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A matéria dos seres vivos

“Todas as coisas nesse universo são baseadas na matéria, então decidi saber mais sobre ela”. É assim que o professor de química orgânica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) Jamal Rafique Khan responde quando seus alunos lhe perguntam o porquê de ter decidido estudar química. O novo afiliado da ABC é um entusiasta das questões fundamentais da ciência, mas não perde de vistas suas aplicações. Afinal, a contribuição prática da química na síntese de medicamentos tem um valor muito pessoal para ele. 

Jamal Khan nasceu em Mardan, no Paquistão, filho de Begum Asia Rafique e Muhammad Rafique Khan. O pai, Muhammad, é a sua grande inspiração desde criança, e ele busca viver a vida tendo-o sempre como norte. “Viva para ser feliz, sem machucar ou prejudicar ninguém, é o que ele sempre me dizia”, conta. 

Quando Jamal tinha oito anos, o pai foi diagnosticado com diabetes, o que fez a cabeça do filho se inquietar com uma questão sem resposta. “Por que não conhecemos a cura para uma doença tão comum?”, ele indagava. O que Jamal ainda não sabia é que essa pergunta serviria para o guiar para sua área de atuação, a química orgânica. “Se uma cura não existe na natureza, podemos tentar sintetizá-la”, acredita. 

O Acadêmico graduou-se em química e biologia no campus de Mardan da Universidade de Peshawar. Logo no segundo ano de faculdade ele começou a pesquisar na área de química orgânica, na linha de pesquisa que seguiria durante o mestrado na Universidade de Malakand, também vizinha a Mardan. Nessa época, estudava fitoquímica em espécies de caqui-selvagem. Ele iniciou seus estudos de mestrado em 2006, mesmo ano em que perdeu o pai. Apesar do luto, ele continuou trilhando seu caminho na academia, concluindo uma segunda graduação, dessa vez em educação, na Universidade de Peshawar.  

A vida de Jamal se encontraria com o Brasil no doutorado, em 2011, quando ele veio estudar na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob orientação do professor Antonio Luiz Braga. Nesse período, pesquisou um tipo específico de compostos orgânicos contendo organocalcógenos (S, Se, Te), os heterociclos, que possuem grande variedade de aplicações na indústria, na saúde e na sustentabilidade. “Tenho uma gratidão enorme ao professor Braga, a quem devo muito mais do que conhecimento científico. Ele me mostrou como ser uma pessoa melhor, estava sempre ajudando os outros independente de raça, nacionalidade, religião ou estilo de vida”, conta. 

Após titular-se doutor em 2014, o Acadêmico seguiu na UFSC no pós-doutorado. Em 2018 mudou-se para Campo Grande, Mato Grosso do Sul, após ser contratado como professor visitante estrangeiro no Instituto de Química da UFMS. 

“Hoje, meu foco de pesquisa é a síntese de compostos orgânicos contendo calcogênios – enxofre, selênio, telúrio – com aplicações farmacêutica e tecnológicas. Por exemplo, meu grupo de pesquisa está envolvido na busca por novos medicamentos para o tratamento de câncer e doenças neurodegenerativas. Além disso, também estamos trabalhando na síntese de novos materiais, que podem ter potencial de uso em novas tecnologias, por exemplo, LEDs. Mantendo o fator ambiental sempre em mente, a preparação desses compostos segue rotas ambientalmente sustentáveis”, explica. 

Jamal Rafique Khan recebeu a eleição para a ABC como uma conquista pessoal e coletiva. “É também um reconhecimento à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul pela qualidade do corpo docente e pela formação de recursos humanos diferenciados. É a universidade pública cumprindo seu papel na sociedade”, salienta. 

Nas horas vagas, o Acadêmico se dedica a conhecer novas culturas, seja por viagens, pelo audiovisual ou pela culinária. Outra de suas paixões é a ficção cientifica. “A ciência está nos ajudando a entender mais sobre os mistérios do passado e a sobreviver aos desafios do futuro. O conhecimento atual é limitante ao nosso entendimento. Mas nossa busca por expandi-lo não é limitada a nada”, finaliza. 

Como os médicos sabem qual é a doença?

Toda criança tem a fase dos “porquês”, e em algumas delas essa fase dura pela vida inteira, então as chamamos de cientistas. A biomédica Juliana Reis Machado e Silva era uma dessas crianças. A razão pela qual as pessoas ficavam doentes sempre a intrigou, e quando ia ao médico perguntava pra mãe “ué, mas como é que o médico sabia o que eu tenho?”. 

Nascida em Uberaba, Minas Gerais, Juliana é primogênita de sua geração na família, então conviveu mais com adultos do que com crianças. Ela aproveitava a companhia dos avós, que estavam sempre por perto, e também criava seus próprios amigos imaginários e fantasminhas. “Isso me tornou uma criança lúdica, mas pela minha maior proximidade com adultos, vivenciei pouco essa parte e acabei amadurecendo cedo demais”, conta. 

Juliana amava ir à escola e era o xodó das professoras desde pequena. Por querer saber o porquê de tudo, acabou despertando cedo para as ciências. “Sempre fui muito curiosa e por isso a ciência me encantava, cada descoberta, cada pergunta sem resposta me deixava inquieta”, lembra. 

Essa paixão pela descoberta era acompanhada pelo incentivo, carinho e admiração da mãe, que a impulsionava ter mais disciplina e estudar mais. Juliana também se inspirava no pai, como exemplo de profissional, autodidata e fascinado pela pesquisa na área da geologia. Mas a afinidade de Juliana era mesmo pelas ciências biológicas e da saúde, quando chegou a hora do vestibular, decidiu cursar biomedicina na Universidade de Uberaba (Uniube). Apesar de ser considerada à época o quarto melhor curso de biomedicina do país, a universidade não era muito voltada para pesquisa, mas a experiência na monitoria fez com que Juliana ganhasse gosto pela docência. “Foi quando percebi que a maioria dos professores que admirava eram também pesquisadores”, explica. 

Ainda na graduação, Juliana estagiou por dois anos na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), estudando os processos de biópsia e autópsia. Nesse período, se aprofundou em patologia, área que viria a seguir na pós-graduação. 

Juliana Reis Machado fez mestrado e doutorado em patologia na UFTM, sob orientação de Denise Bertulucci Rocha Rodrigues e Virmondes Rodrigues Júnior. Suas pesquisas envolvem as vias moleculares pelas quais o Trypanosoma cruzi causa a doença de Chagas. “Meu objetivo é identificar mecanismos de defesa do hospedeiro que influenciem direta ou indiretamente o aparecimento das formas mais graves da doença, bem como novos alvos terapêuticos”, explica. 

Após receber o título de doutora em 2013 em patologia, a Acadêmica iniciou seu estágio pós-doutoral em nefropatologia, sob orientação da professora Marlene Antônia dos Reis, intensificando suas pesquisar em doenças renais, que já desenvolvia paralelamente ao seu projeto de mestrado. “Nessa área, avalio marcadores que diferenciem as doenças que causam síndrome nefrótica, ou seja, edema com perda de proteínas na urina. Essas doenças são complicadas de diferenciar, pois têm características clínicas e morfológicas semelhantes, mas o desfecho e evolução são bem distintos”. 

Juliana faz questão de destacar o papel dos orientadores em sua formação. “Esses três pesquisadores, pelos quais tenho um grande carinho, admiração e gratidão, sempre me incentivaram a seguir o caminho da ciência com ética e dedicação”. 

Atualmente, ela lidera o grupo de pesquisa de Imunopatologia das Doenças Infecciosas e Renais da UFTM e também coordena o Centro de Pesquisa em Rim (CePRim/UFTM), ambiente destinado ao ensino, pesquisa, extensão e diagnóstico em biópsias renais.  

Essa capacidade de ajudar as pessoas em momentos tão delicados é o que encanta a Acadêmica. “Todos os dias são descobertas novas doenças, que precisam ser estudadas profundamente para se chegar a um diagnóstico assertivo e uma condução terapêutica que preserve a qualidade de vida do paciente”, destaca. 

A eleição para a ABC ela define como “a materialização de um sonho” e espera que suas pesquisas possam servir para subsidiar políticas públicas e contribuir para o debate acadêmico. “Em especial, quero incentivar as jovens brasileiras a seguirem seus objetivos para fortalecermos a representatividade das mulheres na ciência”, adiciona. 

Mas nem só de ciência vive a cientista. Nas horas vagas, a Acadêmica é apaixonada por artes, e diz ter um gosto eclético tanto pra música quanto para filmes. Também gosta de estar rodeada por amigos e familiares e manter um estilo de vida saudável. “Não sou uma grande amante de atividade física e esportes”, confessa, “mas pratico exercícios físicos regularmente”. 

Engenharia de materiais contra a seca e a poluição

Nós nem percebemos, mas os materiais que conhecemos definem boa parte do que podemos fazer e até mesmo conceber em nosso processo criativo. Épocas inteiras foram descritas a partir do domínio de tecnologia em relação aos materiais, como a Idade da Pedra ou a Era do Bronze, e hoje em dia já desenvolvemos tanto que é até difícil imaginar o que ainda podemos criar. 

É exatamente nessa fronteira de conhecimento que trabalha o engenheiro Manuel Houmard, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nascido em São Luis do Maranhão, Manuel cresceu em Rouen, na França, e viveu a vida inteira no país europeu, até voltar ao Brasil durante um período do seu doutorado, e mais tarde no pós-doutorado.  

Durante a infância, além do futebol e da queimada, Manuel nutria um carinho muito especial pelas aulas de física e química na escola, suas preferidas. “Sempre fui uma criança curiosa por fenômenos naturais”, relata. 

Por conta desse interesse, ele já sabia desde cedo que gostaria de engenharia, restava saber qual. A curiosidade por entender como são feitas as coisas o fez optar pelo curso de Engenharia de Materiais na Escola Nacional de Eletroquímica e Eletrometalurgia de Grenoble. Lá, além de amizades que levou pra vida, Manuel descobriu também o gosto pela pesquisa científica, ao realizar mestrado concomitante aos últimos anos de graduação, no Instituto Politécnico de Grenoble, quando teve contato mais de perto com a rotina de um laboratório. 

Obteve o título de mestre com um estudo sobre a influência do processo de laminação a frio sobre a superficie de aços inoxidáveis. Nesse período, foi orientado pelos professores Jean-Charles Joud e Gregory Berthomé. No doutorado, continuou no Instituto Politécnico de Grenoble, dessa vez sob orientação de Michel Langlet e Gregory Berthomé, quando começou a se aprofundar no processo sol-gel, onde em determinado momento ocorre a transição de uma solução para um estado de gel, formando então um novo material. Esse processo é muito usado para fabricar materiais sintéticos nanoestruturados na forma de filmes finos ou de material mesoporoso, por exemplos.  

Durante o doutorado, Manuel teve a oportunidade de passar um período na Universidade Federal de Minas Gerais, onde viria a ser professor. Mas antes de retornar, o novo Acadêmico fez dois anos de pós-doutorado no Lawrence Berkeley National Laboratory, nos EUA, onde se aprofundou no desenvolvimento de biomateriais. 

Desde 2012, Manuel é professor da Escola de Engenharia da UFMG, primeiro como adjunto e agora como associado. “As pesquisas que meu grupo realiza consistem em adequar quimica e estruturalmente diversos materiais, com intuito de desencadear ou melhorar propriedades especificas, em particular para aplicações ambientais”, descreveu. 

Em uma dessas pesquisas, Manuel Houmard utiliza a fabricação sol-gel na produção de materiais mesoporosos com alta capacidade de captação de água. Essas propriedades podem ser usadas para aplicação em regiões que sofrem com estiagens, para diminuir o desperdício e reaproveitar inclusive a água que evapora. “A ciência, em geral, permite descobrir novas soluções para diferentes problemas da sociedade e assim melhorar a vida de todos. Em minha área, desenvolvemos novos materiais para aproveitar os recursos naturais e para mitigar a poluição industrial”, explica. 

Agora na ABC, o Acadêmico conta que a eleição vem numa data muito especial, após completar uma década de docência na UFMG. “Espero poder ajudar a sociedade a enxergar melhor o papel importante da educação e da pesquisa para o desenvolvimento do país”. 

Conhecendo o mundo com os pés no chão

Decidir uma carreira não é fácil. A diferença entre os resultados de uma escolha feita por um caminho ou por outro na adolescência chega a ser assustadora. A história do engenheiro florestal Sérgio Henrique Godinho Silva mostra que a descoberta da vocação científica pode vir só no fim da faculdade, estimulada por políticas públicas que a incentive. 

Sérgio nasceu em Lavras, MG, em família de comerciantes, tanto pelo lado da mãe como do pai. Apaixonado por futebol desde criança, sempre que podia estava jogando bola com os amigos. No intervalo da escola ou depois das aulas, os jogos foram ficando cada vez mais competitivos e ele chegou a participar de campeonatos interescolares e regionais. Outra paixão que cultivou foi a música – e chegou a ter uma banda pra tocar guitarra nos bares da cidade durante a juventude. 

Esses múltiplos interesses apareceram também na hora de escolher uma faculdade. Na dúvida entre odontologia e engenharia, o Acadêmico acabou ingressando em engenharia florestal na Universidade Federal de Lavras (UFLA), ainda com a esperança de ser aprovado em engenharia civil no ano seguinte. Mas essa opção seria logo descartada. “Acabei gostando do curso, dos colegas e do início dos trabalhos em ciência do solo e, assim, segui o curso até o fim”, lembra. 

A ciência do solo, ou pedologia, procura entender o solo a partir da complexa interação entre fatores físicos, químicos, biológicos e geológicos que o formaram. Assim como o solo serve de base para a biota e para os ciclos geofísicos, a pedologia dá o suporte necessário para outras ciências, como a agronomia e a climatologia, buscando um retrato mais fiel e completo dos ambientes naturais. 

Sérgio foi apresentado à área no seu primeiro semestre de UFLA e logo se interessou. Por sugestão de amigos, procurou iniciação científica no Departamento de Ciência do Solo. Foi quando conheceu seu orientador, o professor Nilton Curi, que logo colocou o jovem para auxiliar nos projetos de mestrandos e doutorandos. “Me interessei tanto pelas pesquisas que assistia a algumas aulas ansioso para voltar logo ao laboratório”. 

Ao fim da graduação, Sérgio teve uma oportunidade rara. Através do programa Ciência sem Fronteiras, o Acadêmico foi selecionado para um intercâmbio de seis meses na Universidade de Purdue, nos EUA. A essa altura o Acadêmico já desenvolvia seu próprio projeto, um mapeamento digital da espessura de solos de uma bacia hidrográfica próxima de Lavras. “A experiência me ajudou a definir que realmente queria fazer pesquisa. Até então tinha vontade de me formar e ir para o mercado no setor florestal”, recorda. 

A partir daí, tudo aconteceu muito rápido. Godinho seguiu a linha de pesquisa na pós-graduação e, três anos após se formar na UFLA, concluiu seu doutorado e ingressou como professor na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, campus Unaí. Pouco depois, foi aprovado para professor na Universidade Federal de Lavras. Durante esse período, ele se aprofundou em mapeamento de solos, expandindo para outras regiões de Minas Gerais e do Brasil. Além de Nilton Curi, Sérgio foi orientado também por Phillip Owens e Michele Duarte de Menezes, professores que admira e com quem mantêm colaborações até hoje. 

“Hoje atuo na caracterização de solos, mapeando classes e atributos que permitem conhecer melhor suas capacidades e limitações, por exemplo, para a agricultura e silvicultura. Através de testes envolvendo dados de campo, sensores e inteligência artificial temos conseguido acelerar e aumentar a quantidade de dados para a caracterização, proporcionando maior embasamento para sua utilização sustentável”, explica. 

A quantidade de áreas e técnicas que interagem no estudo dos solos faz com que Godinho esteja sempre em contato com assuntos de outras áreas. Essa interdisciplinaridade é uma tendência da ciência moderna e uma das características que mais atraem o pesquisador. “Há muita novidade surgindo a cada dia, sejam novos dados, novos sensores ou novas técnicas de inteligência artificial. Isso nos motiva a estar em constante atualização”. 

Agora na ABC, Sérgio Godinho se diz orgulhoso de trazer o campo da pedologia e a UFLA consigo, destacando a importância de popularizar a ciência entre os mais jovens, visando a formar mais cientistas brasileiros. “Agradeço a todos que contribuíram para que eu tivesse essa oportunidade. Por isso, espero que eu também contribua para que mais pesquisadores tenham oportunidades no futuro”, finaliza. 

Navegando por pandemias e infodemias

Um dos maiores desafios da sociedade moderna – e da ciência moderna – é navegar por um mar cada vez mais profundo de dados. Seja qual for a área, ter capacidade computacional para lidar com esse volume gigante de informação é crucial, e cientistas com essa expertise são fundamentais. O bioinformata Anderson Fernandes de Brito une as áreas de informática e biologia em pesquisas de ponta voltada ao sistema de saúde brasileiro. 

A biologia ele conheceu ainda criança. Anderson cresceu em Brasília, Distrito Federal, em uma região próxima do Cerrado. Junto com as outras crianças ele brincava de acampar e podia observar de perto os pequenos animais e plantas do bioma. “Minha mãe, apesar de não ter feito biologia, cresceu no meio rural, então me ensinava muito sobre ecologia, botânica e zoologia. Ela foi uma das grandes influenciadoras do meu interesse por ciência”, conta. 

Enquanto crescia, o interesse pelas ciências naturais dividia espaço com uma habilidade natural para a computação, e Anderson chegou a dar aulas de informática por dois anos antes de entrar na universidade. A interação entre essas duas áreas o acompanharia durante toda a carreira, como viria ainda a descobrir.  

Ao ingressar no curso de ciências biológicas da Universidade de Brasília (UnB), em 2007, Anderson descobriu o gosto pela pesquisa. Logo no segundo período já ingressou na iniciação científica, atuando numa parceria entre a UnB e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Seu início como pesquisador foi de experimentação, passando por áreas como ecologia, fitopatologia, biologia molecular, antes de se estabelecer na virologia. 

“Minha iniciação científica na Embrapa foi fundamental para minha decisão em cursar mestrado em microbiologia na Universidade de São Paulo onde me aprofundei em virologia e genômica”, conta. 

A genômica é uma área da genética que olha para o DNA completo dos organismos, e não apenas para genes. O genoma completo do ser humano, por exemplo, tem cerca de 3 bilhões de pares de bases, e analisar esse volume imenso de informação não é nada trivial. “Por esse motivo, senti necessidade de aprofundar minhas habilidades em programação. Para tal, tive o privilégio de cursar meu doutorado em biologia computacional no Imperial College de Londres, financiado pelo programa Ciência sem Fronteiras. Ali consolidei meus conhecimentos em bioinformática”, explica o Acadêmico. 

Atualmente é pesquisador do Instituto Todos pela Saúde (ITpS) e antes esteve na Universidade Yale, EUA, onde fez pós-doutorado pesquisando aspectos de emergência, transmissão e evolução de epidemias virais.  

Anderson destaca o caráter multidisciplinar de sua trajetória, tendo estudado temas como ecologia, evolução, biologia molecular e genética, e aplicando o que ia aprendendo em pesquisas voltadas à saúde pública. “Entender como patógenos evoluem é essencial para a tomada de decisões em saúde pública. Os dados que analiso dizem respeito à epidemiologia de doenças causadas por vírus e bactérias. O objetivo das pesquisas é prover informações em tempo oportuno para a detecção, prevenção e controle de surtos e epidemias”. 

Durante a pandemia, o Acadêmico se viu tendo que aplicar todos os conhecimentos acumulados no mais terrível dos cenários. O vírus da covid-19 evoluía aos olhos do mundo, e a cada semana o cenário epidemiológico se agravava. Outro fenômeno cuja rapidez o espantava era o da desinformação. “Me impressiona o quanto as mentiras se disseminavam com rapidez, impondo um enorme desafio à comunidade científica. Precisamos fazer nossa voz ecoar, para combater a pseudociência e as informações falsas, na mesma velocidade e volume com que elas surgem”, alerta. 

Para isso, o cientista passou a focar também em comunicação durante a crise, aceitando os convites que surgiam por parte da mídia para tentar levar informações corretas à sociedade. Hoje, ele guarda essas inserções em seu blog pessoal, como uma forma de não deixar esquecer. Anderson também é muito ativo no Twitter, em seu perfil @andersonfbrito_, mostrando a importância de pesquisadores se inserirem no debate público. 

Mas nem só de ciência – e de divulgação de ciência – deve viver o cientista. Nas horas vagas, Anderson é um entusiasta de danças latino-americanas, performando em estilos como salsa, bachata, zouk, além de paixões nacionais como o forró e o samba de gafieira. Agora na ABC, ele destaca a oportunidade de troca e promete marcar presença no debate e na defesa da ciência nacional. 

Materiais para moldar, sondar e salvar vidas

O gosto pela ciência não precisa de muito para despertar, já que o prazer da descoberta é natural nas crianças. A história de Bruno Janegitz reflete bem isso: o menino humilde, que ajudava os pais no comércio e adorava as aulas de ciência, foi cultivando interesse por natureza e tecnologia através de passatempos curiosos, como ler bulas de remédio. 

Nascido no pacato bairro de Vila Nova em Paraguaçu Paulista, quase na divisa com o Paraná, o novo Acadêmico teve a infância tradicional de cidades pequenas. Brincava de esconde-esconde e pega-pega com os amigos e a irmã mais nova, jogava bola e é até hoje fanático pelo Corinthians. O pai era funcionário público do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a mãe dona-de-casa vendia bolos e salgados para complementar a renda. 

E foi assim, indo de porta em porta ajudar a mãe nas vendas, que Bruno teve a primeira experiência com o comércio. Quando era adolescente os pais compraram uma padaria e o filho passou a ajudá-los no balcão. “Foram cinco anos de muito trabalho, onde aprendi a valorizar todas as pessoas em meu convívio. Naquele balcão tive o prazer de fazer muitas amizades e aprendi como melhor comprar e vender”, recorda. 

Mas a curiosidade nunca o abandonou e foi cada vez mais se interessando em saber como as coisas ao seu redor eram feitas. Durante o terceiro ano do ensino médio e cursinho chegou à conclusão de que queria ser químico, prestando vestibular para faculdades em São Paulo e no Paraná. Após ser aprovado em todos, optou pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a 340 quilômetros de casa. 

A mudança para uma nova cidade com 19 anos fez com que Bruno mergulhasse de cabeça no ambiente universitário. Ele descreve a cultura no campus da UFSCar como fortemente científica e isso foi o empurrão que faltava para que ele seguisse a carreira. Incentivado pelo programa de de educação tutorial a procurar um estágio, o Acadêmico conheceu logo no segundo ano de graduação o professor Orlando Fatibello-Filho, de quem seria orientando pelos próximos nove anos. 

Na iniciação científica, em que recebia bolsa da Fapesp, Bruno pesquisava e desenvolvia sensores eletroquímicos para detecção de metais tóxicos na água. Em seu trabalho de conclusão de curso, apresentou um método de tratamento para a poluição de afluentes utilizando a quitosana, composto totalmente natural encontrado na carapaça de crustáceos, que não agride o meio ambiente. 

Janegitz seguiu na UFSCar na pós-graduação. No mestrado, se aprofundou nos processos de síntese e caracterização de materiais e em química analítica. Já no doutorado, começou a lidar também com biossensores, diversificando suas aplicações também para questões da saúde humana. Nessa época, teve a oportunidade de realizar parte de sua formação na Universidade Complutense de Madri, Espanha, sob orientação do professor José Manuel Pingarrón. “Descobri que a bioanalítica é fascinante e passei a desenvolver sensores e nanomateriais com diferentes aplicações, desde o uso de anticorpos até o sequências de DNA”, relatou. 

Atualmente Bruno Janegitz  é professor da UFSCar e líder do Laboratório de Sensores, Nanomedicina e Materiais Nanoestruturados (LSNAno) da universidade. A possibilidade de sua ciência ajudar no tratamento de doenças encanta o novo Acadêmico, mas as aplicações não se restringem a medicina. “Hoje desenvolvemos em nosso laboratório tintas condutoras para diversas aplicações, novos filamentos condutores para impressão 3D e sistemas de detecção de doenças diversas como Parkinson, diabetes e covid-19”, contou. 

Nas horas vagas, Bruno tem várias maneiras de aproveitar o tempo. Dono de um gosto musical eclético que vai desde o forró até o rock clássico, Bruno gosta também de jogos de videogame com uma boa história. Também adora viajar e acompanhar os jogos do Corinthians. Ele conta que recebeu com surpresa a indicação para a ABC, a qual aceitou com muito prazer. “Espero poder atuar pelo fortalecimento e soberania da ciência nacional, ajudando na divulgação científica e fazendo com que cada vez mais jovens queiram seguir essa carreira tão linda”. 

Criatividade para pesquisar e aplicar

A criatividade é uma característica fundamental de um bom cientista. Crescer num ambiente estimulante é crucial para que uma criança goste de aprender e isso o engenheiro eletricista Leonardo Tomazeli Duarte teve desde o berço. 

Nascido e criado em Sertãozinho, no interior de São Paulo, Leonardo teve uma típica infância do campo, brincando solto pelas ruas com as outras crianças sem as preocupações das grandes cidades. Na companhia de Ronaldo, seu irmão mais velho, faziam de árvores traves de futebol e do portão de casa rede de vôlei. Também improvisavam uma cesta de basquete com um aro numa grade e assim podiam praticar o esporte que mais gostavam. 

Aos pais, Aparecida e Sebastião, Leonardo atribui o gosto pelos estudos. Apesar de só terem cursado até a quarta série, os dois sempre mostraram aos filhos a importância da leitura. Aparecida tinha o sonho de ser professora, o qual podia realizar um pouco ao acompanhar o aprendizado dos meninos. Já Sebastião era autodidata, fascinado por rádio de válvulas e profundo conhecedor de eletrônica, técnica que fez questão de ensinar aos filhos. Não à toa, tanto Leonardo quanto Ronaldo decidiram cursar engenharia. 

Ronaldo foi o primeiro a ingressar na Unicamp, no curso de engenharia da computação. Na época, a família decidiu visitar a universidade onde o primogênito passaria os próximos anos, e Leonardo foi junto. “Eu estava ainda na oitava série e fui mais porque queria conhecer Campinas. Mas chegando lá pensei ‘É aqui que quero estudar!’”, lembra com nitidez. 

Três anos depois lá estava Leonardo, calouro da Faculdade de Engenharia Elétrica e da Computação (FEEC/Unicamp). “Meu irmão, então no quarto ano, me passava várias dicas sobre a universidade e também sobre as disciplinas, pois muitas delas eram comuns aos cursos de engenharia elétrica e engenharia de computação”, explica. 

Já nas primeiras aulas da graduação, Leonardo foi tomando gosto pela pesquisa e logo entrou para a iniciação científica no Laboratório de Processamento de Sinais para Comunicações (DSPCom/Unicamp), sob orientação dos professores Romis Attux e João Marcos Travassos. O projeto, na área de processamento de sinais, já dava pistas do caminho que o Acadêmico seguiria na carreira.  “Além do domínio da matemática e dos aspectos técnicos da área, os professores me apresentaram uma visão de ciência mais ampla, que estimulava a reflexão e as perguntas fundamentais. Essas discussões filosóficas eram novas para mim e me fascinavam”, conta. 

A decisão de seguir a carreira acadêmica já estava tão consolidada, que mesmo antes de se formar o pesquisador cursou algumas disciplinas da pós-graduação, que eram oferecidas como optativas. Ao concluir o curso, continuou na Unicamp no mestrado, que fez com os mesmos orientadores. Ele valoriza muito o tempo que passou no DSPCom, lembrando que a interação com os colegas o fazia aprender diariamente. “Cito um deles, o Ricardo Suyama, que hoje é professor na UFABC [Universidade Federal do ABC]. O Ricardo foi muito importante no meu mestrado, me impressionava com suas habilidades matemáticas e precisão nas suas investigações”. 

No doutorado, Leonardo teve a oportunidade de se aprofundar ainda mais na área de separação de fontes com uma experiência internacional no Instituto Politécnico de Grenoble, França. Lá ele foi orientado por Christian Jutten, um dos pioneiros no assunto. “Lembro que tive um certo receio de como seria o professor Jutten, pois ele já era uma ‘estrela internacional’ na área de processamento de sinais. Esse receio acabou logo no primeiro dia de trabalho, pois pude constatar que, além um cientista brilhante, ele era uma pessoa muito especial, gentil e sempre disponível para conversas”, lembrou. 

Também o surpreendeu na França o laboratório onde atuou, o GIPSA-lab, cuja reputação o precedia. O tamanho e a diversidade de pesquisas ali realizadas eram algo novo para o pesquisador. “Foi um momento que pude ter contato mais fácil com pesquisadores de diferentes lugares do mundo, e entender a importância do investimento robusto para a estruturação de laboratórios de ponta em nível mundial”. 

Em 2010, o Acadêmico retornou para o Brasil, e em 2011 se tornou professor em sua Alma máter, a Unicamp, na então recém-criada Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira. Desde então, vem se dedicando a três linhas de pesquisa principais. 

Na primeira, em processamento de sinais, onde atua desde o mestrado, o Acadêmico desenvolve métodos computacionais capazes de recuperar um conjunto de sinais – fontes – a partir de sinais que são versões misturadas dessas fontes. “Imagine que há várias pessoas conversando em uma festa. Cada sinal de voz de uma pessoa é uma fonte. Se colocarmos alguns microfones no recinto da festa, eles captarão misturas das vozes. Meu trabalho é recuperar cada voz individual”, exemplificou. 

Outra área que estuda é o da decisão multicritério, que, como o próprio nome diz, envolve o aprimoramento de processos de decisão com base em variáveis múltiplas e, muitas vezes, inter-relacionadas. “Investigo uma ferramenta matemática conhecida como integral de Choquet, que pode ser entendida como um modelo não linear capaz de tratar as relações entre os critérios existentes”, explica. 

Por fim, Leonardo também se dedica ao aprendizado de máquina, área cada vez mais popular com a profusão de algoritmos e aplicativos em nosso dia a dia. Nessa área, suas pesquisas envolvem questões importantes sobre ética e inteligência artificial. “Máquinas ‘aprendem’ observando conjuntos de dados históricos, onde possíveis vieses – preconceitos, por exemplo – podem estar presentes. Desta forma, torna-se fundamental pesquisar métodos capazes de identificar e mitigar o impacto desses vieses nas recomendações feitas pelos algoritmos.” 

Essas áreas têm uma alta gama de aplicações, como finanças e concessão de crédito, análise de frotas veiculares, desenvolvimento de políticas públicas e até análise esportiva. Essa multidisciplinaridade é o que fascina o Acadêmico. “Eu necessito, a todo momento, recorrer a ferramentas de várias áreas do conhecimento e cooperar com diversos pesquisadores, com métodos e domínios completamente distintos. Isso me permite descobrir temas fascinantes de pesquisa. Essa interdisciplinaridade me agrada muito e é cada vez mais importante para o desenvolvimento científico”. 

Todo esse caminho, ele destaca, só foi possível graças ao financiamento público. Ele defende o papel fundamental das agências de fomento nacionais, CNPq e Capes, e também das fundações estaduais (FAPs). Mas o maior suporte vem da família que formou com a esposa Josyane, com quem teve Eduardo, de apenas dois aninhos. Com eles divide a vida, as viagens e as playlists, sempre ecléticas e recheadas de estilos brasileiros, que vão desde BaianaSystem à Lô Borges. 

Agora na ABC, Leonardo se diz honrado e pretende atuar nas discussões sobre ciência e também na cada vez mais necessária divulgação científica. “É cada vez mais importante conscientizar a população que a ciência, além de ser algo grandioso em sua essência, é fundamental para o desenvolvimento socioeconômico do país. Em tempos de negacionismo e ataques orquestrados contra a área, essa não é uma tarefa fácil, mas deve ser levada com afinco pelos cientistas”, finalizou. 

Ciência por uma agricultura sustentável

Tornar nossa agricultura mais sustentável é um dos desafios do Brasil para o século XXI, e é para isso que Maurício Cherubin faz pesquisa. Seus trabalhos com saúde do solo e soluções baseadas na natureza fizeram dele um dos cientistas mais influentes do mundo, vencendo o Prêmio Fundação Bunge 2022 – considerado o “Oscar” das ciências agrárias – na categoria até 35 anos. 

A notoriedade vem de suas contribuições para um tema cada vez mais urgente ao planeta: como fazer uma agricultura que seja, ao mesmo tempo, sustentável e produtiva. Em qualquer modelagem sobre a alimentação de um mundo com 10 bilhões de pessoas, o Brasil terá de crescer mais do que a média. Ao mesmo tempo, nossa rica biodiversidade presta serviços naturais indispensáveis para estabilizar o clima do planeta, estando sob constante ameaça do avanço da fronteira agrícola. Conciliar essas duas demandas só é possível com pesquisa e inovação. 

Nascido em uma família de agricultores de Erechim, RS, Cherubin viveu até os 15 anos na pequena propriedade rural dos pais, onde intercalava o tempo entre as plantações e o campo de futebol. Apaixonado pelo Grêmio, Maurício contou que esperava ansioso pelo fim de semana, quando os irmãos mais velhos voltavam para casa e ele tinha companhia para jogar bola. “Meus irmãos são 15 e 8 anos mais velhos do que eu e sempre os tive como um exemplo”, contou. “Ambos se formaram como técnicos em agropecuária, então eu naturalmente segui o exemplo”, disse  

Apesar das boas notas na escola e do incentivo familiar aos estudos, Cherubin não pensava em cursar uma faculdade, preferindo se formar na Escola Agrotécnica Federal de Sertão/RS, para ingressar logo no mercado de trabalho. “Na época, não havia um direcionamento por parte dos professores do ensino médio e técnico de que ‘poderíamos’ fazer uma faculdade”, explicou. Todavia, um colega do curso técnico insistiu para que Maurício prestasse o vestibular em Agronomia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), para um campus novo que estava sendo inaugurado na cidade de Frederico Westphalen. E foi assim, no único vestibular que prestou, que Maurício Cherubin ingressou na primeira turma de Agronomia do novo campus, em 2006.  

Sua trajetória é também uma mostra de como as bolsas de graduação e início de carreira são cruciais para formar cientistas de excelência. “Desde muito cedo comecei na pesquisa, e por dois motivos: interesse em ciência e necessidade de bolsa para me manter na universidade”, apontou. Já no segundo semestre conseguiu a primeira bolsa de monitoria e, no terceiro, a primeira bolsa de Iniciação Científica. “Até abril de 2018, quando me tornei professor, nunca mais fiquei sem bolsa. Foram 12 anos ininterruptos onde dependi de bolsas para me manter na carreira”. 

Durante esse período, o novo Acadêmico não perdia oportunidades de complementar sua formação, dentro e fora de sala de aula. Sempre mantendo um desempenho ótimo na grade curricular, ele encontrava tempo para participar de projetos de extensão e grupos de pesquisa, além de atuar no movimento estudantil. Quando estava no terceiro período decidiu aceitou um novo desafio: cursar Administração em um curso à distância da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Além da oportunidade única de estudar na prestigiada UFSC, foi também uma estratégia para otimizar meu tempo, obtendo conhecimento e formação acadêmica na área administrativa, que é extremamente importante, independentemente da profissão que se venha atuar”, conta. 

Mas foi a pesquisa em agronomia que norteou a carreira de Cherubin. Sob orientação do professor Antônio Luis Santi ingressou na temática da agricultura de precisão, área de seu trabalho de conclusão de curso e posteriormente, da dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação (PPG) em Agronomia – Agricultura e Ambiente da UFSM. “Sou muito grato ao professor Santi, que se tornou um amigo pessoal. Ele é um dos maiores pesquisadores e entusiastas da agricultura de precisão no Brasil”. 

No doutorado, decidiu experimentar novos ares e foi para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, SP. Cherubin ingressou no PPG em Solos e Nutrição de Plantas, sob orientação do Acadêmico Carlos Clemente Cerri, falecido em 2017, e coorientação de Carlos Eduardo Cerri, hoje seu colega de Esalq. “Foi uma das melhores escolhas de minha vida”, contou. “Tive a oportunidade de conhecer e interagir com pesquisadores do mais alto nível, aprender novas técnicas e análise de dados e crescer muito cientificamente”.  

O foco de seu doutorado foi entender como mudanças no uso da terra para expansão da cana-de-açúcar afetavam a saúde do solo. Para se aprofundar na área, Cherubin conseguiu uma parceria com o pesquisador do Laboratório Nacional de Agricultura e Meio Ambiente do USDA, Douglas Karlen, referência mundial em qualidade de solos. “Acompanhado de minha esposa, Tamires, fui morar por cerca de 1 ano em Ames (Iowa, EUA). Foi um período absolutamente fantástico, pessoal e profissionalmente”, contou. 

Ao retornar ao Brasil, Maurício Cherubin fez pós-doutorado por dois anos até ser aprovado em concurso para professor do Departamento de Ciência do Solo da Esalq/USP, em 2018. Desde então, vem se especializando cada vez mais em saúde dos solos, conceito que define como “a capacidade continuada do solo, como um ecossistema vivo, de desempenhar suas múltiplas funções, tais como suporte à produção de alimentos, fibras e biocombustíveis; ciclagem de nutrientes; estocagem de carbono; habitat para a biodiversidade; regulação do fluxo de água; fornecimento de matéria-prima à indústria farmacêutica, cosmética e construção civil; patrimônio e herança cultural.” 

A saúde do solo, de acordo com Cherubin, é a base da agricultura sustentável e regenerativa, bem como deve ser o alicerce para atingir a segurança alimentar e combater as mudanças climáticas. “Então, o alimento do nosso dia a dia, a água potável, o ar que respiramos, a paisagem que observamos e até os antibióticos que temos que usar têm uma conexão direta com o solo”, explicou. “Solo saudável é fundamental para levarmos uma vida saudável”. 

O destaque conquistado recentemente ele faz questão de dividir com seus colegas de departamento e com os estudantes do Grupo de Pesquisa em Saúde e Manejo do Solo (Sohma, da sigla em inglês) da Esalq/USP, que lidera. Como membro afiliado da ABC, Cherubin planeja atuar pela disseminação científica na sociedade, sobretudo nos temas relacionados às ciências agrárias. 

“A educação e a ciência são instrumentos de transformação social. A minha vida foi transformada pela ciência e, por consequência, a vida da minha família e das futuras gerações. Tanto eu como minha esposa somos da primeira geração de nossas famílias a ingressar numa universidade. Agora, temos o privilégio de desfrutar, com nossa filha Agatha, de 1 ano e 3 meses, das belezas do campus da Esalq nos finais de semana. Perceba a mudança de perspectiva sobre educação e ciência que estamos proporcionando à geração de nossa filha e para todas as próximas”, contou, com orgulho. 

Mas nem só de ciência vive o cientista. O trabalho em São Paulo o mantém longe de suas origens gaúchas, mas nas horas vagas sempre encontra um jeito de escapar para os pampas, seja acompanhando o seu querido Grêmio, seja fazendo um tradicional churrasco ou tomando um chimarrão. Na música, prefere o rock ou o pop-rock, guardando os domingos para ouvir músicas tradicionais do Rio Grande do Sul. Curioso sobre história, Cherubin prefere filmes e documentários baseados em fatos reais e, sempre que o trabalho permite, viaja para lugares novos com a família. “Faço coleção de canecas dos lugares por onde passei. Escolher aquela que melhor representa o local visitado é uma tarefa que levo muito a sério!”. 

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