Figura central da matemática brasileira e internacional, [o ex-presidente da ABC] Jacob Palis foi homenageado nesta terça-feira (30) no 35º Colóquio Brasileiro de Matemática, realizado no Instituto nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), Jacob Palis faleceu em maio, aos 85 anos.
Uma mesa-redonda emocionou o público e aproximou o legado do cientista das novas gerações. Participaram do tributo nomes de destaque da comunidade científica: Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Artur Avila, medalhista Fields e pesquisador extraordinário do IMPA, Marcelo Viana, diretor-geral do instituto, e Luiz Davidovich, professor emérito da UFRJ e ex-presidente da ABC, Jerson Lima, ex-presidente da Faperj e Débora Foguel, membro da diretoria da ABC.
A homenagem foi marcada por depoimentos afetivos e reflexões sobre o impacto profundo e duradouro de Palis — não apenas no campo científico, mas também na construção de instituições e na formação de pessoas.
Helena Nader destacou a atuação transformadora de Palis à frente da Academia Brasileira de Ciências, que ele presidiu de 2007 a 2016. “Jacob valorizou os jovens talentos regionais, com a criação da categoria de Membros Afiliados, primeiro na ABC e depois na Academia Mundial de CIências, que também presidiu”, contou. Palis também investiu na formação de grupos de estudo e trabalho de Acadêmicos e outros especialistas, para tratar de temas de primeira importância para a sociedade; consolidou e ampliou as atividades internacionais da ABC em moldes inovadores; institucionalizou grandes encontros anuais na ABC, com objetivos distintos e grande visibilidade; investiu na ampliação da categoria de Membros Institucionais da ABC; conquistou autonomia para a ABC, ao obter recursos para financiamento à infraestrutura básica da Academia através de uma contribuição orçamentária permanente do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Palis buscou, ainda, fortalecer a integração Academia-Empresa, destacando a importância da inovação; fortaleceu a parceria da ABC com a Sociedade Brasileira de Ciência (SBPC); e lutou, incansavelmente, pela ampliação do financiamento à ciência brasileira.
“Devemos tudo a ele não somente na matemática, mas tudo que ele fez pela política científica”, afirmou Helena Nader, ao comentar as garantias que Palis conquistou para a ciência brasileira, inclusive na esfera constitucional. “Jacob sempre me impressionou não apenas por sua genialidade em matemática e compromisso com a ciência e a sociedade brasileira, mas pela profunda valorização da família. Para ele, a família não era apenas um espaço de afeto, mas um verdadeiro pilar de expressão intelectual e emocional”, concluiu emocionada a presidente da ABC, que ainda recitou o poema de Manoel de Barros “o menino que carregava água na peneira” em homenagem ao amigo.

“A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.[…]
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.[…]
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda. […]
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!’’
Além da excelência científica, os participantes ressaltaram o lado humano e formador de Jacob Palis. Luiz Davidovich relembrou o estímulo constante que o matemático oferecia às novas gerações. “Uma característica muito peculiar do Jacob era a atenção e a motivação que ele dava aos jovens. Isso era impressionante. Eu mesmo fui muito motivado por ele. Considero que ele foi meu mentor.”
Davidovich também fez questão de destacar a visão de Palis para o futuro da ciência no Brasil. “Ele queria que a ciência brasileira tivesse êxito aqui, mas também alcançasse o mundo. Isso ficou claro em toda a sua carreira.” Encerrando sua fala, o físico citou Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem. Elas se encantam. O Jacob foi um desses encantos — por tudo que deixou nas instituições e nas pessoas.”

Artur Avila, carinhosamente descrito como “neto acadêmico” de Palis, emocionou o público ao refletir sobre a influência profunda do pesquisador em sua formação e na cultura científica do IMPA. “Ele não estava ali mostrando técnica, mas sim, apontando direções corretas e influenciava como as pessoas iam pensar. Ele imprimiu um jeito de fazer matemática. O IMPA tem a vocação de atrair pessoas de todos os lugares e isso ocorreu graças a influência do Jacob. Não contém nenhum exagero da minha parte. É com muita apreciação, olhando para trás que encontro a influência e a marca do Jacob.”

Já Marcelo Viana preferiu lembrar a visão de liderança e coragem do ex-diretor do instituto ao transformá-lo em uma Organização Social. “Jacob foi diretor durante dez anos e há dois aspectos que ele imprimiu: um é o caráter internacional do IMPA, que se acentuou muito neste período. E o outro foi defender, ao final dos anos 1990, que o IMPA se tornasse uma Organização Social. Confesso que quando ele começou com isso não entendi muito o porquê de sair da esfera pública. Disse: ‘vão poder fechar o IMPA fácil, fácil’. Ele disse: ‘Já podem fazer isso. É só cortar o orçamento’”, contou Viana. “Muitas das coisas que aconteceram depois que o IMPA se tornou OS não seriam possíveis antes, como a realização da OBMEP, por exemplo.
Jerson Lima e Débora Foguel também dividiram com o público memórias e destacaram o apoio que o matemático sempre deu aos mais jovens.
Marcelo Viana faz palestra em homenagem a Palis
O diretor-geral do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), Marcelo Viana, fez uma palestra especial sobre o trabalho do pesquisador na área de Sistemas Dinâmicos que lotou o auditório do 35º CBM. Ele apresentou um panorama da trajetória científica do pesquisador, percorrendo desde suas primeiras descobertas até os trabalhos mais recentes. Em sua fala, destacou a vitalidade intelectual de Palis, cuja produtividade e entusiasmo pela pesquisa permaneceram inabaláveis ao longo dos anos.
A homenagem a Palis ocorre em reconhecimento às contribuições científicas e institucionais do pesquisador, referência internacional na área de sistemas dinâmicos. Presidente da Academia Brasileira de Ciências por três mandatos, Palis foi um dos principais articuladores do desenvolvimento da matemática no Brasil. Ao longo de sua carreira, formou gerações de pesquisadores e foi peça-chave na consolidação do IMPA como centro de excelência mundial.
