Conheça o Projeto Memória Histórica da ABC

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A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) estão trabalhando juntos na criação do Centro de Memória Histórica da ABC José Murilo de Carvalho. O objetivo é disponibilizar de forma digital a documentação referente aos 100 primeiros anos da Academia, bem como armazenar o acervo físico nas dependências do MAST.

O MAST já cuida dos acervos de instituições importantes da ciência brasileira, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Observatório Nacional (ON), e também guarda os acervos pessoais de grandes cientistas brasileiros, entre os quais estão vinte membros da ABC. São eles:

Alexandre Girotto, Allyrio Hugueney de Mattos, Manuel Amoroso Costa, Bernard Gross, Diógenes Almeida Campos, Elisa Frota-Pessoa, Fernando de Souza Barros, George Bemsky, Henrique Morize, Hervásio de Carvalho, José Israel Vargas, Jayme Tiomno, João Christovão Cardoso, Joaquim da Costa Ribeiro, Jorge Manuel Sotomayor, Lélio Gama, Leopoldo Nachbin, Luiz Pinguelli Rosa, Maria Laura Leite Lopes e Mauricio Peixoto.

O prédio principal do MAST, localizado no bairro de São Cristóvão. O acervo físico da ABC será transferido para um prédio anexo.

O projeto

O acordo entre ABC e MAST foi assinado durante a Reunião Magna da ABC de 2024 e contou com a participação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), que financiou a primeira parte do projeto. O trabalho buscou organizar e digitalizar o acervo da ABC, composto por documentos em diversos formatos produzidos desde 1916.

Everaldo Pereira Frade, chefe do Arquivo de História da Ciência do MAST

A primeira etapa foi higienizar, recuperar e identificar os itens que estavam na biblioteca da ABC, na rua Araújo Porto Alegre, no Centro do Rio de Janeiro. Nesse trabalho, historiadores e arquivologistas trabalharam com base nas diretrizes do Laboratório de Conservação e Restauração de Documentos em Papel (Lapel/MAST). Em seguida, os arquivos foram digitalizados e já estão sendo organizados em um inventário, que permitirá a pesquisadores fazerem buscas estruturadas entre as mais de 70 mil peças.

“É o maior acervo que temos aqui no MAST”, frisou o chefe do Arquivo de História da Ciência do MAST, Everaldo Pereira Frade. “Quando o acervo entrar no ar, tenho certeza que será bastante popular, será uma janela para a história da ABC e de seus Acadêmicos”.

 

Organização do Acervo

Neste primeiro momento, o acervo estará dividido em três grandes grupos:

 

Atas e Estatutos – Compilação cronológica de todas as atas de reuniões e mudanças estatutárias encontradas no acervo da ABC. Essas atas guardam apresentações realizadas por membros históricos da Academia; encontros entre representantes da ABC e ministros de governo; debates sobre o papel da ABC no contexto político brasileiro; disputas internas dentro da comunidade científica e embates entre diferentes visões de mundo e desenvolvimento.

 

Dossiês de Acadêmicos – Esta seção contém a documentação submetida por cada Acadêmico no momento de sua admissão, bem como correspondências trocadas com a administração da Academia, participações em eventos e contribuições gerais ao trabalho da ABC. Alguns dossiês também contam com recortes extraídos de jornais e outras participações na mídia e no debate público.

 

Fotos e Reproduções – O acervo iconográfico é composto por fotografias que retratam a atividade da ABC e de seus Acadêmicos, em eventos da própria Academia ou de outras instituições que gentilmente cederam reproduções. Entre os registros estão imagens de expedições científicas; visitas de cientistas históricos, como Albert Einstein e Marie Curie, e visitas de autoridades como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Dilma Roussef.

 

Os Acadêmicos Diógenes Almeida Campos e Maria Domingues Vargas durante os trabalhos no acervo da ABC

Conteúdo e planos para o futuro

A historiadora Dayane Ponciano Lima, mestre em preservação de acervos de C&T pelo MAST, trabalhou no processo de identificação e organização dos documentos. Ela destaca algumas das características que chamaram sua atenção.

“Nas primeiras décadas encontramos muitas discussões sobre a necessidade de uma academia nacional; sobre o que é desenvolvido pela ciência brasileira e o intercâmbio com outros países. Até a década de 60 vemos um protagonismo da Academia no financiamento de projetos e expedições, e isso talvez reflita um período em que os órgãos de fomento ainda estavam menos estruturados. Outra característica importante era o papel de intermediador que a ABC cumpria entre a comunidade brasileira e internacional, como na busca por artigos ou colaborações. Hoje, com a internet, essa conexão ficou muito mais fácil, mas nem sempre foi assim”, relata a historiadora. “Percebemos também que a crítica à falta de incentivo e financiamento científico é perene”.

A bioquímica Maria Domingues Vargas, Acadêmica e uma das idealizadoras do Projeto Memória, explica que o material contemplado nesta primeira etapa corresponde a cerca de metade do acervo total.

“Conhecíamos pouco do conteúdo quando começamos, então descobrimos muito mais do que imaginávamos. Por isso, uma segunda etapa do projeto já está sendo planejada. Dessa vez, pretendemos digitalizar as mais de 100 mil páginas de correspondências que encontramos e trazer para o acervo todos as premiações e honrarias que a Academia já concedeu ou participou. Também pretendemos digitalizar e disponibilizar todos os artigos dos Anais da ABC e todas as publicações lançadas pela Academia ao longo desses anos”, antecipa a professora.

 

Leonardo Martins, Clara Reis e Dayane Ponciano na biblioteca da ABC

Potencial de pesquisa

Como parte de seu compromisso com a pesquisa brasileira, a ABC acredita que o acervo será de valor inestimável para o campo de estudo em História da Ciência no Brasil. Uma vez no ar, os pesquisadores só precisarão se cadastrar na base de dados Zenith e poderão acessar todos os arquivos do acervo.

Dois exemplos ilustram bem o potencial de pesquisa do acervo. O historiador Paulo Cruz Terra, membro afiliado da ABC 2023-2027 e especialista no campo da história do trabalho, está com um projeto em andamento junto a dois alunos de iniciação tecnológica, Clara Reis e Leonardo Martins, cujas bolsas são pagas pela ABC através de um acordo com a Universidade Federal Fluminense (UFF).

Sob supervisão de Paulo, os alunos mergulharam nos documentos financeiros da ABC e selecionaram aqueles com valor histórico para digitalização. Entre as inúmeras notas fiscais e justificativas de compras, os jovens encontraram documentos e cadernos que jogam luz sobre como as ideias em circulação no meio científico evoluíram ao longo dos anos.

“Os documentos encontrados nos arquivos da ABC abrem muitas possibilidade de pesquisa para o campo da história da ciência no Brasil. Nos documentos financeiros, nas categorias ‘razão’ e ‘prestação de contas’, por exemplo, podemos utilizar metodologias do campo da história econômica a fim de enumerar as diversas atividades realizadas, traçando, ao longo dos anos, a origem dos financiamentos públicos recebidos desde a década de 60. Outros documentos recompõem o cotidiano dos funcionários da ABC, como constam nas ‘folhas de pagamento’ e nas ‘folhas de ponto’, e podem nos ajudar a reconstituir uma história social do trabalho da ciência no Brasil através de outros sujeitos para além dos cientistas”, explica Leonardo.

O mérito do trabalho rendeu a Clara Reis a segunda colocação na categoria “Ciências Humanas, Sociais, Linguísticas, Letras e Artes” do Prêmio de Iniciação à Inovação da Agenda Acadêmica UFF. “Foi um trabalho de extrema importância para minha formação em História. No início foi bem difícil de conciliar com a minha vida acadêmica, mas acabei acostumando e tomando gosto pelo estágio e pelas pessoas”, contou Clara.

Outro exemplo é o da pesquisadora Thammy Guimarães Costa Borges, doutoranda no projeto Global Academies, do European Research Council (ECR), que investiga o papel das sociedades científicas na globalização do conhecimento no século 20. Sua pesquisa aborda as relações de gênero e política dentro da Academia Brasileira de Ciências e as diversas maneiras pelas quais as mulheres reivindicam seu espaço nos ambientes científicos.

“A intenção do meu trabalho, como historiadora cultural, é entender os mecanismos por trás das barreiras à participação feminina na ciência brasileira e mundial. Isso significa ir além das estatísticas, entender que os processos de indicação, eleição, seleção e participação dentro da Academia não são neutros, mas são fruto de práticas socioculturais”, explica. “Além disso, o século 20 foi um período de intensas convulsões políticas no Brasil, então investigo estratégias usadas pela ABC para manter sua autonomia durante o Estado Novo e a Ditadura Militar”.

“Para compreender essas dinâmicas, a consulta ao acervo está sendo indispensável. Cheguei a ele através do MAST, que me comunicou sobre a parceria. O Everaldo me apresentou à doutora Maria Vargas que me recebeu com entusiasmo. Posteriormente, fui recebida também pela presidente Helena Nader. Cheguei no momento ideal, pois sem a catalogação do acervo a minha pesquisa seria impossível. A existência de um arquivo bem preservado e organizado economiza tempo do historiador e é importante para tornar a história da ciência brasileira acessível”, complementa.

(Marcos Torres para ABC)