No ano de 2024, o Rio Grande do Sul sofreu a maior enchente de sua história. As imagens de Porto Alegre debaixo d’água ligaram um alerta para todos os brasileiros: as mudanças climáticas chegaram e nossas cidades não estão preparadas para enfrentá-las. Foi pensando nisso que a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Secretaria de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (Seppe-MCTI) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) organizaram o seminário “Cidades e Mudanças Climáticas” no dia 30 de março de 2026, no Rio de Janeiro.
“Cidades podem ser parte do problema ou da solução. Se bem planejadas, podem ser espaços de inovação e sustentabilidade, liderando a transição para uma economia de baixo carbono, mas isso dependerá da nossa capacidade de integrar ciência, política e sociedade”, avaliou a presidente da ABC, Helena Nader, durante a abertura. Para o presidente da Finep, Luiz Antonio Elias, “o problema não é a falta de conhecimento, mas a distância entre quem sabe e quem decide. Esse seminário foi pensado para encurtar essa distância”.
As mudanças climáticas pisam no acelerador
Para abrir as discussões, foi convidado o climatologista e membro titular da ABC Carlos Nobre, referência internacional no debate sobre o clima. Pouco antes de subir ao palco, Nobre recebeu a informação de que havia sido escolhido pelo papa Leão XIV para integrar um conselho sobre desenvolvimento humano no Vaticano. A nomeação reflete seu destaque tanto na pesquisa quanto na comunicação e no alerta incansável sobre a urgência da crise climática.
E por isso mesmo, o tom da palestra não poderia ser animador. Sucessivos estudos demonstram que a humanidade não obteve sucesso no controle da temperatura. Em 2015, 195 países assinaram o Acordo de Paris, se comprometendo a limitar o aquecimento em 1,5°C acima do período pré-industrial. Mas a falta de empenho em perseguir as metas, somada à ascensão ao poder de negacionistas climáticos em vários destes países, fizeram com que o limite fosse ultrapassado pela primeira vez em 2024. Com temperaturas médias 1,55°C acima do período pré-industrial, aquele foi o ano o mais quente já registrado na história.
“Estudos recentes dão conta de que, se não reduzirmos muito rapidamente o nível atual de emissões de gases do efeito estufa (GEE), atingiremos o aquecimento de 1,5°C de forma permanente a partir de 2030”, alertou Nobre.
Os cientistas ainda tentam explicar o que aconteceu nos últimos cinco anos, quando as médias de temperatura saltaram em 0,3°C, acima do que mesmo os mais pessimistas previam. “O aquecimento dos oceanos, que perderam muito da capacidade de estocar carbono; a diminuição das nuvens baixas e das geleiras polares, que refletem a luz do sol; o forte El Niño entre 2023 e 2024; existem muitas teorias, e pode ser que seja uma combinação de todas elas”, conjecturou Nobre.

Eventos climáticos cada vez mais extremos e frequentes
Seja qual for a razão por trás da aceleração no aquecimento, o resultado é o aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos. De acordo com o coordenador-geral de Análise de Risco do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Lincoln Muniz Alvez, presente na reunião, 84,5% dos municípios brasileiros foram afetados por eventos climáticos extremos desde 2015, causando R$ 455,5 bilhões em prejuízos.
Enquanto no Sul, Sudeste e na costa do Nordeste os fenômenos extremos mais presentes são as fortes chuvas, causando deslizamentos e inundações, no Norte, Centro-Oeste e interior nordestino o problema maior é o aumento dos períodos de seca. Para o físico e Acadêmico Paulo Artaxo, outra voz importante no debate climático, o país precisa entender sua posição precária num mundo em ebulição. “3°C a mais em Teresina ou Belém impacta muito mais do que em Helsinki ou Montreal”, apontou.
Além disso, a economia brasileira é fortemente dependente das chuvas no Brasil central, que abastecem as hidrelétricas e mantém nossa potência agrícola. Por ser um país tropical, a tendência é que o Brasil esquente acima da média global. “Um aumento de 3°C global significaria um Brasil 4°C mais quente – que teria eventos extremos 39 vezes mais frequentes e cinco vezes mais intensos”.
Um fenômeno cada vez mais comum na vida de todos os brasileiros são as ondas de calor, que são intensificadas pelas ilhas de calor urbanas, resultado de um planejamento urbano que prioriza o concreto às áreas verdes. Uma pesquisa recente publicada por pesquisadores brasileiros e portugueses encontrou 48 mil mortes adicionais relacionadas ao calor no Brasil entre 2000 e 2018; o mesmo artigo também mostrou que as ondas de calor se tornaram quatro vezes mais frequentes desde a década de 70. “Morre muito mais gente por onda de calor do que por deslizamento no Brasil e, em ambos os casos, morrem quatro vezes mais pessoas negras e pobres”, analisou Artaxo.
Mudanças climáticas e a saúde humana
As maiores causas de morte durante as ondas de calor são infarto e AVC, seguidos pelas doenças respiratórias. As informações foram trazidas pelo médico, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Acadêmico Paulo Saldiva. “As faixas etárias mais vulneráveis são as crianças de até quatro anos e os idosos a partir dos 69 anos. Crianças entre cinco e nove anos também estão sob maior risco. Isso ocorre porque os mecanismos termorreguladores do corpo não estão plenamente desenvolvidos, ou já não funcionam tão bem”, explicou.
Diretamente relacionada às mudanças climáticas, a poluição do ar é outro problema afetando a vida dos brasileiros nas grandes cidades. “Temos milhões de pessoas presas em ilhas de calor e de concreto, perdendo horas no trânsito respirando poluição. Análises do pulmão de não-fumantes que vivem nas cidades mostram marcas de fuligem semelhantes às de pessoas que fumam. “A questão ambiental nas cidades é uma afronta à cidadania”, criticou Saldiva, que defendeu a reorganização do espaço urbano para aproximar moradia e trabalho.
Populações periféricas são as mais afetadas por esses problemas, e são as principais vítimas quando tragédias acontecem. Para além do risco físico e de doenças trazidas por águas contaminadas, as perdas materiais e a disrupção causadas na vida de alguém que perdeu sua moradia são gatilhos fortes para doenças psicológicas. “Perder anos de trabalho, meios de sustento, ir morar em abrigos, nós já vemos isso nos deslizamentos e enchentes, imagine se tivermos também eventos de desertificação em massa”, projetou o Acadêmico.

O conceito de cidade-esponja e a ex-terra da garoa
Carlos Nobre terminou sua apresentação com uma provocação sobre a cidade de São Paulo. O Acadêmico, que é professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), afirmou que a cidade, outrora “terra da garoa”, recentemente está mais para “terra das tempestades”. Ainda segundo Nobre, para se adaptar a essa nova realidade, São Paulo poderia seguir o exemplo desenvolvido pelo arquiteto e urbanista chinês Kongjian Yu, falecido em setembro de 2025, em acidente aéreo no Pantanal.
“A ideia é reter a água nas nascentes e cabeceiras dos rios, diminuir a força do fluxo e aproveitar a água até o final. Fiquei muito impressionado quando visitei Xangai e Beijing, ruas arborizadas, telhados verdes, parques enormes. ‘Do cinza para o verde, do duro para o suave, do reto para o sinuoso’ – esse era o lema de Kongjian Yu”, disse Nobre.
O que fazer?
Durante o evento, representantes de ministérios, agências, bancos de fomento e da sociedade civil organizada tiveram a oportunidade de abordar projetos em curso e planos futuros.
O caso do Rio de Janeiro
O professor Emilio La Rovere, titular da Coppe-UFRJ, onde coordena o Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente (LIMA) e o Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (Centroclima), assessorou os três mandatos e meio do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Ele defendeu que o impacto de uma prefeitura nas emissões se dá principalmente em três setores: saneamento básico, transporte urbano e cobertura vegetal.
La Rovere afirmou que a prefeitura conseguiu atingir parcialmente as metas de redução de carbono priorizando o transporte público, com a abertura de linhas de BRT e faixas seletivas; transformando lixões em aterros sanitários, com cobertura de areia e simultânea construção de dutos para o aproveitamento de biogás; e reflorestamento dos maciços da cidade, sendo esta última uma solução mais difícil de se aplicar em cidades planas.
Mantidas as condições, essas medidas teriam contribuído para reduzir em 12% as emissões da cidade entre 2005 e 2016. Mas o total das emissões dobrou nesse período. O motivo foi a instalação em 2010 da siderúrgica Ternium, antiga CSA, no bairro de Santa Cruz. Apesar dos impactos ambientais, La Rovere defendeu o projeto argumentando que a produção de aço no Brasil é menos poluente do que na China, onde estão localizadas a maior parte das siderúrgicas do planeta. “Do ponto de vista global há uma redução”, argumentou.

Desigualdades urbanas e o caso da Vila da Barca
A Vila da Barca, em Belém, é uma das maiores comunidades ribeirinhas urbanas da América Latina, enfrentando problemas comuns às favelas de outras metrópoles, mas num contexto amazônico, com as tradicionais casas de palafitas e um ambiente muito próximo e dependente dos rios. Representando a localidade, o encontro recebeu o artista Pawer Martins, da Comissão Solidária da Vila da Barca, que trabalha com ativações e projetos sociais na comunidade.
Martins contou que, no contexto do 1º Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Vila da Barca recebeu um projeto de urbanização “voltado à gentrificação”, como o próprio descreveu. “Aterraram o mangue e construíram casas de alvenaria, que se destacam nas imagens aéreas, mas que reduzem a capacidade do próprio rio de renovar as águas e acumulam calor. Entregaram um quadrado fechado sem ventilação para pessoas que não poderiam ter ar-condicionado. Hoje, ninguém quer viver nessas casas”.
Conforme frisou a professora de Planejamento Urbano da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Maria Fernanda Campos Lemos, “cidades são sistemas, não podemos lidar com as partes separadas”. Para ela, os defeitos urbanos das nossas metrópoles são inerentes às desigualdades do nosso sistema econômico. “Não temos como nos adaptar às mudanças climáticas sem enfrentar os fatores que levam à pobreza, informalidade e ocupação irregular do espaço”, afirmou.

Reurbanização dos centros das cidades
Representando o Ministério da Cidades, onde atua como especialista em infraestrutura, Yuri Rafael Della Giustina defendeu um plano de “mitigação da mobilidade urbana”, isto é, a reutilização dos centros das cidades para diminuir deslocamentos e expansão por sobre áreas verdes. Ele também defendeu a utilização dos planos diretores como instrumentos de estímulo ao planejamento climático. “Já existe uma previsão social para a propriedade urbana, é nesses planos que que surge a possibilidade, precisamos fazê-los acontecer”.
Economia circular e terras raras
Representantes da Finep, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) defenderam mais investimentos em projetos voltados à economia circular, na qual a reciclagem geralmente se destaca. Em particular, Henrique Vasquez, gerente de Química de Materiais e Saneamento Ambiental da Finep, defendeu a chamada “mineração urbana” de compostos presentes em eletroeletrônicos descartados. “Para atender a demanda global por baterias será necessária a abertura de centenas de novas minas, (…) mas esses minerais críticos já estão estocados nos equipamentos, se soubermos reciclar”.
Assista ao seminário completo: