CNPq e Capes, agências com missões distintas e necessárias que não devem se fundir

29 de novembro de 2019 Por (Hernan Chaimovich para Jornal da Ciência)

Leia artigo do Acadêmico Hernan Chaimovich, professor Emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), ex vice-presidente da ABC e ex-presidente do CNPq (2015 -2016), para o Jornal da Ciência;

“O resultado da fusão, na atual situação, daria lugar a uma única agência de bolsas, institucionais e individuais, sem nenhuma previsão para fomento”, afirma o ex-presidente do CNPq e professor emérito da USP, Hernan Chaimovich, em artigo para o Jornal da Ciência

O ofício 6800/2019, assinado pelo ministro de Estado de Educação Exmo. Sr. Abraham Weintraub, em resposta a um requerimento de informação vindo da Câmara de Deputados, encaminha uma nota técnica, preparada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que se refere à proposta de fusão das agências de fomento Capes e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). O ofício em pauta “não tem indicação ou aparência de tratar-se de conteúdo sigiloso”. Assim, partes do conteúdo desse ofício e da respectiva nota técnica podem ser divulgados sem transcrever detalhes.

A Nota técnica No 15/2019/GAB/PR trata da “realização de estudo especifico” sobre a fusão Capes-CNPq e, depois de uma análise sumária e superficial, afirma na parte final – aparentemente como argumento a favor da fusão- que: “Não  é  demais  lembrar  a existência de diversos exemplos em âmbito internacional,  como  é  o  caso  da  National  Science  Foundation  (NSF) dos Estados Unidos da América, e mesmo dentro do país, como no caso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)”. A Capes, ou quiçá o próprio ministro, não tiveram tempo de visitar os sítios da rede www.fapesp.br ou www.nsf.gov para entender minimamente as missões dessas organizações.

Não é aqui o espaço para analisar o imensamente diferenciado e descentralizado sistema de financiamento de CT&I dos Estados Unidos. Resta dizer que as agências rara e dificilmente financiam diretamente programas de pós-graduação. Usar, portanto, o NSF como exemplo ignora a complexidade do sistema de financiamento de CT&I dos USA. Ao afirmar que a efetividade do fomento se mede por isso ou aquilo também ignora a gigantesca diferença do total de investimento em CT&I entre os dois países. O investimento percentual em CT&I dos USA em 2017 foi 2,79% de um PIB de 20,5 trilhões de dólares, o equivalente a 572 bilhões de dólares. O Brasil, no mesmo ano, com um PIB de 3,24 trilhões de dólares, investiu 1,27% de seu produto interno bruto em CT&I, um total equivalente a 41 bilhões de dólares.

A Fapesp foi criada com uma missão clara, estimular a pesquisa de excelência para o benefício do contribuinte paulista. Em nenhuma parte dos seus estatutos ou regimentos se contempla financiamento destinado a programas de pós-graduação, ou instituições do Estado de São Paulo. A divisão dos recursos entre bolsas e fomento é clara: 30% bolsas e 70% fomento [http://www.fapesp.br/publicacoes/relat2018.pdf]. Todos os financiamentos da Fapesp, após análise de mérito feito por pares, são destinados a investir em projetos de pesquisa. O apoio às bolsas para estudantes ou doutores depende, também, de análise de projetos individuais de pesquisa.

A Capes, com uma missão totalmente distinta da Fapesp, da NSF ou do CNPq, nasce como uma Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior. A Capes é responsável pelo significativo crescimento do sistema de pós-graduação no País, pois credencia, avalia e concede bolsas para os programas de pós-graduação. É claro que os processos de avaliação desses programas e o financiamento das bolsas para estudantes de pós-graduação distribuídas a, e pelos programas, foram determinantes para a evolução do número de mestres e doutores no País e a ciência e tecnologia que esses cientistas contribuíram para criar.

A missão do CNPq foi clara enquanto o orçamento destinado a fomento, e não somente a bolsas, era minimamente racional. A responsabilidade do CNPq era financiar projetos de pesquisa em todas as áreas do conhecimento, estimular a inovação mediante investimento em pesquisa e, ao mesmo tempo, financiar bolsas de estudos conectadas a projetos de pesquisa. Como o NSF, o CNPq tinha a responsabilidade e a missão de estimular a criatividade no País todo. Nunca se pensou que o CNPq deveria financiar programas de graduação ou pós-graduação, pois a instituição lida com CPF (Cadastro de Pessoa Física), e não CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica). Quando o orçamento de fomento atinge níveis desprezíveis, como na proposta orçamentária para 2020, a intenção mais parece extinção, e não fusão.

O resultado da fusão, na atual situação, daria lugar a uma única agência de bolsas, institucionais e individuais, sem nenhuma previsão para fomento. Bolsistas, sejam individuais (ex-CNPq) ou institucionais (ex-Capes), poderão assim estar malversando dinheiro público, pois, sem investimento em fomento, não existirão recursos para fazer pesquisa.  E as bolsas se destinam, justamente, a permitir que pesquisadores pesquisem.

Se o Brasil quer manter, minimamente, o sistema de apoio a CT&I, criado como Política de Estado a muito custo nos últimos 70 anos, é de bom alvitre que se olhe para o destino da CT&I autóctone sob uma ótica mais inteligente, rejeitando a fusão do CNPq com a Capes e reconhecendo que sem orçamento para fomento, a própria política de investimento em inteligência deve falir.