Sob a coordenação geral de Tanya Berger-Wolf, da Ohio State University (Estados Unidos), e Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Simpósio Conexões para Fortalecer a Ciência na América Latina (Connections to Sustain Science in Latin America Symposium) 2026 deu prosseguimento às suas atividades na quarta-feira (26/08), reunindo cerca de 100 pesquisadores de 17 países das Américas para discutir desafios científicos de relevância global e ampliar oportunidades de colaboração internacional.
Pesquisadora reconhecida internacionalmente por seu trabalho na aplicação de inteligência artificial à biodiversidade e à conservação, Tanya Berger-Wolf dirige o Translational Data Analytics Institute da Ohio State University e lidera iniciativas de grande porte voltadas à integração entre inteligência artificial e ciências biológicas. Já Regina Rodrigues é especialista em oceanografia física e clima, integrante de painéis internacionais de pesquisa sobre mudanças climáticas e autora do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com atuação destacada em estudos sobre eventos climáticos extremos e riscos associados às mudanças do clima.
Ao longo do segundo dia, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer programas de financiamento e cooperação científica, além de participar de sessões temáticas dedicadas à resiliência frente a eventos extremos, um dos grandes desafios científicos e sociais da atualidade.

Oportunidades de colaboração e financiamento
As atividades da manhã tiveram início com uma sessão dedicada às oportunidades de colaboração e financiamento à pesquisa, reunindo representantes de instituições que apoiam o desenvolvimento científico e a formação de redes internacionais de pesquisa. O objetivo foi apresentar aos participantes programas, mecanismos de apoio e possibilidades de cooperação que poderão contribuir para o desenvolvimento de suas carreiras e projetos de pesquisa.
Representando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Ana Paula Yokosawa e Leandro Machado Colli apresentaram as oportunidades oferecidas pela Fundação para apoiar a pesquisa científica e promover a internacionalização da ciência. Enquanto Yokosawa abordou os instrumentos de fomento disponíveis para pesquisadores em diferentes estágios da carreira, Colli destacou a ampla atuação internacional da FAPESP, que mantém acordos de cooperação com agências de fomento, universidades e centros de pesquisa de diversos países. Os representantes ressaltaram modalidades de apoio voltadas à mobilidade acadêmica, ao desenvolvimento de projetos colaborativos internacionais, à realização de estágios de pesquisa no exterior e à formação de redes científicas globais. Também enfatizaram iniciativas destinadas a jovens pesquisadores, como bolsas de pós-doutorado, programas para pesquisadores em início de carreira e mecanismos de apoio à consolidação de grupos de pesquisa.
Representando a Academia Nacional de Ciências, Engenharias e Matemática (NASEM) dos Estados Unidos, Daniel Placht apresentou as oportunidades disponíveis para os participantes do programa Connections to Sustain Science in Latin America, ressaltando que o encontro constitui apenas uma das etapas de uma iniciativa mais ampla voltada ao fortalecimento da comunidade científica da América Latina e do Caribe. Entre os instrumentos previstos para os ex-participantes do programa estão bolsas de mobilidade e auxílios para viagens científicas inspirados nos tradicionais programas Frontiers of Science, destinados a facilitar intercâmbios entre pesquisadores das Américas. As iniciativas buscam apoiar visitas de curta duração a laboratórios e centros de pesquisa, permitindo o desenvolvimento de projetos conjuntos, a ampliação de redes profissionais e o aprofundamento das colaborações iniciadas durante o simpósio.
Em seguida, Tyrone Fleurizard, gerente de programas científicos da Chan Zuckerberg Initiative (CZI), apresentou a atuação da organização filantrópica nas áreas de biologia, saúde e ciência de dados. Sua exposição enfatizou os investimentos recentes da instituição na convergência entre inteligência artificial e ciências da vida, incluindo iniciativas desenvolvidas pelo Biohub, centro de pesquisa apoiado pela CZI. Fleurizard destacou programas voltados ao desenvolvimento de novas ferramentas para compreender o funcionamento das células, tecnologias avançadas de imagem biológica, monitoramento de processos inflamatórios e aplicações do sistema imunológico para prevenção e tratamento de doenças. Também ressaltou o compromisso da organização com a ciência aberta, o compartilhamento de dados e a criação de oportunidades para que jovens pesquisadores integrem redes internacionais de pesquisa em áreas de fronteira do conhecimento.

Resiliência a eventos extremos
Após um intervalo para café, os participantes retornaram às atividades para uma sessão dedicada à discussão sobre Resiliência a Eventos Extremos, coordenada por Amir AghaKouchak, da Universidade da Califórnia em Irvine (Estados Unidos), e Tannecia Stephenson, da Universidade das Índias Ocidentais (Jamaica). As apresentações abordaram diferentes dimensões dos impactos das mudanças climáticas, discutindo estratégias para fortalecer a segurança hídrica, aprimorar a previsão de enchentes e enfrentar o avanço dos incêndios florestais.
Abrindo a sessão, Camila Álvarez-Garretón, do Centro de Ciência do Clima e da Resiliência, no Chile, apresentou iniciativas voltadas à construção de serviços climáticos para apoiar a gestão da água e a preparação para eventos hidrometeorológicos extremos na região dos Andes. A pesquisadora destacou como secas prolongadas, aumento da demanda hídrica e alterações no uso da terra vêm ampliando a pressão sobre os recursos hídricos, ressaltando a importância de sistemas integrados de monitoramento, modelagem e previsão climática. Segundo ela, a disponibilidade de informações confiáveis é fundamental para subsidiar políticas de adaptação, fortalecer sistemas de alerta precoce e ampliar a segurança hídrica em uma região particularmente vulnerável às mudanças climáticas.
Na segunda apresentação, Ebrahim Ahmadisharaf, da Florida State University, discutiu o potencial do uso de dados de umidade do solo obtidos por satélites para aperfeiçoar análises e modelos de previsão de enchentes. O pesquisador mostrou como informações provenientes do sensoriamento remoto podem melhorar a compreensão dos processos hidrológicos que influenciam as inundações, bem como contribuir para previsões mais precisas dos riscos associados a eventos extremos. Segundo ele, a incorporação desse tipo de dado aos sistemas operacionais de monitoramento e previsão representa uma importante oportunidade para aumentar a capacidade de resposta de governos e comunidades.
Encerrando a sessão, Liana Anderson, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), abordou os riscos crescentes associados aos incêndios florestais na Amazônia e suas consequências para os ecossistemas, o clima e as populações da região. A pesquisadora discutiu como a combinação entre mudanças climáticas, desmatamento e degradação ambiental tem ampliado a vulnerabilidade da floresta ao fogo, criando um ciclo que compromete a biodiversidade, o armazenamento de carbono e a capacidade de regeneração dos ecossistemas amazônicos. Anderson também apresentou iniciativas que conectam cientistas, gestores públicos e comunidades locais na busca por estratégias de prevenção e mitigação dos incêndios.
Em conjunto, as apresentações mostraram que a resiliência a eventos extremos depende da integração entre ciência, tecnologia e políticas públicas. Os debates reforçaram a importância de ampliar a capacidade de monitoramento e previsão de riscos, ao mesmo tempo em que evidenciaram a necessidade de estratégias de adaptação capazes de reduzir a vulnerabilidade de populações e ecossistemas diante dos impactos das mudanças climáticas.

Inteligência Artificial Aplicada às Ciências da Vida
Coordenada por Ivonne Montes, do Instituto Geofísico do Peru, e Helder Nakaya, do Hospital Israelita Albert Einstein e da Universidade de São Paulo (USP), a sessão sobre Inteligência Artificial Aplicada às Ciências da Vida deu continuidade à programação científica do simpósio. Os debates destacaram o potencial da inteligência artificial para acelerar descobertas científicas e ampliar a capacidade de análise de grandes volumes de dados em áreas como saúde, biodiversidade e ciências da vida.
Abrindo a sessão, Esteban Meneses, diretor do Laboratório de Computação Avançada do Centro Nacional de Alta Tecnologia da Costa Rica, abordou o papel estratégico da infraestrutura de computação de alto desempenho (High Performance Computing – HPC) para o avanço da inteligência artificial aplicada às ciências da vida. O pesquisador apresentou a experiência da Costa Rica na implantação e operação de sistemas de supercomputação capazes de apoiar pesquisas complexas em áreas como saúde, destacando que a disponibilidade de infraestrutura computacional robusta é um elemento fundamental para o desenvolvimento e a aplicação de modelos avançados de inteligência artificial. Segundo ele, o acesso a essas capacidades pode ampliar significativamente o potencial de pesquisa de instituições e grupos científicos em países da América Latina.
Na sequência, Bruno Soares, da Universidade de Regina, no Canadá, apresentou o projeto IARAA (Artificial Intelligence for Environmental Recognition in the Amazon), uma rede de estações ecológicas autônomas voltada ao monitoramento da biodiversidade amazônica. A iniciativa combina sensores ambientais, equipamentos de captação de áudio e imagem e ferramentas de inteligência artificial para acompanhar, em tempo real, a ocorrência de diferentes espécies e detectar ameaças ambientais, como desmatamento, queimadas e contaminação de recursos hídricos. O pesquisador destacou ainda que o projeto é desenvolvido em parceria com comunidades indígenas da Amazônia, buscando alinhar a produção de conhecimento científico às necessidades de monitoramento e proteção territorial dessas populações.
Encerrando a sessão, Sara Beery, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), discutiu os desafios associados à aplicação da inteligência artificial em contextos científicos complexos. A pesquisadora destacou que modelos de aprendizado de máquina vêm sendo cada vez mais utilizados para processar grandes volumes de dados relacionados à biodiversidade e ao monitoramento ambiental, mas ressaltou que essas ferramentas ainda estão sujeitas a erros e vieses que exigem supervisão humana. Em sua apresentação, mostrou diferentes estratégias para combinar o poder analítico da inteligência artificial com a validação realizada por especialistas, aumentando a confiabilidade dos resultados e direcionando os esforços dos pesquisadores para questões mais relevantes do ponto de vista científico e da conservação ambiental.
Em conjunto, as apresentações demonstraram como a inteligência artificial vem transformando diferentes etapas da pesquisa científica, desde a infraestrutura computacional necessária para processar grandes volumes de dados até aplicações voltadas ao monitoramento ambiental e à geração de conhecimento para a conservação da biodiversidade. Os debates também reforçaram que os avanços mais promissores nessa área dependem da integração entre inovação tecnológica, conhecimento especializado e colaboração interdisciplinar.

Flash Talks e pôsteres reforçam a interação entre os participantes
O segundo dia do simpósio foi encerrado com uma nova rodada de Flash Talks e com a tradicional sessão de pôsteres, atividades que desempenharam papel central na promoção da interação entre os participantes do evento. Coordenada pelos co-chairs gerais do encontro, a dinâmica permitiu que 25 jovens pesquisadores apresentassem, de forma breve e objetiva, as principais questões abordadas em seus trabalhos, despertando o interesse dos demais participantes para discussões mais aprofundadas.
Na sequência, a sessão de pôsteres transformou-se em um espaço privilegiado para o diálogo científico. Pesquisadores de diferentes países, formações e áreas de atuação puderam conversar diretamente sobre seus projetos, compartilhar experiências, discutir abordagens metodológicas e identificar interesses comuns.
O caráter multidisciplinar do Connections to Sustain Science in Latin America Symposium voltou a se destacar nesse momento. Ao reunir especialistas de campos tão diversos quanto ciências ambientais, saúde, engenharia, computação, ciências biológicas e ciências sociais, a atividade favoreceu o surgimento de conexões que dificilmente ocorreriam em encontros temáticos mais especializados.
Mais do que uma oportunidade para apresentar resultados de pesquisa, as sessões de Flash Talks e de pôsteres contribuíram para fortalecer um dos principais objetivos do programa: criar redes duradouras de colaboração entre jovens pesquisadores das Américas, estimulando o desenvolvimento de futuras parcerias e projetos conjuntos que poderão se estender muito além dos dias do simpósio.


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