A sexta edição do Fórum Mundial de Ciência teve início na noite de domingo, dia 24, com uma cerimônia de abertura que reuniu a comunidade científica e lideranças políticas internacionais e brasileiras no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Com o tema Desenvolvimento sustentável global, o evento ocorreu na cidade até 27 de novembro, colocando o Brasil no centro da ciência mundial por quatro dias.
O Fórum Mundial de Ciência [WSF, na sigla em inglês para World Science Forum] é um espaço de discussão sobre o papel e a responsabilidade da ciência no século 21, que, além disso, pretende reforçar a importância do aconselhamento científico em matéria de política e tomada de decisões econômicas dos países. O evento é realizado a cada dois anos, desde 2003, pela Academia Húngara de Ciências (HAS), a Unesco e o Conselho Internacional de Ciência (ICSU).
Durante a cerimônia de abertura, o presidente da ABC e copresidente do WSF Brasil Jacob Palis demonstrou seu orgulho e entusiasmo com a realização do fórum no país. Para ele, “a primeira ocorrência do WSF fora da Hungria, da Europa, comprova a intenção de envolver o mundo inteiro no debate que, ao ser realizado em um país em desenvolvimento, não poderia ter outro tema senão a redução das desigualdades, seja entre países ou entre pessoas de um mesmo país. Reunimos pessoas de campos de conhecimento, cultura e realidades diferentes, pois esse é o mundo em que vivemos e, para o qual, a ciência pode oferecer um futuro melhor”, afirmou.
József Pálinkás, presidente da Academia Húngara de Ciências e do WSF, também acredita que a realização do evento em outro país o torna, de fato, mundial, assegurando que as suas propostas se universalizem: “A ciência foi e continua sendo o principal contribuinte para o desenvolvimento, mas precisamos ser sinceros: a ciência fez parte da construção do mundo que estamos tentando mudar. Agora, precisa reverter esse processo”. Para ele, o WSF Brasil lança uma pergunta simples, que, no entanto, demanda uma resposta bastante complexa: “Qual é o papel da ciência para o desenvolvimento sustentável global? Nós precisamos encontrar as barreiras e as soluções para cada uma delas. Vamos falar sobre ciência nesses próximos dias, mas não se esqueçam que, em essência, pensamos na sua aplicação para o bem estar social global”.
Do ponto de vista de Gordon McBean, presidente eleito do ICSU, o Conselho Internacional de Ciência, a ciência precisa se tornar um bem comum. A seu ver, “a universalização do conhecimento científico será alcançada quando o seu acesso, utilização e produção forem feitos por todos e para todos. Tanto pela escolha do tema, quanto pela forma como foi concebida, essa edição do WSF contribui para que isso aconteça”.
O vice-governador do estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, destacou que o Rio é conhecido mundialmente por suas belezas naturais, mas que vem se tornando a capital dos grandes eventos sobre a sustentabilidade, o que também é motivo de orgulho para os cariocas. Para ele, “o WSF dá prosseguimento as maiores conferências do planeta sobre sustentabilidade, a ECO 92 e a RIO+20. E se o que está em questão é como a ciência pode contribuir para o desenvolvimento econômico socialmente inclusivo, o desejo de todo o estado é que os participantes tenham muito sucesso”.
O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, deu as boas vindas aos participantes. “No Brasil estamos convencidos de que sem a ciência não será possível alcançar o desenvolvimento sustentável global. Gostaríamos que o fórum falasse da experiência brasileira no desenvolvimento socioeconômico e da nossa relação com o meio ambiente e que possamos ouvir a experiência de outros países. Na soma das experiências de todos os países está a solução para um mundo equitativo, produtivo e não destrutivo”, explicou.
A diretora geral da Unesco, Irina Bokova, enfatizou que o planeta vive momentos decisivos e que a demanda pela ciência é urgente. “Hoje as pessoas e as instituições que podem fazer algo para reverter o estágio atual de desenvolvimento trabalham sob muita pressão, pois o modelo de desenvolvimento vigente está levando o planeta e a população mundial ao limite. Será esse o tempo do desenvolvimento equânime ou do aprofundamento das desigualdades e da extenuação dos recursos naturais e humanos?”, questionou. Como forma de motivar cada um dos participantes na plateia, ele citou dois grandes cientistas: “Vamos pensar como o cientista brasileiro Oswaldo-Cruz: É o caso de não esmorecer, para não desmerecer. E como Albert Einstein: Nenhum problema pode ser resolvido pelo cérebro que o concebeu, é preciso reinventá-lo.”
János Áder, presidente da Hungria, estendeu a necessidade de reinventar-se aos governantes e aos tomadores de decisões políticas e econômicas através de uma mensagem transmitida por vídeo na cerimônia. “Para que as pessoas mudem de postura, os cientistas precisam apresentar um modelo de desenvolvimento sustentável global, fazendo com que ele avance nas discussões políticas e econômicas como melhor modelo em todos os sentidos. Eu estou falando com os senhores como chefe do país que deu ao mundo 13 prêmios Nobel. Um deles, Dennis Gabor, engenheiro elétrico e físico inventor da holografia e Nobel de Física em 1971, disse: O homem teve que enfrentar a natureza, agora precisa enfrentar a sua própria natureza. Falamos de uma mudança do modelo de desenvolvimento que se arraigou como a única alternativa de progresso das nações”, sentenciou.
Já o vice presidente do Brasil Michel Temer demonstrou entusiasmo com a realização do WSF e a escolha do tema. Para ele, o simples fato de transferir-se da Hungria para o Rio, para o Brasil, significa naturalmente a internacionalização da discussão promovida pelo fórum. “E nós devemos agradecer a Hungria por ter dado o primeiro passo e ter permitido que o Brasil possa colaborar nessa caminhada até a mudança para um novo paradigma. Confesso que tive uma alegria cívica em participar dessa cerimônia e ouvi-los. A constituição brasileira de 1988, uma conquista popular, assegurava direitos políticos, mas também direitos civis e sociais que aos poucos estão sendo conquistados. De alguma forma, o país vinha se preparando para a realização do WSF, e o governo brasileiro espera que todos os participantes possam levar para seus países natais o resultado dessas discussões”, afirmou concluindo as falas oficiais.
Ainda durante a cerimônia de abertura, a diretora-geral da Unesco entregou o Prêmio Kalinga pela Difusão da Ciência ao fundador do Museu de Ciência e Tecnologia da China, XiangYi LI, que já foi diretor geral da instituição, por sua habilidade excepcional na apresentação de idéias científicas para leigos.
Representante da Forests National Forest Holding, Irina Bokova,
Madiha Al Shibany e representante da Wildlife at Risk
Entre 2012 e 2013, a ABC, SBPC e MCTI promoveram sete encontros preparatórios em diversas capitais brasileiras como forma de mobilizar os cientistas brasileiros para o WSF e para aproveitar a sua realização para falar de ciência com a sociedade. A síntese desses eventos foi divulgada na declaração Desenvolvimento sustentável global: contribuição do Brasil, que aponta a necessidade da comunidade científica internacional formar redes multidisciplinares para o enfrentamento dos desafios globais, entre os quais estão as mudanças ambientais, os desastres naturais, a segurança dos recursos alimentares, hídricos, energéticos e cibernéticos, a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas, o desenvolvimento de curas de novas doenças e a prevenção ao reaparecimento de outras antigas, além da redução das desigualdades sociais e de eliminação da pobreza e da fome. Outro documento importante divulgado nas vésperas do evento foi a Declaração da América Latina e Caribe para a sexta edição do Fórum Mundial de Ciência.
(Davi Padilha Bonela para Notícias da ABC; fotos Ascom ABC, Cristina Lacerda e Manuela Ferreira)
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