Analisando sua trajetória, o matemático Ademir Pastor Ferreira considera a ciência como o grande agente de mudança em sua vida. Ele confessa seu encantamento pela precisão e beleza que ela oferece para descrever a natureza e a maneira como ela muda nossa forma de ver e pensar o mundo.  

Nascido em 1982, Ademir passou a infância no município paranaense de Assis Chateaubriand, num sítio a 10 km da cidade. Desse tempo, ele carrega muitas de suas memórias mais divertidas. “Vivia brincando pelas redondezas com vizinhos ou primos. Quando podia, saía de casa de manhã e só voltava para as refeições. Gostava de brincar de tudo, especialmente do campinho de futebol”. Os pais eram agricultores e não terminaram o ensino fundamental. Arrendaram uma terra da família e nela trabalhavam, inclusive convocando os filhos algumas vezes. 

Da pesada bola de capotão para as peladas até as reuniões com os avós, os momentos deixaram saudade. Mas Ademir também precisou lidar com adversidades: até os 15 anos, não tinha energia elétrica em casa e contava com o auxílio de uma lamparina à querosene para estudar à noite. Para assistir às aulas, percorria três quilômetros a pé diariamente para pegar o ônibus que o levava ao colégio. “Às vezes era difícil, principalmente quando chovia, mas eu não gostava de perder nenhuma aula, principalmente de matemática, que era minha matéria favorita.” 

Ademir sempre foi muito estudioso. Desde pequeno, gostava de pegar os livros dos irmãos mais velhos para estudar sozinho e tentar resolver exercícios mais difíceis. “Creio que a matemática sempre fez parte de mim”, avalia. Entre os fatores que o colocaram no caminho da ciência ele cita a participação numa maratona de matemática, ainda no 8º ano do fundamental. Ele tirou o primeiro lugar – e o troféu, que marca seu primeiro passo na ciência, está exposto em sua sala até hoje.  

Embora sem referências acadêmicas na infância, com incentivo dos professores os três irmãos conseguiram mudar de vida. O mais velho saiu de casa para cursar a faculdade de química quando Ademir tinha 12 anos; o do meio cursou a faculdade de física, algum tempo depois de mudar-se de cidade para trabalhar em uma cooperativa local. “O principal modelo que me influenciou para seguir no ensino superior foi meu irmão mais velho. Com o sucesso que ele teve, eu vi que era possível.” Orgulhoso, Pastor conta que agora a família tem três cientistas das ciências exatas.  

Quando passou no vestibular, aos 17 anos, para a Universidade Estadual de Maringá (UEM), a primeira preocupação de Ademir foi a necessidade de se manter sozinho. Seu primeiro passo foi trabalhar como boia-fria nos meses de dezembro a fevereiro, visando juntar algum dinheiro para os meses iniciais na nova cidade. “Na época [em 2000], a vida em Maringá não era muito cara e eu fui morar numa república. Tive a sorte de, a partir do terceiro mês em Maringá, conseguir um emprego de ‘porteiro folguista’ no prédio onde morava, cobrindo a folga dos porteiros nos finais de semana e férias. Este recurso, junto com os de algumas aulas particulares que dava, eram suficientes pelo menos para pagar o aluguel”, contou o Acadêmico. 

A partir da metade do segundo ano, Ademir conseguiu uma bolsa do Programa Iniciação Científica (Pibic) em análise matemática, podendo abrir mão do emprego de porteiro e passando a e dedicar à sua formação, sob orientação do professor Nikolai Andreevitch Larkine, por quem demonstra profunda gratidão, por conta de uma contribuição fundamental à sua vida. “Por questões de data, a bolsa terminou no meio do último ano do curso e não podia mais ser renovada. Para eu me manter, certamente teria que arrumar algum emprego fora da universidade. Foi então que o professor Larkine me propôs o seguinte: se eu quisesse, poderia continuar com a IC e ele me pagaria com recursos próprios o valor equivalente à bolsa; é claro que aceitei!”  

Em 2003, Ferreira terminou a graduação, tendo sido agraciado com a distinção de “láurea acadêmica”, conferida ao aluno que ao final do curso, além de comportamento acadêmico exemplar, tenha obtido pelo menos dois terços de suas notas acima de 9,0. Diante do sucesso com a monografia, no ano seguinte o Acadêmico foi aprovado diretamente para o doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com bolsa da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ferreira deu sequência aos estudos em equações diferencias, área na qual atua até hoje. O Acadêmico fez um pós-doutorado no Instituto de Matemática Aplicada (IMPA) entre 2008 e 2010 e é professor da Unicamp desde 2014. 

Ademir explica que as equações diferenciais têm origem em diversos fenômenos naturais: desde os modelos mais simples, como a transmissão de calor em uma barra metálica, aos modelos mais complexos, como a descrição de um sistema físico em mecânica quântica. Uma das análises realizadas pelos pesquisadores da área consiste em, de posse de equações que regem um determinado sistema e um estado inicial, prever o que vai acontecer com o sistema no futuro.  

Um dos usos mais conhecidos dessa área da ciência é na previsão do tempo: graças aos cálculos, é possível saber as condições climáticas em um determinado dia e como as massas de ar se deslocam. Durante a pandemia de covid-19, esse modelo matemático foi útil para prever sua evolução, auxiliando cientistas de outras áreas a pensar em novas recomendações e medidas de contenção. Ferreira deixa claro que as equações diferenciais têm uma gama de aplicabilidade em diversos ramos da ciência, havendo exemplos diversos em modelos econômicos, modelos físicos, modelos biológicos, entre muitos outros.  

No tempo livre, Ademir Ferreira gosta de acompanhar os esportes, especialmente futebol, que também pratica desde que se entende por gente. Outra paixão que o acompanha desde sempre é a música: “Meu pai sempre teve um ‘violãozinho’ em casa, e foi com ele que aprendi a tocar os primeiros acordes.” Eclético, o Acadêmico ouve um pouco de tudo – do rock ao sertanejo universitário, de “pisadinha” ao samba de raiz. Mente aberta, importante para todo bom cientista.