproveitamento, por exemplo, da luz solar.  

“Destaco um projeto do arquiteto Tobias Walliser para a construção de um hotel no mar que maximizasse a luz do dia e o visual desde a base até o topo. O arquiteto notou que o modelo de superfície que mais se adequaria a essas necessidades seria a superfície de Costa-Hoffmann-Meeks, por ser uma superfície mínima com furos conectando o topo à água e o piso ao céu”, descreve. 

Projeto do Arquiteto Tobias Walliser (à esquerda) baseado nas superfícies mínimas Costa-Hoffman-Meeks (à direita). Fonte: https://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s00004-013-0147-7.pdf página 3.

Márcio Batista entende o título de afiliado da ABC como uma honraria não apenas para si mesmo, mas também para sua Alma mater, a Ufal. “Desejo ser um membro ativo na região Nordeste, buscando sugerir, divulgar e incentivar atividades da Academia, em especial na universidade à qual estou vinculado”, afirmou. 

Mas nem só de ciência vive o cientista. Nas horas vagas, Márcio também é um ávido consumidor de literatura brasileira e internacional, passando por Machado de Assis, Dostoiévski, C. S. Lewis e Julio Verne. “Também gosto bastante de filmes de romance e tenho um estilo de vida pacato e reservado, aproveitando bastante os momentos de sossego”, completou o Acadêmico. 

Um “guajiro” na ABC

O engenheiro Ramón Raudel Peña García, membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), se descreve orgulhosamente como um “guajiro”. A palavra vem de Cuba, assim como ele, e é usada para descrever alguém de origem camponesa. Ramón nasceu no pequeno município de Bartolomé Masó Marques, no coração da Sierra Maestra cubana. 

O pai de Ramón trabalhava produzindo peças para uma usina de açúcar, enquanto a mãe cuidava dele e da irmã mais velha. “Tive uma infância tranquila e uma educação rigorosa”, contou o Acadêmico. Seguindo a forte tradição esportiva do país, ele foi estimulado a praticar xadrez, atletismo, boxe, beisebol, handebol e basquete, ao mesmo tempo que cursava o ensino fundamental. 

Mas sua paixão verdadeira era pelas ciências. A facilidade que demonstrava para resolver problemas matemáticos e de física o estimulou a competir também nessa modalidade e ele participou de vários concursos regionais. Até que, já no fim do ensino médio, resolveu participar de uma convocatória da Universidade do Oriente, localizada na província vizinha de Santiago de Cuba, que mudaria sua vida. “Apesar do amor pelas ciências puras, confesso que na época fiz o exame apenas para descobrir em que consistia. Não tinha ideia de que seria o início deste caminho científico pelo qual hoje sou apaixonado”, relembrou.   

E foi assim que, aos 18 anos, Ramón saiu da casa dos pais, foi morar na cidade de Santiago de Cuba e estudar na Universidade do Oriente, onde passou a habitar  um mundo completamente diferente do que estava acostumado. Incentivado pela faculdade a procurar um orientador, ele encontrou o professor Luis Enrique Bergues Cabrales, da biofísica médica, cuja especialidade era a eletroterapia para o tratamento de câncer. A partir do posicionamento de eletrodos, Ramón podia analisar e descrever a evolução dos tumores, e com esse tema fez sua dissertação de conclusão de curso e escreveu seu primeiro artigo. 

Ao terminar a graduação, o pesquisador e outros dois colegas de curso foram convidados a ingressar no quadro de professores da universidade. “Aqueles que, em algum momento foram meus professores, se tornaram meus companheiros de trabalho. Isso foi muito estimulante para eu seguir na carreira científica”, contou. 

Esse convívio com pesquisadores mais experientes trouxe novas ideias para Ramón, que decidiu embarcar no mestrado em uma área radicalmente nova, a engenharia de materiais, sob orientação do professor Fidel Guerrero Sayaz. “Saí de um trabalho muito teórico para uma parte muito mais experimental e, aos 25 anos, me formei mestre pela Universidade de Havana”. 

Em 2013, através dos contatos de Sayaz com o Brasil, Ramón ficou sabendo de um edital para doutorado em ciência dos materiais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Cheguei ao Brasil com 27 anos e tive de me adaptar a mais essa mudança, tanto do ponto de vista social e cultural quanto do ponto de vista científico”, disse. 

Entrando mais uma vez num campo de pesquisa novo, Ramón passou a focar seus estudos em magnetismo e spintrônica, tecnologia emergente que se utiliza de propriedades quânticas dos elétrons para gerar inovações em armazenamento para chips e outros produtos eletrônicos. Sob orientação do professor Eduardo Padrón Hernández e com bolsa do CNPq, ele se tornaria doutor em 2017. 

Após esse período, Ramón ainda fez dois anos e meio de pós-doutorado, quando trabalhou em novas ideias de materiais semicondutores. Em 2019, ingressou como professor visitante na Universidade Federal do Piauí (UFPI), retomando sua caminhada na docência. Além da UFPI, o Acadêmico lecionou também na UFPE, até chegar na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), onde trabalha atualmente. “Junto ao meu grupo de pesquisa, buscamos por materiais menos custosos, mais simples e com mais aplicações ambientais”, resumiu.   

Sobre o título de membro afiliado da ABC, Ramón Raudel diz que é um reconhecimento ao seu amor pela ciência. “Sempre que me perguntam por que eu faço pesquisa, respondo: ‘por amor e prazer’. É muito gratificante que estudantes se interessem pelas suas linhas de pesquisas. Cada dia tem mais deles se aproximando, querendo trabalhar, fazer ciência. Isso me encanta”, finalizou. 

A importância da experimentação

A experimentação, tão fundamental à ciência, é algo natural na infância. O biólogo Eugenio Damaceno Hottz, membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), inventava filtros de água, furadeiras e até tentou “criar petróleo” no quintal de casa, mas nessa época nem cogitava ser cientista. “Uma vez enterrei restos de plantas numa lata de metal pra ver se fazia petróleo, infelizmente não funcionou”, se diverte relembrando. 

Eugenio cresceu em Barra Mansa, município vizinho à Volta Redonda, no interior do Rio de Janeiro. Os pais tinham um pequeno comércio ao lado de casa e Eugenio só não foi o primeiro da família a ingressar na faculdade porque o irmão, um ano mais velho, entrou antes dele. Na adolescência essa perspectiva lhe parecia distante e ele pensava em arranjar um emprego o mais cedo possível. 

Por isso, desde os 13 anos ele e os irmãos começaram a trabalhar meio período, em comércios do bairro e ajudando os tios pedreiros, até concluírem o ensino fundamental. O ensino médio foi à noite, para conseguir trabalhar à tarde e fazer curso profissionalizante em mecânica pela manhã. No terceiro ano, Eugenio largou o ensino médio e prestou concurso para sargento do Exército. Foi aí que teve o primeiro contato com a área da saúde, trabalhando em um hospital militar em Itatiaia, RJ. 

Essa rotina exaustiva continuaria na faculdade. Eugenio cursou biologia na Universidade de Barra Mansa, onde conheceu o professor Elvino Ferreira, cuja aula de biologia molecular ele adorava. Através de Elvino, Eugenio conheceu Jean Luiz Simões, pesquisador da Embrapa, que aceitou o jovem em seu laboratório para a iniciação científica. Outra importante influência foi a professora Luciana Medeiros, de microbiologia, que apresentou o jovem ao lugar onde faria pós-graduação, a Fiocruz. “Prestei a prova para o mestrado na Fiocruz à tarde e fui colar grau em Barra Mansa à noite”, conta. 

O ingresso no mestrado foi um ponto crucial na vida de Eugenio Hottz, pois ele poderia pedir dispensa do Exército para focar exclusivamente na carreira científica. Mas a liberação não veio fácil e Eugenio contou com o apoio valioso do professor Márcio Neves Boia, então coordenador do programa de medicina tropical, que segurou sua matrícula pelo tempo necessário. “Ele me deixou muito à vontade para escolher o orientador no correr das disciplinas, processo que me tomou quase um ano do mestrado”, agradece. 

Depois de concluir as matérias no primeiro ano, Eugenio escolheu a membra titular da ABC Patrícia Bozza como orientadora. Foi nessa época que ele conheceu a linha de pesquisa que seguiria até o fim do doutorado, estudando o papel das plaquetas na resposta imunológica contra a dengue. “Na época eu não sabia nada de plaquetas, mas tinha muito interesse em imunologia e virologia, em especial na patogênese da dengue, cujas epidemias marcaram o Rio de Janeiro”, conta. 

Eugenio também contou com a coorientação valiosa do irmão de Patrícia, Fernando Bozza. “Ambos, Patrícia e Fernando, além de outro irmão, o Marcelo Bozza, foram muito importantes para a minha formação científica. Com eles, aprendi a trabalhar a partir da pergunta e a concluir a partir da evidência”. 

Após receber o título de doutor, em 2014, Hottz fez dois anos de pós-doutorado antes de passar num concurso para professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Hoje ele continua trabalhando com plaquetas, mas expandiu seu escopo para além da dengue, abrangendo as doenças cardiovasculares, a obesidade e a covid-19. “Nós estamos investigando como as plaquetas participam na regulação dessas respostas, tanto aquela que elimina o patógeno quanto aquela que induz tolerância para não deixar a inflamação crescer exageradamente e afetar o paciente”, explica. 

Para ele, a ciência funciona como um jogo de quebra-cabeças, em que o cientista vai adicionando peças e testando seu encaixe. “Na minha área, acho muito interessante acumular evidências que nos permitam quebrar a barreira imaginária entre o que é sistema imunológico e o que é coagulação, e como componentes desses dois sistemas como as plaquetas e o os leucócitos cooperam, avançando assim para um conhecimento mais integrado”, conta. 

Mas a imunologia é apenas um dos muitos interesses intelectuais do Acadêmico, que também é fascinado por filosofia da ciência. Ele acredita que, no Brasil, ainda ensinamos pouco sobre o pensamento por trás da ciência e focamos muito no resultado ou no produto. “Ainda temos uma apresentação da ciência na educação básica a partir de um detentor do conhecimento que o apresenta ou “transfere” aos que não o detém, quase como um discurso de autoridade. A pandemia deixou bem claro o quanto isso é perigoso, pois nos formamos muito vulnerável às fake news, acostumados a receber informação desconsiderando seus processos de construção”. 

Outra paixão sua é a música. Eugenio aprendeu cedo a tocar violão por influência da família nos cânticos da igreja e durante a adolescência foi aluno de um projeto de música na escola, quando aprendeu teoria musical e trompete. Já adulto, o amor pela música o apresentou à dança, e hoje ele faz aulas de forró, roots e samba. “Até pouco tempo atrás eu nem acreditava que saberia dançar um dia. Hoje quero sair para dançar quase todo fim de semana”. 

Quando está em casa, o Acadêmico gosta de ler, hábito que traz desde a juventude em Barra Mansa. Durante a pandemia, desenvolveu a prática da jardinagem, mantendo um jardim de hortaliças. E tem um fiel escudeiro, o cachorrinho Floki. “O Floki não me acompanha no laboratório, mas é parceiro inseparável na hora de escrever artigos e projetos”, contou Eugenio Hottz. 

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