ABC participa de assinatura da declaração do Science 20 2026

6 de novembro de 2026 Por Marcos Cortesão para Academia Brasileira de Ciências

Na manhã de sexta-feira, 6 de novembro, a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena B. Nader, participou virtualmente da cerimônia de assinatura da declaração final do S20, o grupo de engajamento em Ciência do G20, constituído pelas Academias de Ciências do bloco. Em 2026, os trabalhos do grupo foram coordenados pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NAS), já que o país preside o G20 neste ano. A cerimônia também marcou a passagem da liderança do S20 para a Royal Society, uma vez que o Reino Unido assume a presidência do G20 em 2027.

Intitulada “Viabilizando o Uso Eficaz da Tecnologia para a Resiliência a Riscos Naturais e Desastres por meio da Colaboração Internacional”, a declaração discute como a cooperação entre países pode ampliar o acesso a tecnologias de prevenção, monitoramento e resposta a desastres, e garantir que elas sejam bem usadas.

Custos crescentes e efeitos que ultrapassam fronteiras

O documento parte de um diagnóstico preocupante. Os desastres naturais causaram cerca de US$ 224 bilhões em perdas econômicas diretas e associadas em 2025. Quando se somam os impactos indiretos, os efeitos em cascata e os danos aos ecossistemas, o custo anual passa de US$ 2,3 trilhões, segundo estimativas do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR). O texto lembra que essas perdas costumam ser agravadas pela ação humana: ocupação de áreas de risco, expansão urbana desordenada, uso inadequado do solo, falta de manutenção da infraestrutura e mudanças climáticas. Lembra também que um desastre local repercute em escala regional e global, afetando cadeias de suprimento, mercados financeiros e fluxos migratórios.

Segundo a declaração, tecnologias como o sensoriamento remoto por satélite, os sistemas de alerta precoce baseados em modelos numéricos e inteligência artificial e os gêmeos digitais avançam rapidamente. Ainda assim, continuam subutilizadas, sobretudo nos países com menor capacidade técnica e financeira e nos pequenos Estados insulares em desenvolvimento.

Sem prescrever soluções únicas, o documento identifica cinco oportunidades interligadas, dirigidas a governos nacionais e locais, organizações da sociedade civil, pesquisadores, desenvolvedores de tecnologia e lideranças comunitárias:

Cinco oportunidades de ação

  1. Fortalecer a coleta de dados e a compreensão do risco, com dados sobre exposição e vulnerabilidade e a correção de vieses algorítmicos que possam prejudicar populações ou regiões com poucos dados.
  2. Garantir acesso seguro e equitativo a dados e tecnologias, com padrões comuns de interoperabilidade e gestão de dados segundo os princípios FAIR (localizáveis, acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis) e CARE (benefício coletivo, autoridade para controlar, responsabilidade e ética).
  3. Desenvolver capacidades locais e soluções adaptadas a cada contexto, com formação de pessoal, exercícios multissetoriais e integração dos conhecimentos tradicionais, indígenas e locais aos métodos científicos.
  4. Fortalecer a decisão humana e a governança dos sistemas tecnológicos, com validação local dos resultados, transparência, prestação de contas e supervisão humana sobre o uso da inteligência artificial em decisões críticas.
  5. Promover a coprodução de conhecimento e tecnologia entre países e setores, em parcerias entre iguais, e não como simples transferência de soluções prontas.

Na conclusão, o documento adverte que, se o acesso a essas ferramentas continuar desigual, o próprio avanço tecnológico pode aumentar as lacunas de resiliência entre os países, com consequências que acabam atingindo também os mais bem equipados. Por isso, a declaração destaca que os países com mais recursos e os parceiros internacionais têm papel decisivo no apoio aos investimentos em sistemas, instituições e pessoas.

Manifestação da ABC

Durante a cerimônia, cada Academia integrante do S20 teve espaço para apresentar suas considerações. Helena Nader destacou a relevância da

declaração como subsídio científico aos Chefes de Estado e de Governo do G20. Ela expressou a expectativa de que o documento chame a atenção dos líderes para a urgência do tema e oriente a formulação de políticas públicas voltadas a proteger as sociedades dos riscos associados aos desastres naturais. A presidente da ABC observou que a frequência e a intensidade desses eventos tendem a aumentar com o aquecimento global, acelerado pelas atividades humanas. Por isso, investir em prevenção, monitoramento e capacidade de resposta deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade.

Helena Nader também agradeceu à NAS pela condução do processo e elogiou o método de trabalho adotado. Segundo ela, as contribuições das Academias foram de fato incorporadas ao longo das discussões. Com isso, o texto final reflete um consenso construído coletivamente entre as Academias de Ciências de diferentes países e realidades, o que dá ainda mais legitimidade às recomendações apresentadas aos governos.

Próximos passos

Ao fim das intervenções, Neil H. Shubin, presidente da NAS, agradeceu as contribuições dos membros do S20 ao longo do processo que levou à versão final do documento. Ele anunciou que a declaração será lançada publicamente no dia 10 de novembro. Em seguida, passou a palavra a Alison Noble, secretária de Relações Exteriores da Royal Society, que encerrou a cerimônia apresentando os primeiros passos da preparação do S20 de 2027, sob liderança britânica.