Aline Cavalcanti Queiroz adora velejar, diz que o mar é seu refúgio, onde encontra o equilíbrio necessário para a rotina de cientista. Em dias de calmaria, olhar para a linha do horizonte faz refletir, permite enxergar as coisas com calma. De volta à terra firme, a farmacêutica trabalha na busca incansável por novos medicamentos e tratamentos para doenças como leishmaniose ou câncer. O trabalho, que a fez ser escolhida como afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC), é fruto de uma trajetória construída com a ajuda de muita gente, e Aline faz questão de agradecer a cada um.
Nascida em Maceió, terra propícia para uma apaixonada pelo mar, a história de Aline foi construída quase toda na capital do Alagoas. Os pais, Cilene Cavalcanti e José Gonçalves, ensinaram às filhas o valor do conhecimento desde cedo e através do exemplo mostraram que para tudo é preciso persistência. “O estudo transforma vidas e é o motor mais potente de inclusão e emancipação social. Herdei essa paixão dos meus pais e vi essa transformação acontecer na minha vida”, reflete.
Nesse ambiente estimulante, Aline cresceu uma criança curiosa, daquelas que inventam experimentos para entender como o mundo funciona. Mas ser cientista parecia só uma brincadeira, seguir a carreira estava distante de seu imaginário. Na escola, as boas notas vinham naturalmente e o gosto por aprender fazia com que encontrasse algo para se apegar em cada disciplina, tendo dificuldade em citar uma preferida. Mesmo as decepções ajudavam, uma vez que o fato de não conseguir ter as notas máximas em química no ensino médio a motivaram a escolher cursar farmácia. “Era o elo perfeito entre a química desafiadora e a biologia que eu amava”, conta.
Em 2004, a jovem ingressou no curso de farmácia da Universidade Federal do Alagoas (UFAL) e logo no primeiro ano começou a iniciação científica sob orientação do professor Gaus Silvestre de Andrade Lima. Nesse período, estudou os fungos do gênero Aspergillos, muito comuns em grãos em condições inadequadas de armazenamento, podendo produzir toxinas que causam câncer de fígado. “Lembro dessa época com um carinho imenso, pois ali descobri minha vocação para a pesquisa”, reflete.
Ainda na graduação, Aline migrou para o recém-criado Laboratório de Farmacologia e Imunidade (LaFI – UFAL), sob orientação da professora Magna Suzana Alexandre Moreira, com quem trilharia até o doutorado. Entre graduação e mestrado, pesquisou compostos anti-inflamatórios e bloqueadores de dor extraídos da jurema-branca (Piptadenia stipulacea), arbusto muito comum na Caatinga. Quando chegou ao doutorado, passou a utilizar compostos sintéticos para o tratamento da leishmaniose in vitro e em camundongos. “A professora Magna é minha eterna orientadora e é uma satisfação indescritível tê-la hoje não apenas como mentora, mas como parceira científica em novos projetos”, afirma.
Aline obteve o título de doutora em 2015 e no ano seguinte ingressou como professora na UFAL. Atualmente, segue pesquisando no LaFI e nos laboratórios de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (LABMIP) e de Pesquisa em Recursos Naturais (LPqRN), todos na UFAL. “Dedico-me à busca e avaliação de novas substâncias que possam dar origem a medicamentos mais eficazes e menos tóxicos para duas doenças principais: a leishmaniose, doença parasitária grave e muito negligenciada; e o glioblastoma, um tipo de câncer cerebral altamente agressivo e sem cura atualmente. Além disso, unimos a saúde à tecnologia e iniciamos uma nova linha de pesquisa que envolve o uso da inteligência artificial para aprimoramento do diagnóstico de doenças negligenciadas”, explica a pesquisadora.
A pesquisadora considera entrar na Academia Brasileira de Ciências (ABC) como afiliada o maior marco de sua carreira até o momento, mas democratiza a conquista. “Ela traz a assinatura de muitas mãos. É fruto do apoio de minha mãe, Cilene, e toda minha família, incluindo meu companheiro, André de Lima Moura, pesquisador exemplar da UFAL que me inspira diariamente. Dos professores Gaus Silvestre, meu primeiro orientador, e Magna Suzana, minha eterna parceira científica; de cada aluno que orientei; dos meus valiosos colaboradores Alysson Duarte, Luiz Henrique Agra, João Xavier de Araújo Júnior, Antônio Euzébio Goulart, Marília Goulart, Camila Dornelas, Eduardo Fonseca, Lídia Lima, Tânia Sarmento e Celso Câmara; além das agências de fomento – Fapeal, CNPq e Capes – pelo suporte crucial. Sinto imenso orgulho de ter feito toda minha formação na UFAL”.
Proativa e persistente, Aline pretende atuar na ABC com foco em divulgação científica e no combate às assimetrias que persistem na ciência nacional, desde aquelas definidas pela região, até as definidas por gênero ou raça do cientista. “Considero que o trabalho científico nada mais é do que uma forma contínua de estudar. Se eu pudesse deixar uma mensagem para as próximas gerações, seria apenas uma palavra: ‘estudem!’. O verdadeiro diferencial da minha jornada foi o conhecimento adquirido. Vale o esforço, conhecimento é poder e liberdade!”.