Rubin First Look: lançamento global das primeiras imagens do super telescópio

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Em 23 de junho de 2025, o mundo viu, pela primeira vez, as imagens captadas pelo novo telescópio do Observatório Vera C. Rubin, no Chile — um marco para a astronomia mundial. Em mais de 300 eventos simultâneos, espalhados por diversos países, cientistas e entusiastas celebraram o início das operações do equipamento que promete revolucionar a forma como observamos o céu. No Brasil, o lançamento foi realizado na Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro, em parceria com o LIneA (Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia).

A diretora da ABC, Débora Foguel, abriu o evento destacando o papel da ciência fundamental. “Promover a ciência básica é o compromisso que uma geração de cientistas tem com a próxima: expandir a fronteira do conhecimento”, afirmou.

O professor Luiz Nicolaci, diretor do LIneA, relembrou que o projeto levou 25 anos para se concretizar. “A construção do observatório começou em 2010. A data de hoje marca o início do transformador projeto LSST (Legacy Survey of Space and Time)  — uma rede com 43 grupos de pesquisa, de 28 países”, disse. Segundo ele, a participação brasileira, apoiada pelo LIneA e pelo INCT do e-Universo, envolveu contribuições in-kind (doações ou contribuições não monetárias, ou seja, bens ou serviços que são oferecidos em vez de dinheiro) avaliadas em US$ 7,2 milhões.

Professor Luiz Nicolaci, diretor do LIneA | Foto: Fabio Motta/LIneA

O telescópio Rubin é dotado de tecnologias inéditas, incluindo a maior câmera digital já construída, com resolução de 3200 megapixels — do tamanho de um automóvel. Ele varrerá o céu todas as noites, produzindo imagens do ultravioleta ao infravermelho. Os dados serão transmitidos em 20 segundos até o SLAC National Accelerator Laboratory em Menlo Park, Califórnia, onde a imagem será comparada com uma de referência. Metade dos dados serão enviados para a IN2P3 na França e para a Universidade de Edimburgo, no Reino Unido.

Anualmente os dados serão consolidados e catálogos de objetos serão produzidos e distribuídos para dez Centros Idependentes de Acesso a Dados  (IDACs) localizados ao redor do mundo. Nas Américas estão localizados nos Estados Unidos, Canadá, México e Brasil. O Centro Independente de Acesso a Dados (IDAC) do Brasil será operado pelo LIneA, e abrigará informações que alimentarão diversas frentes de pesquisa. Segundo Nicolaci, as principais áreas são: estruturas de larga escala/energia escura, estrutura da Via Láctea, sistema solar e fenômenos transitórios.

É importante destacar que o pesquisador só terá acesso aos dados através de um IDAC e o processamento terá que ser feito nesses centros. “Os dados não vão ao pesquisador – o pesquisador vem aonde os dados estão“, explicou Nicolaci.

O grupo brasileiro de participação no LSST conta hoje com 110 pesquisadores — e há ainda dez vagas abertas para pesquisadores juniores.

Nicolaci esclareceu que os dados serão proprietários por dois anos – após este período eles se tornam públicos e o LIneA apoiará, além dos 120 pesquisadores que fazem parte do projeto, toda a comunidade brasileira. “O LIneA  também fará a curadoria de vários outros acervos de dados astronômicos, complementando os dados do LSST”, ressaltou Nicolaci.

O pesquisador explicou ainda que o LIneA tem um acordo assinado com o SLAC National Accelerator Laboratory, operado pela Universidade de Stanford, sob contrato com o Office of Science do Departamento de Energia norte-americano, para operar o centro ao longo da duração do projeto em troca dessas 120 vagas. “É um compromisso internacional e para garanti-lo precisamos de apoio do MCTI [Ministério de CIência e Tecnologia brasileiro].”

Ciência brasileira conectada ao universo

Coordenador do grupo brasileiro de participação no LSST (BPG, na sigla em inglês), o físico Rogério Rosenfeld (IFT-Unesp, ICTP-SAIFR, LIneA) explicou que o BPG reúne cerca de 120 pesquisadores de 22 instituições em dez estados, organizados em oito colaborações científicas. “Todos os participantes têm acesso coordenado ao LSST, infraestrutura computacional do LIneA, apoio técnico e oportunidades de financiamento”, afirmou.

A liderança do BPG é composta ainda pela Acadêmica Thaisa Storchi Bergmann (vice-coordenadora), a ex-afiliada Ana Chies (ombudsperson) e o ex-afiliado Rogério Riffel (membro do Conselho Consultivo).

Rosenfeld ressaltou que o LSST atuará em oito áreas científicas principais: Núcleos Ativos de Galáxias, Energia Escura, Estatística e Informática, Estrelas Variáveis, Estrutura da Galáxia, Lentes Gravitacionais, Galáxias e Sistema Solar. “É uma ciência que cobre do nosso quintal ao cosmos profundo”, disse.

Pesquisadores brasileiros relatam contribuições

O astrônomo Felipe Braga-Ribas, da UTFPR, destacou a missão do grupo focado no Sistema Solar. “Vamos fazer um novo censo: desde objetos próximos à Terra, importantes para evitar colisões, até corpos transnetunianos com cerca de 100 km de diâmetro. Queremos entender melhor a evolução do Sistema Solar”, afirmou.

Já o físico Bruno Moraes, da UFRJ, explicou o papel do Brasil no estudo da energia escura. “Hoje, sabemos que mais de 70% do Universo é composto por energia escura, que causa sua expansão acelerada. O LSST vai medir propriedades cosmológicas com alta precisão. O Brasil participa da colaboração LSST-DESC, com dezenas de cientistas ativos”, relatou.

Primeiras imagens transmitidas mundialmente no mesmo momento | Fotos: Fábio Motta/LineA

O físico Riccardo Sturani, do IFT-Unesp, recém-integrado ao grupo de ondas gravitacionais, falou sobre a importância dessa nova janela cósmica. “Ondas gravitacionais são geradas por colisões entre objetos como buracos negros. São mensuradas com extrema precisão e revelam eventos que ocorreram há centenas de anos”, explicou.

O cientista da computação Daniel de Oliveira, da UFF, integra o grupo de Estatística e Informática. Ele ressaltou que a equipe atua nos bastidores tecnológicos. “Nosso foco é desenvolver ferramentas de inteligência artificial, otimizar softwares e reduzir tempo, custo e espaço de armazenamento. Também cuidamos da transferência dos dados entre o IDAC-Brasil e os centros internacionais”, disse.

Vera Rubin: a mulher por trás do nome

O observatório homenageia a astrônoma Vera Rubin (1928–2016), pioneira na detecção da matéria escura. Ao estudar a rotação de galáxias espirais, Rubin percebeu que as estrelas nas regiões externas se moviam mais rápido do que o esperado — evidência de uma matéria invisível com efeito gravitacional. Seu trabalho, ao lado de Kent Ford, foi essencial para consolidar a existência da matéria escura, hoje central em cosmologia.

Assistam aqui a transmissão do evento em Washington e vejam as primeiras imagens capturadas pelo telescópio.

(Elisa Oswaldo-Cruz com IA para ABC)