A bioquímica Alicia Kowaltowski, professora titular do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), foi convidada a integrar o Governing Board do Instituto Internacional da Unesco para Educação em STEM (IISTEM), sediado em Xangai, na China. Inaugurado em setembro de 2025, o IISTEM é o primeiro Centro de Categoria 1 da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na China, o primeiro na região Ásia-Pacífico e o décimo no mundo. Os membros do conselho são selecionados com base em sua excelência acadêmica, produção científica e liderança em ciência e educação, atuando em caráter pessoal por mandatos de quatro anos, renováveis uma vez.
O instituto tem como missão fortalecer a educação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) em todas as etapas da aprendizagem, da educação infantil à vida adulta. Entre suas atribuições estão a realização de pesquisas, o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras, o apoio à formação de professores, a construção de redes internacionais de especialistas e o monitoramento do progresso global na área. O IISTEM também se destaca pelo compromisso com a inclusão e a equidade, com atenção especial à participação de meninas e mulheres, além do fortalecimento da educação STEM em regiões historicamente menos favorecidas, como países africanos, pequenos Estados insulares em desenvolvimento e nações de menor renda.
Pesquisadora do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) Redoxoma e vice-diretora do CEPIx Redoxoma, assim como do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) RedoxMed, Alicia Kowaltowski reúne uma trajetória consolidada que articula pesquisa de ponta, formação de recursos humanos e atuação institucional — qualificações alinhadas aos objetivos do novo centro da Unesco.
Leia a entrevista exclusiva:
ABC – O IISTEM nasce com a proposta de promover uma educação STEM mais inclusiva e de alcance global. Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios para garantir essa inclusão — especialmente em países em desenvolvimento — e como o instituto pode contribuir de forma concreta para superá-los?
AK – Penso que há um desafio que é global: promover educação científica de qualidade. Este desafio existe nos países ricos também, porque não estamos educando as nossas crianças no que é mais fundamental dentro de STEM, que é compreender profundamente o que é o método científico. Compreender que entendemos tanto hoje, conseguimos mudar tantas coisas no mundo hoje, porque investigamos o nosso universo. Cutucamos, observamos, experimentamos. Desenvolvemos teorias para explicar o que estávamos observando, testamos essas teorias e fomos modificando e melhorando incrementalmente essas explicações para o que víamos no nosso universo através do método científico. Eu penso que é muito mais importante os jovens entenderem e serem formados em método científico do que aprender coisas sobre a ciências específicas. Aprender teoria atômica, aprender evolução, aprender eletricidade é muito importante, óbvio. Mas é ainda mais importante entender como tudo isso é descoberto. Se o jovem entende isso, respeita o método científico e consegue discernir o que é ciência verdadeira e o que é pseudociência. Esse é um problema mundial.
Como integrante do Governing Board, você participará da definição das prioridades estratégicas do instituto. Quais temas ou abordagens considera essenciais para que o IISTEM tenha impacto real na formação científica das novas gerações?
Eu ainda vou aprender bastante sobre como funciona a Unesco. Já tive alguns insights durante minha participação no Fórum Global, mas ainda estamos aprendendo. A Unesco é uma grande organização, tem muitos secretariados, gera muito material. E uma das coisas que vamos fazer na próxima reunião, online, em maio, vai ser gerar as prioridades. Uma delas, a meu ver, é criar algum tipo de arquivo com selo Unesco de material educacional em áreas de gestão que seja aberto para todo mundo usar. Podem ser softwares, livros, vídeos em várias línguas. Penso que isso seria muito interessante. Outra coisa absolutamente prioritária para mim é a valorização e formação de professores básicos em sistema. Se temos um professor bem formado, temos um multiplicador de ideias – e um bom professor faz toda a diferença. Então, quem sabe conseguimos fazer programas com premiações para professores que realmente façam a diferença, de modo a valorizar esses professores? Será que conseguimos também fazer material para a formação continuada de professores na área? Para formar professores que entendam profundamente o método científico e que saibam ensiná-lo? Essas são coisas que eu penso que sejam muito importantes para o futuro.
A sua atuação científica e institucional no Brasil dialoga fortemente com a formação de recursos humanos e a promoção da ciência. Que oportunidades essa nova posição abre para fortalecer a inserção do Brasil em redes internacionais de educação STEM e ampliar a cooperação científica global?
Penso que o brasileiro talvez seja um interlocutor interessante para dialogar com países que têm grandes dificuldades, porque temos de tudo no Brasil. Temos regiões de enorme carência, mas também temos regiões de enorme riqueza. Então, entendemos parâmetros mais flexíveis. O brasileiro sabe dar um jeito, sabe viver sem coisas que às vezes as pessoas no primeiro mundo acham que é tão normal e banal que não conseguem imaginar que não existam. Eu penso que esse é um fator que contribuiu para o crescimento da nossa atuação. Organizações como a Unesco são espaços em que todas as vozes são escutadas, culturas muito diversas. Isso para mim vai ser um aprendizado. Como pessoas diferentes, com referências diferentes, pensam sobre assuntos tão diversos envolvidos em STEM? Como conversar com elas? Quero falar do que eu vejo, como cientista atuante. É importante aumentarmos nossa exposição, mostrarmos nossa cara um pouco, para as pessoas saberem que têm cientistas no Brasil fazendo trabalhos significativos, como os cientistas de qualquer outro lugar no mundo. E falar também da importância da cientista mulher, brasileira. Na minha área específica, de bioquímica e biologia molecular, somos maioria, inclusive. E estimular meninas no mundo a fazer o mesmo, a sonhar em serem cientistas e ajudá-las a realizar esse sonho. Pode sair alguma proposta muito legal nesse aspecto também.
Tenho muito interesse em STEAM, com o A das artes. Penso que as linguagens artísticas podem impactar positivamente na educação científica. A arte, inserida não como uma disciplina periférica, mas colocada no núcleo da atividade pedagógica, contribui com a subjetividade para a efetivação da transdisciplinaridade no ensino, trazendo os conceitos da complexidade para a educação atual.
Gosto do STEAM também, com as artes! Sou violinista nas horas vagas e apoio totalmente a inserção da arte-educação em todos os lugares, porque penso que é de suma importância a gente se entender como seres humanos, até porque não estamos nos entendendo no mundo ultimamente. Toco em orquestra e outros grupos musicais. Neles, com a linguagem comum da música, eu sou uma entre várias outras pessoas, das mais variadas profissões, idades, histórias de vida e identidade, mas conseguimos fazer e comunicar algo único do nosso conjunto, fazer algo maior que as partes e suas diferenças, juntos. A exposição às artes integra, inspira, diminui divisões, aumenta o entendimento entre pessoas, que é tão fundamental para a sociedade quanto compreender nosso universo através da ciência.