A tortuosa e apaixonante estrada da ciência

A carreira científica é apaixonante, mas, sobretudo no Brasil, também bastante tortuosa. A estrada percorrida pela química Luana da Silva Magalhães Forezi, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e nova Afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC), exemplifica bem a dor e a delícia que é ser cientista. Ela conta que chorou de emoção ao receber a notícia de sua eleição. “Foi uma sensação de realização difícil de descrever. Mais do que um reconhecimento, foi uma confirmação de que valeu a pena persistir.”

Nascida na cidade de Recreio, na Zona da Mata mineira, Luana cresceu no pequeno vilarejo de Trimonte, de apenas 600 habitantes, pertencente ao município vizinho de Volta Grande. A infância e adolescência foi vivida entre esses três pequenos lugares, hora visitava os avós em Recreio, hora ia para Volta Grande, sobretudo na adolescência, quando ia e voltava diariamente para estudar. Longe do caos das grandes cidades, foi uma infância ao ar livre, na qual os avós, de ambos os lados, foram parte importante da criação, já que seus pais trabalhavam fora. “Quando penso na minha infância, lembro não apenas das brincadeiras e da liberdade, mas do amor, do cuidado e da presença constante dos meus avós. Hoje nenhum deles está mais aqui, mas sou profundamente grata pelo privilégio de ter podido conviver com cada um deles”, relembra.

Na escola, a disciplina que mais gostava era a matemática. O gosto pela química, na qual faria carreira, só despertou no pré-vestibular, graças a um professor especial, do qual ela não recorda o nome, mas lembra exatamente seu rosto e suas aulas. Naquela época o sonho de ingressar numa universidade pública já existia, mas a carreira ainda estava em aberto. Foi então que outro professor, a quem ela chamava carinhosamente de Tiãozinho, insistiu que a menina tinha vocação para a química. “Lembro exatamente dessas palavras e fiz até um teste vocacional. O resultado: Química”, conta.

Mesmo assim, sua primeira tentativa de vestibular não foi para química, mas para a farmácia, e com ela veio a primeira frustração. Luana reconhece que não era a mais disciplinada das alunas, estudava o que gostava, mas não dedicava tempo às outras matérias. Depois de uma segunda reprovação, foi necessário reconhecer sua fragilidade e mergulhar nos livros, e dessa forma conseguiu ser aprovada para o curso de Química da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 2005. “Desde o primeiro dia naquele ambiente eu tive a certeza de ter feito a escolha certa e nunca me arrependi”.

No curso, conforme conhecia a profissão, a identificação só crescia. A química não foi só uma escolha de carreira, mas uma área onde encontrou propósito, realização e felicidade. Desde o primeiro período fez iniciação científica, e percebeu que pesquisa era o que gostaria de fazer pelo resto da vida. Mas Luana ainda não se imaginava professora universitária, pelo contrário, há anos seu horizonte profissional estava na indústria, almejando, mais do que qualquer outra coisa, trabalhar com química na Petrobras. “Ao me formar, segui meu caminho para a pós-graduação, mas sempre com isso em mente”.

Logo após o diploma, a pesquisadora tentou a seleção de mestrado da UFF, sem muita expectativa. Niterói era uma cidade distante e Luana admite que não conseguiu estudar muito. Mas, para sua surpresa, foi aprovada. A vaga era para o Laboratório de Nucleosídeos, Heterociclos e Carboidratos (LNHC – UFF), sob orientação da professora Maria Cecília Bastos de Souza, que viria a se tornar uma de suas principais inspirações na ciência. Mas a aprovação inesperada trouxe um desafio: precisava mudar de cidade em tempo recorde, já que começava uma semana após o resultado. “Contei com o apoio fundamental dos meus tios, Fátima, minha madrinha, e José Luís, que me receberam com muito amor e carinho em sua casa, no Rio de Janeiro. Também sou grata aos meus primos, Andressa e Yago, que me fizeram sentir parte da família desde o primeiro momento”, recorda com carinho.

Mas o deslocamento diário entre Rio e Niterói não era fácil, e três meses depois Luana conseguiu um apartamento e se mudou. O mestrado foi feito sob orientação de Maria Cecília e co-orientação da professora Fernanda Boechat, outra mulher inspiradora. Logo vieram mais percalços, o projeto não saiu como planejado, e em vários momentos a pesquisadora pensou que não conseguiria defender. Mas graças à sua dedicação, e o apoio fundamental de suas mentoras, Luana publicou seus primeiros artigos e obteve o título de mestre em 2011. Sua dissertação tratou da criação e síntese de novos compostos com potencial terapêutico contra o vírus da dengue.

Luana ingressou no doutorado imediatamente após o mestrado, seguindo na UFF e na parceria com suas duas orientadoras. Mas as contas apertavam e a pesquisadora precisava arranjar um jeito de complementar a renda, e foi assim que descobriu a docência. “Foi nesse período que surgiu uma oportunidade que mudaria completamente os rumos da minha vida: me tornei professora e coordenadora do Curso Técnico em Química do Centro de Educação Tecnológica de Niterói (Ceten). O contato com os estudantes, a preparação das aulas, o desafio de ensinar e acompanhar o desenvolvimento dos alunos despertaram em mim algo que eu nunca havia imaginado sentir. Aos poucos, percebi que ensinar me fazia tão feliz quanto pesquisar”, conta. “A menina que sonhava em trabalhar na Petrobras já não existia mais”.

Os anos de doutorado ela descreve como “maravilhosos”, construindo amizades que carrega até hoje, em especial as inseparáveis Nathalia, Fernanda e Vanessa. Também teve a oportunidade de realizar parte dos estudos fora, na Universidade de Aveiro, em Portugal, sob orientação do querido professor José Cavaleiro. A jovem, que até então nunca havia andado de avião, embarcou para uma experiência que não serviria apenas de preparo acadêmico, mas de muito crescimento pessoal. “Guardo com muito carinho as lembranças desse período, das pessoas que conheci, das experiências que vivi e de tudo o que aprendi lá com os queridos ‘Tugas’”, relembra.

De volta ao Brasil, a vida lhe aplicaria um duro golpe, seu pai, Reginaldo, ficara doente e poucos meses depois viria a falecer. O luto foi um período difícil, talvez o pior que já vivera, mas entendeu que precisava seguir em frente. Com o prazo para o doutorado chegando ao fim, surgia a insegurança do fim da bolsa, crucial para se manter. Foi então que surgiu uma oportunidade de pós-doutorado com bolsa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas para aproveitá-la precisaria antecipar a defesa de tese em três meses. Luana correu contra o tempo e conseguiu cumprir seus objetivos, e assim começou a atuar sob orientação do professor e Titular da ABC Angelo da Cunha Pinto.

A experiência, entretanto, durou pouco, pois seu novo orientador infelizmente viria a falecer dez meses depois. O baque a fez mudar de planos e iniciou um novo pós-doutorado, dessa vez sob orientação do químico e Titular da ABC Vitor Ferreira.

Durante essas idas e vindas, Luana esteve sempre estudando para concursos. Acontece que o fim do doutorado é um marco na vida de um cientista, mas também um período de profunda incerteza. É o momento em que uma estrada chega ao fim, e surgem muitas trilhas para se escolher, sendo o ingresso como professor em uma universidade um objetivo concreto, mas desafiador. Para ela, essa encruzilhada veio justamente em um momento em que os concursos rareavam, e se tornavam cada vez mais concorridos.

Uma primeira oportunidade surgiu para o Departamento de Química Orgânica da UFF, mas a ansiedade no dia da prova a fez cometer um erro crucial nas temáticas, o que custou sua desclassificação. Logo depois prestou concurso para a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e ficou em terceiro lugar, posição que normalmente garante a contratação, mas esperou e esperou, e a chamada nunca veio. “Foi um período muito confuso para mim, durante o qual recebi um enorme apoio do professor e membro titular da ABC, Vitor Ferreira. Além de me proporcionar oportunidades para fortalecer meu currículo, ele me ensinou a ser uma profissional proativa, persistente e comprometida, que busca oportunidades e não espera as coisas acontecerem”, agradece.

Uma segunda reprovação na UFF ainda viria, e nesse momento Luana pensou em desistir. A decisão de voltar para Minas Gerais já estava tomada. Ela sentia ter feito tudo que estava a seu alcance e chegara a hora de procurar outro caminho. Foi nesse momento em que recebeu um telegrama informando de sua aprovação como professora substituta no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Maracanã. A oportunidade lhe permitiria continuar vivendo em Niterói, e lhe daria mais uma oportunidade de realizar seu sonho. “Fui professora no IFRJ entre 2017 e 2019. Em 2019 me afastei e me dediquei integralmente ao concurso que seria realizado na UFF. Eu sentia que aquela era minha última chance, pois já estava emocionalmente exausta após tantos anos de tentativas”.

Um ano inteiro de estudos e renúncias valeram a pena e, ao final de 2019, foi aprovada no concurso da UFF. Entretanto, o período cada vez mais conturbado que o país atravessava alimentava incertezas, muitos professores já haviam sido aprovados e não foram chamados. Enfim, Luana foi chamada, mas não sem antes enfrentar mais um desafio: a pandemia da covid-19 pegou ao mundo de sobressalto. “Os planos foram interrompidos, as atividades presenciais suspensas e minha posse adiada por quase um ano”, conta.

Só no dia 5 de outubro de 2020, quase um ano depois da prova, a agora professora da UFF pôde finalmente realizar seu sonho, mesmo que virtualmente. Hoje, Luana leciona e pesquisa a síntese de novas moléculas orgânicas, sempre de olho em possíveis inovações. “Uma parte das minhas pesquisas é voltada para a área da saúde, buscando desenvolver substâncias com potencial para auxiliar no tratamento da Doença de Chagas, Alzheimer, câncer, depressão e infecções causadas por microrganismos. Também desenvolvemos novos materiais com aplicações tecnológicas, incluindo sistemas para captação de energia solar e sensores capazes de identificar e monitorar diferentes substâncias de interesse”, explica.

Mais recentemente, a pesquisadora passou a atuar em projetos ligados ao agronegócio, com foco na citricultura brasileira, em colaboração com as professoras Jéssica Cristina Amaral e Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva, ambas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Nessa linha, buscamos desenvolver substâncias que ajudem as plantas a se protegerem de doenças, contribuindo para uma agricultura mais sustentável e produtiva. De forma geral, meu trabalho busca transformar conhecimento científico em soluções que possam melhorar a qualidade de vida das pessoas, fortalecer a produção de alimentos e contribuir para o desenvolvimento de novas tecnologias”.

Essa nova fase de sua carreira foi complementada por um momento muito importante de sua vida pessoal. Em 2022, Luana se tornou mãe. A chegada do pequeno Miguel despertou nela um novo tipo de amor, mais intenso do que qualquer coisa que já houvesse sentido. Hoje ela olha para trás, para todas as frustrações e percalços, e percebe que valeu a pena persistir. Mas nada disso seria possível sem todas as pessoas que estiveram ao seu redor, desde os pais, avós, irmã, cunhado, tios, primos e o marido, Fernando, até todos os colegas e alunos com quem conviveu. Luana faz questão de agradecer a cada um deles.

“Todos os dias, quando acordo, procuro ser alguém de quem meu filho possa se orgulhar. Miguel me inspira a buscar minha melhor versão, não apenas como pesquisadora e professora, mas principalmente como ser humano. Se hoje continuo enfrentando desafios, buscando crescer e tentando construir um mundo melhor ao meu redor, é porque quero ser um exemplo para ele. Esse talvez seja o maior legado que posso deixar”, conclui.

(Marcos Torres para ABC)