Desvendando a lógica química da vida

Pergunte a uma criança sobre o que estuda um biólogo e ela provavelmente irá responder “os bichos!”. As mais astutas talvez incluam as plantas, porém é fato que o senso comum sobre a área tende a destacar os aspectos mais “macros” da vida. Mas também é fato que, para cada calouro que ingressa sonhando em pesquisar baleias ou elefantes, há uma profusão de caminhos alternativos através do mundo microscópico, desvendando os mistérios moleculares que constituem cada ser vivo. Foi o que aconteceu com o bioquímico Claudener Teixeira.

Nascido em Iguatu e criado em Juazeiro do Norte, no Ceará, Claudener teve uma infância ao ar livre, respirando a atmosfera vibrante de uma cidade marcada pela cultura sertaneja e pela fé. Seu pai trabalhava como garçom em uma cidade próxima, precisando passar períodos longe de casa. A distância era compensada pela mãe, o “coração da casa”, que sustentava Claudener e o irmão vendendo refeições para os romeiros de Padre Cícero que chegavam à Juazeiro em peregrinação. “Cresci vivenciando de perto esse trabalho duro”, conta o Acadêmico.

Na escola o jovem Claudener era um aluno curioso, especialmente por história e biologia, mas não imaginava que dali sairia uma carreira. A escolha de faculdade se deu quase por acaso, não se imaginava de jaleco branco em um laboratório, mas gostava de bichos e resolveu tentar a sorte na zoologia. Foi assim que ingressou, em 2007, na Universidade Regional do Cariri (URCA). “No começo da graduação eu nem sabia o que era bioquímica!”, enfatiza.

Logo no primeiro semestre, o calouro buscou um estágio em zoologia, mas durou só dois meses. “Foi uma experiência fundamental, pois ali descobri, com toda certeza, que zoologia não era para mim. Essa ‘escorregada’ inicial me abriu os olhos para o mundo invisível das moléculas. Percebi que o meu negócio não era observar os animais macroscópicos, mas desvendar a lógica química da vida”, reflete.

Após abandonar a primeira tentativa, Claudener aproveitou uma seleção de iniciação científica para um laboratório em bioquímica. A escolha deu frutos e logo no segundo semestre já era bolsista. “Foi ali, no dia a dia da bancada, manipulando reagentes, amostras e discutindo resultados, que eu percebi que pesquisar não era apenas uma matéria da faculdade, mas o que eu queria fazer pelo resto da vida”.

Sob orientação do professor Bruno Anderson Matias da Rocha, que foi membro afiliado da ABC entre 2015 e 2019, Claudener deu seus primeiros passos na área de prospecção molecular, ou seja, a busca ativa, entre a biodiversidade da região do Araripe, por moléculas com potencial biotecnológico ou terapêutico. O trabalho era completo, envolvia desde viagens a campo para coleta de animais e plantas, passando pela purificação e caracterização das moléculas em laboratório, chegando aos ensaios de aplicação tecnológica.

O Acadêmico graduou-se em 2010 e o passo seguinte o levou à Fortaleza, para mestrado e doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC). O primeiro fez sob orientação do Acadêmico Benildo Sousa Cavada e o segundo o trouxe de volta à colaboração com seu primeiro orientador, Bruno da Rocha. Durante a pós-graduação, Claudener se debruçou sobre uma classe específica de moléculas, as lectinas, proteínas que permanecem como o foco principal de sua pesquisa até hoje.

“As lectinas são um grupo de proteínas com uma super habilidade de reconhecer e se ligar a açúcares na superfície das células. Esse encaixe funciona como uma espécie de código ou chave molecular, essencial para a comunicação do nosso corpo e para a nossa imunidade. Como elas conseguem ‘conversar’ diretamente com as células, nós as estudamos para desenvolver soluções em saúde, que vão de testes diagnósticos mais rápidos a tratamentos farmacológicos inovadores contra infecções”, explica o Acadêmico.

Após doutorar-se em 2015, Claudener ingressou como professor na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde trabalhou até 2020. Desde então passou a lecionar na Universidade Federal do Cariri (UFCA), de volta às origens em Juazeiro do Norte. Para ele, o encanto da ciência está na transformação da curiosidade em respostas concretas. “É fascinante pensar que, no laboratório, podemos ser as primeiras pessoas no mundo a desvendar um mistério da natureza. Saber que uma proteína isolada hoje pode vir a se tornar a base para um novo exame ou tratamento, salvar vidas, é o que me move todos os dias”, celebra.

Agora na ABC, o Acadêmico se diz orgulhoso de representar a ciência feita no interior do Brasil. “É um reconhecimento de que nossa pesquisa tem força, rigor e relevância global. É um selo de orgulho para a ciência nordestina e cearense. Pretendo ser um defensor ativo do investimento na ciência de base, colaborando nas discussões sobre política científica e ajudando a interiorizar e democratizar o acesso ao conhecimento. Quero mostrar que o laboratório é um lugar de oportunidades para todos!”.

(MarcosTorres para ABC, 1/9/2026 | Fotos: Renner Boldrino)