Seminário sobre segurança alimentar defende foco em distribuição

4 de novembro de 2026 Por Marcos Torres para Academia Brasileira de Ciências

Nas últimas décadas, o Brasil se tornou uma potência no agronegócio, que orgulhosamente se vende como peça-chave na alimentação global. Ainda assim, esse mesmo país entrou na década de 2020 com mais de 30 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, voltando ao Mapa da Fome das Nações Unidas. Retirar o Brasil – pela segunda vez – do Mapa da Fome foi um dos compromissos assumidos pelo governo que se iniciou em 2023, e ele foi alcançado em 2025. Mas a experiência recente mostra que essa é uma conquista ainda não consolidada, e por isso ainda requer atenção da ciência brasileira. Pensando nisso, a Academia Brasileira de Ciências, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), organizaram o seminário “Segurança, Soberania Alimentar e Mudanças Climáticas”, no dia 4 de novembro.

“Quando falamos em soberania alimentar, não falamos apenas na capacidade de produzir alimentos. Falamos de um país que decide como produzir, o que produzir e para quem produzir, garantindo acesso permanente a uma alimentação saudável. Segurança alimentar não se resolve apenas com produção, mas com renda, acesso e distribuição”, resumiu a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, na abertura do encontro. “As mudanças climáticas tornam essa questão ainda mais urgente, com as secas prolongadas e as enchentes que prejudicam a produtividade do solo”.

Para a mandatária, a ciência já produziu o diagnóstico, mas o país ainda engatinha na implementação. “Alimentação, água, clima, biodiversidade e energia não são agendas separadas, e cabe ao MCTI exercer essa transversalidade entre os vários ministérios. Mas não aguento mais ouvir falar em diagnóstico, precisamos partir para a ação”, enfatizou.

Foco no acesso, e não na produção

Entre as mensagens centrais do encontro esteve a necessidade de as políticas públicas, e – no que tange à ciência – os editais de fomento, serem desenvolvidos com olhar para a localidade e com o objetivo primeiro de garantir o acesso à alimentação. Coordenador do Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CERESAN – UFRRJ), o professor Renato Maluf afirmou que garantir o acesso é uma decisão política. “Pois sistemas sociais não são equações, tratam de gente, conflitos, assimetrias e no meio disso tudo entra o Estado. É muito comum pensarmos apenas em cadeias de produção, mas precisamos ir além dela”.

Existem dinâmicas internacionais que afetam a disponibilidade, como os preços das commodities, e nacionais, como no caso do arroz, que a maior parte vem do Rio Grande do Sul, além de dinâmicas ainda mais regionalizadas. “Olhemos o caso de Santarém, no Pará, onde temos o porto, que conecta com o mercado internacional; temos as redes nacionais de supermercados, e também temos os circuitos regionais de produção, e todas as assimetrias envolvidas entre esses sistemas”, explicou Maluf. “Por isso eu não gosto de chamar de ‘sistemas locais’, porque na verdade são muitos sistemas interagindo”.

Para o palestrante, o enfraquecimento do multilateralismo internacional tirou os focos dos acordos comerciais e colocou ainda mais peso no combate às desigualdades dentro do próprio país. “Eu sempre defendi que não podíamos depender do mercado internacional, se existia alguma dúvida quanto a isso, depois da pandemia não existe mais”, afirmou.

Por fim, Maluf se disse decepcionado com o plano para os próximos quatro anos apresentado pelo governo durante as eleições. “Para além do combate à fome, nossos temas saíram da agenda. Se vocês olharem o plano de governo, o termo ‘segurança alimentar’ só aparece na digitalização da cadeia agroindustrial. Isso num governo que teve um papel importante nesse debate”, lamentou.

Renato Maluf, professor da UFRRJ

As mudanças climáticas e a agropecuária

Os sistemas alimentares estão no centro dos debates globais não por acaso, neles é possível enxergar muitas das crises que enfrentamos hoje. O efeito das mudanças climáticas nesse setor, particularmente no Brasil, não pode ser subestimado. “Já estamos observando uma queda de precipitação no Brasil Central e isso tem impacto direto na agropecuária. Atingir o compromisso de zerar o desmatamento até 2030, sobretudo na Amazônia e no Cerrado, é absolutamente estratégico e temos todas as ferramentas para isso”, resumiu o climatologista e Titular da ABC, Paulo Artaxo. Sobre a segurança hídrica, o professor Dirceu Reis da Universidade de Brasília (UnB) trouxe modelos de alterações nos padrões de precipitação brasileiros, mostrando que o semiárido e o Centro-Oeste são as regiões em maior risco de sofrerem crises hídricas.

Professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), Júlia Benfica Senra trouxe as prioridades da adaptação e mitigação para cada bioma nacional. Em comum a todos está a valorização de atividades de baixo carbono, como a agricultura familiar e a agroecologia. Ela defendeu a participação ativa do Brasil na Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que permite a troca entre os países sobre políticas públicas que deram certo.

Representando a Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Renata Menezes trouxe o exemplo de cooperativas no Rio Grande do Sul que se mostraram mais resilientes que o agronegócio após as enchentes. “Áreas que produziam arroz orgânico, baseado em bioinsumos e com trabalho cooperado, mesmo após um mês submersas, mostraram capacidade produtiva e composição química e física do solo inalteradas, enquanto o agronegócio passou por problemas seríssimos. Esse é um resultado concreto da agroecologia, que precisa estar no centro do nosso projeto de país”, afirmou.

Reforçando uma pauta histórica do movimento, Menezes lembrou que o Brasil ainda não passou por uma reforma agrária e que metade das terras segue concentrada nas mãos de 1% dos proprietários, enquanto a agricultura familiar ainda responde por menos de 20%. “A lógica da concentração de terras no agronegócio, hoje o modelo hegemônico, é responsável pela maior parte das emissões e dos crimes ambientais do Brasil. É preciso disputar o modelo de agricultura, e defender a reparação histórica da reforma agraria e do reconhecimento das terras indígenas”.

Representando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a pesquisadora Cristhiane Oliveira Amancio defendeu que políticas bem desenhadas conseguem efeitos positivos para além do objetivo principal. “A política de cisternas no semiárido identificou que os beneficiados tiveram um aumento no emprego formal de 30% porque perdiam menos tempo buscando água. São impactos que de forma geral não conseguimos analisar”, exemplificou.

Jaqueline Santos, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), reforçou a necessidade de os editais considerarem demandas específicas de cada região. “Na Amazonia, por exemplo, a cobertura das longas distâncias e a garantia da segurança precisam entrar na conta”.

Assista ao encontro na íntegra: