Para alguns pesquisadores, a vocação para a ciência se manifesta na infância, para outros, na graduação. Para a química Luiza Amim Mercante essa certeza demorou um pouco mais, se consolidando apenas no pós-doutorado. Até aquele momento, mesmo que já estivesse construindo uma carreira sólida, Luiza ainda enxergava seu futuro na indústria e não na academia.
A Acadêmica nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, mas viveu pouco tempo na cidade. A maior parte da infância passou em Miracema, pequeno município do noroeste fluminense. A química já despontava como uma de suas matérias favoritas na escola, e tinha na tia, Jenai, um exemplo de profissional na área. “Sempre admirei a forma como ela exercia a profissão, e sua influência foi importante para que eu também a escolhesse.”
Na hora do vestibular, Luiza se candidatou para os cursos de farmácia, química industrial e engenharia química, três áreas de bastante demanda no setor fabril. Aprovada em todas, optou pela química industrial na Universidade Federal Fluminense (UFF), confiante de que esse caminho a levaria à indústria. Mas, durante a trajetória, a pesquisa acadêmica aos poucos surgia como uma opção interessante. “Eu queria participar de atividades além das disciplinas e aproveitar de forma ampla a experiência universitária”, conta.
A Acadêmica se envolveu com a extensão logo no segundo período. No terceiro semestre, veio a iniciação científica no Laboratório de Magnetismo Molecular, sob orientação da professora Maria das Graças Vaz. “Meu interesse pela pesquisa surgiu durante a iniciação, a partir da vivência no laboratório. Desde então, tive a sorte de conviver com profissionais muito competentes, que sempre demonstraram grande dedicação e amor pela ciência, e de atuar em ambientes estimulantes e colaborativos”, reflete.
A experiência foi frutífera e Luiza defendeu seu trabalho de conclusão de curso sobre a síntese e caracterização de nanopartículas magnéticas. A qualidade da pesquisa, aliada ao longo período de desenvolvimento de projetos de iniciação científica, fez com que a Acadêmica ingressasse diretamente no doutorado em 2009, um ano após se formar. A parceria com a professora Maria Vaz se manteria, acrescida do professor Miguel Alexandre Novak como coorientador. Dessa vez, a Acadêmica se debruçaria sobre o potencial de aplicação das nanopartículas magnéticas na biomedicina. O programa possibilitou ainda um ano de intercâmbio na Universidade de Massachussetts em Amherst, Estados Unidos, quando foi orientada pelo professor Vincent Rotello. “A convivência com meus orientadores e colegas foi, sem dúvida, muito importante para minha formação científica e pessoal”, destaca.
Em 2013, com apenas 27 anos, Luiza obteve o título de doutora, e a precocidade lhe permitia vislumbrar muitos caminhos pela frente. No mesmo ano, ingressou em um pós-doutorado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), sob a supervisão dos Drs. Luiz Henrique Capparelli Mattoso e Daniel Souza Corrêa. Em 2015, mais uma experiência internacional, dessa vez no Instituto Catalão de Nanociência e Nanotecnologia (ICN2), Espanha. De volta ao Brasil em 2017, ingressou no seu terceiro pós-doutorado, pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Durante as idas e vindas, Luiza se especializava cada vez mais em nanociência e consolidava sua convicção na carreira acadêmica. “Passei a vivenciar de forma mais ampla a pesquisa, as colaborações e a formação de estudantes. Foi nesse período que percebi que queria construir minha trajetória como pesquisadora e professora”, relembra.
Foi então que em 2019 a Acadêmica foi aprovada em concurso para a Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde trabalha até hoje. Junto ao seu grupo de pesquisa, Luiza desenvolve suas pesquisas com nanomateriais aplicados principalmente para o desenvolvimento de sensores químicos. “Desenvolvemos materiais capazes de interagir com determinadas substâncias e gerar um sinal que possa ser medido, como uma mudança de cor ou uma alteração eletroquímica. Esses materiais podem ser usados, por exemplo, para detectar contaminantes na água ou nos alimentos, ou para avaliar condições de saúde. Nosso objetivo é contribuir para o desenvolvimento de análises mais simples, portáteis e acessíveis, que possam ser realizadas também fora de laboratórios especializados”, explica.
Encontrada a vocação, Luiza se encanta com as diferentes facetas da carreira de professora-pesquisadora. “Me encanta poder aprender algo todos os dias, seja no convívio com colegas ou em congressos. Me fascina poder produzir materiais que respondem a problemas concretos. Também é muito gratificante acompanhar a evolução dos meus alunos ao longo do tempo”.
Agora na ABC, a Acadêmica entende a escolha como uma honra e um incentivo para continuar pesquisando e formando novos cientistas. “É um reconhecimento da trajetória que venho construindo. Espero poder contribuir para iniciativas de divulgação científica, especialmente as voltadas para ampliar a visibilidade da ciência produzida na Bahia e no Nordeste”, conclui.