No âmbito dos debates ambientais e climáticos globais, convencionou-se chamar Soluções Baseadas na Natureza (SbN) todas aquelas ações que visem responder aos desafios econômicos e sociais ao mesmo tempo em que produzem externalidades positivas para o meio ambiente e o clima do planeta. Esse conceito esteve no centro do debate “Biodiversidade, bioeconomia e soluções climáticas: evidências, limites e perspectivas pós-COP30”, promovido pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) no dia 14 de setembro de 2026 como abertura do Simpósio e Diplomação dos Afiliados ABC para a regional Minas Gerais e Centro-Oeste.
A mesa-redonda fez parte da série “COP30: balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP31”, que está reunindo especialistas em várias áreas ambientais para fornecer recomendações aos negociantes brasileiros na COP 31, que ocorrerá em novembro na cidade de Antália, na Turquia. Nesta edição, participaram os professores Aline Soterroni, da Universidade de Oxford, Inglaterra; Jean Paul Metzger, da Universidade de São Paulo (USP); Luisa Carvalheiro, da Universidade Federal de Goiás (UFG); e a diretora de Inovação Social da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Ana Euler. O debate foi coordenado pela professora Márcia Margis, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Soluções Baseadas na Natureza são o foco climático do Brasil
Abrindo os debates, Aline Soterroni, que trabalha junto à Nature Based Solutions Initiative de Oxford, trouxe números que demonstram o papel central das NbS no enfrentamento às mudanças climáticas. Segundo os cálculos, o potencial de remoção do CO2 atmosférico dessas soluções chega a 11 gigatoneladas anuais, mais de um quarto das emissões registradas para o ano de 2024. Mas quando olhamos para as emissões brasileiras, essa proporção cresce vertiginosamente. Segundo Soterroni, o país poderia atingir 80% de sua meta de zerar emissões apenas com SbN, sendo 60% vindo da preservação ambiental e 20% da restauração.
“Focar em Soluções Baseadas na Natureza é o melhor seguro que temos contra eventos climáticos extremos. A agricultura brasileira depende de serviços ecossistêmicos, 90% da água que sustenta a soja brasileira vêm das chuvas da Amazônia. É uma vantagem comparativa, o Reino unido, por exemplo, não tem como mitigar com SbN, que tem um custo muito menor para a economia”, enfatizou a pesquisadora. “A ciência brasileira já oferece essas soluções, mas precisa ser ouvida”, concluiu.
Especialista em conservação da biodiversidade na Mata Atlântica, o professor da USP Jean Paul Metzger defendeu que o bioma é um hotspot para a restauração florestal no mundo, onde estratégias de reflorestamento são capazes de atingir rapidamente um nível de recuperação de carbono em terras que não são tão caras quando comparadas a outras regiões do globo. Ele defende que as crises do clima e da biodiversidade estão profundamente interligadas e, portanto, as conferências das Nações Unidas para ambos os problemas deveriam convergir.
“Me incomoda muito que as pessoas que vão às COPs da biodiversidade e do clima não são as mesmas. Se pensarmos na COP 17, da Biodiversidade, que ocorre em outubro na Armênia, e na COP 31, do Clima, em novembro, temos convergências temática, de financiamento, de desafios, são agendas comuns que precisam ser pensadas pelas mesmas pessoas”, defendeu Metzger. Ele também lamentou que a maior parte das pesquisas em SbN seja oriunda do Norte Global e não do Sul, sobretudo das áreas tropicais, que são onde as crises convergem.

Lacunas no conhecimento ameaçam a preservação de polinizadores
Exemplos de lacunas no conhecimento estabelecido foram abordados pela pesquisadora Luisa Carvalheiro, da UFG, especialista em insetos polinizadores. Segundo ela, as políticas de preservação brasileiras ainda focam muito em apenas alguns tipos de vegetação, o que prejudica a diversidade de polinizadores necessária para ecossistemas saudáveis. Atualmente, o país até possui um Plano de Ação Nacional voltado a reverter o declínio nas populações de polinizadores, mas o mesmo só pode definir áreas prioritárias com base no conhecimento existente. “Existe uma concentração enorme de áreas prioritárias nas zonas que são mais estudadas. No Norte e Centro-Oeste há uma escassez de áreas, não porque não sejam prioritárias, mas porque não são estudadas”, alertou.
As lacunas no conhecimento vão desde dados sobre a dieta das diferentes espécies, até morfologia e tolerância às alterações no ambiente. Uma solução tem sido olhar para a produção científica do Norte Global, mas isso pode gerar diagnósticos errados para o contexto brasileiro. “Um bom exemplo são as abelhas, 50% das espécies brasileiras nidificam, isto é, fazem suas colméias, acima do solo. Na europa, são 7%, e nos EUA, 15%. Precisamos tomar muito cuidado ao extrapolar a partir dos dados desses países”, afirmou.
Agricultura nas COPs: da mitigação para a adaptação
Para a diretora de Inovação Social da Embrapa, Ana Euler, as SbN são centrais para a adaptação climática da agricultura, tema que se torna cada vez mais relevante a cada COP. A pesquisadora, que esteve representando a instituição na COP 30, comemorou o impulso dado à adaptação nos debates, anteriormente muito focados em mitigação. “Vincular a agricultura à mitigação desloca a atenção da necessidade urgente de adaptarmos sistemas cada vez mais vulneráveis”, sumarizou.
Ela trouxe um histórico das discussões climáticas voltadas à agricultura, argumentando para uma mudança gradativa de foco da mitigação para a adaptação. Segundo ela, uma proposta de países africanos na última década defendia que a agricultura daquele continente assinasse compromissos de mitigação remunerados por créditos de carbono. “O Brasil contestou a viabilidade dessa iniciativa, argumentando que a remoção de carbono por sistemas agrícolas é lenta e insuficiente para gerar receitas para o produtor. Enquanto isso, eventos climáticos cada vez mais extremos e frequentes colocavam em risco quaisquer ganhos”.
Segundo Euler, a posição do Brasil mudou o alinhamento do Sul Global e desde então aqueles países colocaram mais peso na construção de resiliência para suas agriculturas. Ela trouxe exemplos do trabalho da Embrapa em adaptação climática e projetou o futuro das discussões para as próximas duas COPs. “Para 2026, na Turquia, devemos manter o foco na implementação mensurável e em escala das soluções para a agricultura, consolidando metas de adaptação e fortalecendo os sistemas de dados. Já para 2027, na Etiópia, devemos reorganizar o financiamento, com fluxo contínuo, previsível e soberano de dinheiro, baseado na autonomia dos países em desenvolvimento para propor suas trajetórias, e não num mapa do caminho global imposto pelo Norte”, defendeu.
Assista ao debate completo entre 11m e 2h35m do vídeo abaixo:
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