Sirius, ou alpha Canis Majoris, é a estrela mais brilhante do céu noturno visível a olho nu. Por esse motivo foi o nome escolhido pela equipe que atuava na construção da maior e mais complexa infraestrutura científica já construída no país, no momento do seu batismo. No dia 21 de setembro, porém, a sala de seminários da instalação que abriga a maior fonte de luz síncrotron brasileira foi palco para outras estrelas: os cinco membros afiliados da Regional São Paulo da Academia Brasileira de Ciências eleitos para o período 2022-2026.

Antônio José Roque (diretor CNPEM), Bruno Cogliati, Luiz Osório, Taicia Fill, Diego Martinez, Glaucius Oliva (vice-presidente regional SP ABC) e Ademir Ferreira

A categoria de membros afiliados foi criada em 2007 para incluir na ABC jovens pesquisadores de excelência, de até 40 anos, por cinco anos não-renováveis. Anualmente são eleitos cinco jovens cientistas por região, das previstas pela ABC: Norte, Nordeste, Minas-Gerais e Centro-Oeste, Rio de Janeiro, São Paulo e Sul. Eles são indicados e eleitos pelos membros titulares com atuação nestas regiões e os nomes sugeridos são encaminhados para a Comissão de Seleção, que é presidida pelos vice-presidentes de cada região. De acordo com o vice-presidente da Regional SP da ABC, Glaucius Oliva, professor titular da USP-São Carlos, “é um processo altamente competitivo e, como resultado, os eleitos estão sempre entre os melhores cientistas do nosso país”.

Glaucius Oliva

Oliva recebeu os jovens cientistas com muito entusiasmo, em nome da presidente da ABC, Helena Nader: “Seu mérito científico de excelência os trouxe até aqui e sua eleição como membros afiliados da ABC os coloca na dianteira na luta pela ciência e a educação no Brasil”, apontou, destacando que essa responsabilidade requer esforço redobrado no atual momento do país. “Nesse grave período, marcado pelos sucessivos cortes de recursos para a educação e a ciência, e pelo negacionismo escancarado por lideranças políticas e cidadãos por elas influenciados, é nosso papel lutar pelo restabelecimento da razão e dos marcos civilizatórios que delineiam o mundo moderno”, afirmou o físico.

Oliva salientou que a realização do evento no Sirius, o maior laboratório nacional e um dos mais avançados no mundo, é também emblemático de que, como brasileiros, os cientistas não desistem diante das dificuldades. “Adicionalmente ao brilhante trabalho que até hoje realizaram em seus laboratórios e salas de aula, agora vocês assumem novas responsabilidades na luta pela ciência, sua divulgação e popularização. Sejam muito bem-vindos e mãos à obra.”

Conheça um pouco da trajetória deles e da ciência que eles fazem nos perfis abaixo:

  • Ademir Pastor Ferreira é professor da Unicamp e desenvolve pesquisas na área de equações diferenciais parciais, com aplicabilidade para diversas áreas da ciência. Saiba mais!

  • O veterinário Bruno Cogliati é professor da Universidade de São Paulo, onde estuda doenças hepáticas em modelos experimentais, animais e seres humanos. Saiba mais!

  • Pesquisador do CNPEM, o bioquímico Diego Stéfani Teodoro Martinez atua no desenvolvimento de novos materiais para aplicações diversas em saúde, agricultura e meio ambiente. Saiba mais!
  • Luiz Osório Silveira Leiria é professor da USP Ribeirão Preto. O farmacologista estuda metabolismo energético, com foco em combater a obesidade e a diabetes. Saiba mais!
  • Apaixonada desde pequena por séries policiais, a professora da Unicamp Taicia Pacheco Fill conta como a vontade de ser química forense a levou a trabalhar com bioquímica de microrganismos. Saiba mais!
Antônio José Roque da Silva

O Acadêmico e diretor do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, onde fica o Sirius, Antônio José Roque da Silva, foi convidado para fazer a palestra magna, intitulada “Sirius, uma conquista da ciência brasileira”. Na semana que vem teremos a matéria sobre a sua  excelente apresentação, que contou um pouco sobre os 40 anos do processo de realização deste sonho, desde a primeira ideia até hoje. 

Após as apresentações, o membro afiliado da ABC Mario Tyago Murakami, do CNPEM, saudou os novos membros. Ele avaliou que a nomeação para membro afiliado da ABC é um grande marco na carreira de um cientista, “um reconhecimento de toda uma trajetória científica construída por décadas de alegrias e de muita abdicação pelo amor à ciência, que se funde e se confunde com nossa vida pessoal.”

Murakami destacou que esse processo que vai da iniciação científica ao pós-doutorado entra, então, num momento muito diferente, que é “sair da bancada e se tornar um líder, que tem a missão de fazer uma ciência competitiva e relevante para o nosso país e que inspire novas gerações”. E é nessa fase que a eleição para a ABC se encaixa como uma luva, pois dá visibilidade e ao pesquisador e certifica a qualidade do seu trabalho, o que certamente estimula o engajamento de novas gerações e reforça para suas iniciativas junto ao setor privado e órgãos de fomento sobre a importância da ciência para o desenvolvimento sustentável de um país.

Mario Tyago Murakami

Engenheiro de alimentos e doutor em biofísica molecular, Murakami apontou que a ciência brasileira é plenamente capaz de, como os investimentos adequados, transformar as vantagens comparativas do Brasil – como a sua biodiversidade e uma indústria profícua com forte base biológica -, em protagonismo nacional e com potencial impacto para a sociedade. “Somos líderes em diversos setores da indústria e agricultura e, com o fortalecimento da biotecnologia, temos a chance de liderar uma transição para uma economia circular com base biológica”, afirmou, desejando “votos de uma excepcional jornada aos novos afiliados, jovens cientistas tão talentosos”.

Taicia Pacheco Fill

Em nome dos novos membros, a escolhida por eles para representá-los foi Taicia Fill. Ela agradeceu a oportunidade e a confiança neles depositada, “Como novos membros afiliados à ABC, nos comprometemos a desenvolver ciência de qualidade e em traduzir o conhecimento que geramos em nossos laboratórios para a nossa sociedade”. Comprometem-se também a lutar por uma ciência com espaço para todos que acreditam que esta ciência vale a pena porque salva vidas, gera conhecimento e eleva um país em nível de desenvolvimento econômico e social.

Ela reconheceu, no entanto, que insistir em continuar no Brasil como cientista em tempos tão sombrios, em que muitas vezes o obscurantismo prevalece, é um ato de resistência e de coragem. E que para ser cientista mulher e mãe é preciso de ainda mais coragem, é preciso muita força e determinação.

“A ciência não é justa com as mulheres e é ainda pior para as mães. Para que nossas carreiras não colapsem e para que sejamos competitivas na comunidade científica, tornamos o impossível possível. Trabalhamos quando nossos filhos e o resto do mundo dormem, abdicamos, muitas vezes de nós mesmas. Driblamos desafios diários, preconceitos, observamos uma grande falta de representatividade das mulheres nos altos cargos da ciência e um teto de vidro difícil de ser quebrado”, expressou Taicia, num discurso emocionado. E continuou: “Aos poucos estamos mudando esse cenário. Mas ser a única mulher aqui hoje nos diz que o caminho pela equidade de gênero na ciência ainda é longo. Por isso convido todos vocês a lutarem ao meu lado por uma ciência mais inclusiva não só para as mulheres, mas para todos os cientistas que não se sentem representados.”

Concluindo, Taicia Fill cumprimentou os colegas Ademir, Bruno, Diego e Luiz. “Estarmos aqui hoje nos mostra que o árduo caminho trilhado tem valido a pena e que estamos na direção correta nas nossas trajetórias. Parabéns pelas brilhantes carreiras e por esta linda conquista.”

Foi realizada então a cerimônia de diplomação e, a seguir, a sessão de fotos e a confraternização.

Sejam bem-vindos, e bem-vinda. A ciência brasileira e a ABC contam com vocês.

 

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