No dia 27 de outubro, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) recepcionou os cinco jovens cientistas que se juntam aos quadros da Academia como Afiliados para a regional Sul em 2026. Para marcar a data, o Simpósio e Diplomação de novos Membros Afiliados ABC – Regional Sul 2026-2030 contou com três palestras magnas ministradas pelos biólogos Samuel Goldenberg e Eduardo Eizirik, e pela astrofísica Débora Menezes, todos Titulares ABC.
Ciência e Sociedade: a responsabilidade dos cientistas
Samuel Goldemberg trouxe um apanhado histórico de como a ética científica foi compreendida ao longo dos últimos séculos. Começando pelo físico irlandês John Desmond Bernal, que já no início do século 20 defendia que a responsabilidade do cientista com a sociedade passa por uma comunicação aberta e pela responsabilidade pelo uso político de seus avanços técnicos, antes mesmo da bomba nuclear. “Bernal já falava que o dinheiro gasto com armas deveria ser gasto em ciência. A qualidade técnica é o ponto de partida da nossa responsabilidade, mas não o limite”, reforçou o palestrante.
Por isso, apesar de valorizar o saber pelo saber, é preciso lembrar, sobretudo no Brasil, que quem sustenta a atividade científica é a sociedade. “O conhecimento que temos hoje é um privilégio nos dado pela sociedade”, sumarizou.

Nos últimos duzentos anos, a atividade científica evoluiu de uma busca isolada levada a cabo por membros de uma elite restrita para uma profissão difusa e sustentada por redes cada vez maiores de pessoas. À exceção de umas poucas áreas, a vasta maioria dos cientistas modernos trabalha em extensas colaborações, o que só aumenta a responsabilidade. Qualquer má conduta influencia não apenas seu próprio trabalho e reputação, mas o de dezenas de outras pessoas.
“A ética do pesquisador demanda honestidade, rigor metodológico, respeito aos colegas, plágio zero, responsabilidade com a sociedade e atenção a conflitos de interesse. Mas a estrutura atual da ciência, o publicar ou morrer, coloca pressão sobre esses princípios, às vezes vinda das próprias instituições. É preciso também falarmos sobre ética institucional”, refletiu Goldenberg.
Nesse sentido, o pesquisador defendeu a atuação pública de entidades científicas como a ABC na interface entre ciência e política, lembrando do papel histórico da Academia na consolidação e institucionalização da ciência nacional, como seu protagonismo na criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Por fim trouxe aspas do físico Oscar Sala, que presidiu a ABC entre 1991 e 1993.
“Somente numa sociedade onde exista um clima cultural, em que o impulso à curiosidade e o amor à descoberta sejam compreendidos e cultivados, pode a ciência florescer. Somente quando a ciência se torna profundamente enraizada como um elemento cultural da sociedade é que pode ser mantida e desenvolvida uma tecnologia progressista e inovadora, tornando-se, então, possível uma associação íntima e vital entre ciência e tecnologia. Essa associação é uma característica da nossa época e certamente essencial para a manutenção de uma civilização com os níveis presentes de população e qualidade de vida”, afirmou Sala em 1974.
“Será que teremos condições de criar essa sociedade? A resposta dependerá muito de vocês, novos Afiliados. Bem-vindos à ABC”, finalizou Goldenberg.
Genômica aplicada à conservação da biodiversidade
Em setembro de 2026, uma nova espécie de gato foi descrita, a primeira em mais de 100 anos. O geneticista Eduardo Eizirik, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), foi um dos líderes dessa descoberta. Ao lado da bióloga boliviana Paola Nogales-Ascarrunz, ele fez as análises genômicas que ajudaram a compreender que o Leopardus tilcayo, pequeno felino do tamanho de um gato doméstico com manchas que lembram as onças-pintadas, era mesmo uma espécie nova.
Eizirik explicou que a identificação foi possibilitada pelos avanços da genômica, campo que estuda o conteúdo genético dos organismos por inteiro. Essa abordagem se tornou factível a partir da segunda década do século 21 com a evolução e barateamento das tecnologias de sequenciamento genético. Anteriormente, análises genéticas eram restritas a pequenos trechos do DNA, e a montagem de um genoma completo era uma tarefa hercúlea que requeria múltiplos institutos e milhões de dólares. Não mais. “Trabalhávamos com genética até 2011, a partir dali começamos a trabalhar principalmente com genômica”, sintetizou o palestrante.

A genômica permitiu a análise comparada de várias espécies de pequenos felinos da América do Sul, e foi no escopo deste projeto que a nova espécie foi descoberta. “Essas análises permitiram entender melhor a diferenciação entre as várias espécies, separando o que até então eram espécies únicas”, explica o cientista. A nova espécie na Bolívia ganhou os holofotes, mas Eizirik também destaca uma nova subespécie descoberta no Peru, que potencialmente pode vir a ser classificada como uma nova espécie completamente separada. “Escolhemos ser conservadores porque essa subespécie no Peru se separou há menos de 500 mil anos, mas novas análises podem ainda elevá-la ao nível de espécie”, afirmou.
Outra inovação do projeto foi o uso de amostras depositadas em museu, técnica cada vez mais usada na ciência e que até recebeu o nome de “museômica”. Antes, amostras de DNA frescas eram necessárias para o sequenciamento, mas hoje já é possível a extração de DNA antigo, sobretudo em amostras bem preservadas. A presença de organismos que hoje não são mais encontrados na natureza foi crucial para tornar o projeto ainda mais detalhado.
E por falar em museu, uma novidade do L. tilcayo é que ele possui um holótipo vivo, algo raro na zoologia. Cada espécie nova precisa de um indivíduo modelo, depositado em museu para servir de referência para análises comparadas. No caso do novo gato, o indivíduo em questão ainda está vivo, monitorado num refúgio de vida selvagem na Bolívia. Apenas quando ele morrer será então depositado em um museu. “Não foi tarefa fácil convencer os revisores a aceitarem isso, foi preciso garantir que esse indivíduo está sendo monitorado e não será perdido”, explicou o pesquisador.
Animais carismáticos como os felinos são ótimos para a valorização da ciência e da biodiversidade, e Eizirik acredita que o novo gato fará bem à ciência e à conservação boliviana. “Novas leis de conservação estão avançando no país, assim como captação de recursos para a pesquisa”, afirmou esperançoso.
E por falar em felinos símbolos nacionais, por aqui nós temos as onças-pintadas. O Brasil liderou o consórcio internacional que desvendou o genoma dessa espécie, e com ele é possível observar padrões preocupantes para a conservação. “Existem hoje populações de onças-pintadas de vários tamanhos, sendo os mais preocupantes na Mata Atlântica. A evidência genética é de uma alta conectividade histórica entre as populações, o que mudou radicalmente com a intervenção humana”, explica Eizirik.
A fragmentação das matas restringe as populações de onças-pintadas a áreas cada vez menores, aumentando o nível de endogamia, quando onças geneticamente muito próximas reproduzem. Níveis altos de endogamia enfraquecem a espécie, favorecendo o surgimento de doenças ou condições adversas. Por ser o bioma mais fragmentado do país, a Mata Atlântica é onde as onças estão mais ameaçadas. Eizirik teme que o bioma possa ser o primeiro no Brasil a perder seu principal predador. “São tempos preocupantes para a conservação, mas empolgantes metodologicamente, tudo está ficando mais acessível, possível e barato”, resumiu o cientista.
Matéria escura, ondas gravitacionais e física nuclear como ferramentas para entendermos a evolução estelar
Para a terceira palestra magna, a física Débora Menezes nos convida a aprender mais sobre as estrelas. Ela compara o ciclo de vida estelar ao de uma pessoa, em que progressivamente crescemos até uma fase final da vida quando começamos a encolher. As estrelas se formam com imensas nuvens de gás, cuja gravidade aumenta à medida que vão crescendo até atingir níveis de pressão e temperatura tão altos que levam os elementos à fusão nuclear. Essa fase “adulta”, em que a energia liberada na fusão e a própria gravidade se equilibram, pode durar bilhões ou trilhões de anos. Por fim, em estrelas como o nosso Sol, quando acaba o combustível para a fusão nuclear, as camadas externas são expelidas, o núcleo se contraí e elas se tornam o que chamamos de “anãs brancas”.
Mas no universo existem estrelas muito maiores que o nosso Sol, e essas estão destinadas a uma morte mais espetacular. O tamanho gera uma pressão tão forte no núcleo que acaba por fundir elementos cada vez maiores, como o ferro, que uma vez esgotados levam a uma explosão que chamamos de “supernova”. “Após a supernova essas estrelas gigantes têm dois destinos, ou viram estrelas de nêutrons, ou buracos negros”, explicou Menezes.

A primeira estrela de nêutrons foi descoberta pela astrofísica britânica Jocelyn Bell em 1967. Ela detectou pulsos extremamente regulares de ondas de rádio e comprovou algo que até então havia sido apenas especulado. Por isso, essas estrelas também são chamadas de “pulsares”. “Foi algo tão inusitado que teve quem acreditasse que o som detectado vinha de populações extraterrestres”, contou a cientista. “A descoberta rendeu o Prêmio Nobel de Física aos orientadores de Bell, mas ela própria ficou de fora”, lamentou.
(Controvérsias quanto ao reconhecimento de mulheres cientistas não são incomuns na história da ciência. Para lutar contra isso, Débora Menezes coordena a iniciativa Mulheres na Ciência, de divulgação científica no youtube e redes sociais. Confira!)
Desde a descoberta de Bell, telescópios cada vez mais avançados tem sido desenvolvidos para a detecção de pulsares, o que aumentou exponencialmente o número de descobertas. Entre eles está o radiotelescópio BINGO (Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), que está sendo instalado no município de Aguiar, na Paraíba, com previsão de início das operações em 2027. “Mas o principal foco do BINGO será a matéria escura”, explicou Menezes.
Nas palavras da cientista, a matéria escura é como o manipulador de marionetes, você sabe que está ali, mas não consegue vê-lo. “A massa que observamos no universo não explica a força gravitacional que encontramos. Existiam controvérsias se a matéria escura existia, até que outra mulher, a americana Vera Rubin, provou que era irrefutável. Ela modelou como seria a evolução do universo com e sem a matéria escura e viu que era radicalmente diferente”, explicou.
Débora Menezes também acredita que a evolução da inteligência artificial deverá acelerar o ritmo das descobertas na astronomia. “Antes para encontrar os parâmetros mais adequados para um cálculo eu precisava deixar o computador rodando a noite inteira, hoje isso já é feito em minutos. Tudo está mais rápido e eficiente, então novos equipamentos, como o BINGO, deverão ser muito melhor aproveitados”, finalizou.
Fotos: Ariana Leitão