Quando Sandeep Tiwari recorda a infância em Deoria, no estado de Uttar Pradesh, norte da Índia, as lembranças vão muito além das brincadeiras de críquete com os amigos da vizinhança ou da convivência em uma grande família tradicional. O que permanece mais vivo é um ensinamento recebido ainda menino e que, décadas depois, continua orientando sua vida como pesquisador.
Seu avô materno era professor de língua e literatura sânscritas e costumava repetir um antigo verso da tradição indiana segundo o qual o conhecimento é a maior riqueza que uma pessoa pode possuir. Diferentemente dos bens materiais, dizia ele, o conhecimento não pode ser roubado, confiscado ou perdido; ao contrário, cresce quanto mais é compartilhado.
Mais tarde, Sandeep compreenderia que essa ideia explicava não apenas a dedicação do avô ao ensino, mas também o enorme respeito que continuava recebendo de antigos alunos mesmo depois de aposentado. Ver o impacto positivo que um professor podia exercer sobre tantas pessoas despertou nele uma admiração duradoura pela educação e pela ciência. “Foi extremamente inspirador observar como ele transformava vidas por meio do conhecimento”, recorda.
Uma pessoa com propósito pode mudar seu entorno
Embora a família vivesse com recursos modestos, a educação sempre ocupou um lugar central dentro de casa. O pai trabalhava como agricultor em uma pequena propriedade rural da família. A mãe dedicava-se aos cuidados da casa e dos dois filhos. Ambos faziam questão de incentivar os estudos, convencidos de que a educação abriria oportunidades que eles próprios não haviam tido.
Do lado paterno, poucos familiares haviam seguido estudos avançados. Já entre os parentes maternos, praticamente todos possuíam formação universitária e mestrado em diferentes áreas. Crescer entre esses dois universos mostrou a Sandeep que a educação poderia transformar destinos.
Na escola, interessava-se especialmente por biologia, química e matemática. Gostava de ler, fazia perguntas sobre o funcionamento das coisas e buscava compreender os fenômenos naturais que observava ao seu redor. Sem perceber, começava a construir o caminho que o levaria à pesquisa científica.
Da microbiologia à bioinformática
Ao ingressar na Deen Dayal Upadhyaya Gorakhpur University, Sandeep escolheu cursar microbiologia industrial e química. A formação proporcionou contato com áreas como biotecnologia, bioquímica e biologia molecular, despertando um interesse crescente pelos mecanismos que regem os sistemas vivos.
Sandeep queria não só compreender esses processos, mas descobrir como o conhecimento científico poderia ser aplicado para enfrentar problemas concretos da sociedade.
A resposta surgiu durante o mestrado em bioinformática na Devi Ahilya University, em Indore. Ali conheceu uma área então em rápida expansão, que unia biologia, matemática e ciência da computação para interpretar enormes volumes de dados biológicos. A possibilidade de responder perguntas complexas por meio de ferramentas computacionais mudou definitivamente sua perspectiva sobre a pesquisa. “A experiência me mostrou como a pesquisa pode gerar novos conhecimentos e contribuir para avanços na saúde, na biotecnologia e nas ciências da vida”. Foi naquele momento que decidiu seguir carreira acadêmica.
Ao longo da graduação e do mestrado, encontrou professores que estimularam sua curiosidade e fortaleceram seu pensamento científico. Mais importante do que transmitir conteúdos, eles lhe ensinaram que fazer ciência significa trabalhar de forma colaborativa, sempre disposto a aprender e compartilhar conhecimento. Esse aprendizado encontraria um novo capítulo quando surgiu a oportunidade de realizar o doutorado no Brasil.
Um brasileiro por escolha científica
Sair da Índia para Belo Horizonte para cursar doutorado em Bioinformática na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) representou a maior transformação de sua trajetória até então. Além da mudança de país e de idioma, precisou adaptar-se a uma nova cultura acadêmica e construir uma rede de colaboração inteiramente nova.
O desafio foi recompensado por um ambiente científico que considera decisivo para sua formação. Sob orientação do Acadêmico Vasco Azevedo, Tiwari realizou o doutorado e o pós-doutorado em Bioinformática no Programa Interunidades da UFMG, aprofundando pesquisas em genômica e biologia computacional.
Ele conta que encontrou em Azevedo um mentor que influenciou profundamente sua forma de fazer ciência. “Sua visão acadêmica e dedicação à pesquisa influenciaram profundamente minha carreira”, diz, sobre Vasco Azevedo.
Também destaca o ambiente colaborativo criado pelos colegas de laboratório e pelos diversos parceiros de pesquisa. E nessa transição geográfica, o Brasil deixou de ser apenas o lugar onde realizava sua formação acadêmica para tornar-se parte de sua própria história.
Ao concluir o doutorado e o pós-doutorado, Sandeep decidiu permanecer no país, ampliando suas colaborações científicas e consolidando uma carreira voltada para a pesquisa e a formação de novos cientistas. Hoje é professor visitante da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde coordena o Laboratório de Bacteriologia e Saúde (Labacs), dando continuidade a uma trajetória construída entre diferentes culturas, instituições e equipes de pesquisa.
Bioinformática para acelerar descobertas
A área em que Sandeep Tiwari atua ainda é pouco conhecida fora do meio científico, embora esteja presente em alguns dos avanços mais importantes da medicina contemporânea.
A bioinformática reúne conhecimentos de biologia, computação, estatística e ciência de dados para analisar grandes volumes de informações biológicas que seriam impossíveis de interpretar apenas com experimentos tradicionais de laboratório. Em vez de testar milhares de possibilidades uma a uma, ferramentas computacionais permitem identificar rapidamente os candidatos mais promissores para novos medicamentos, vacinas e métodos de diagnóstico.
É exatamente nesse ponto que se concentra sua pesquisa. Utilizando grandes bases de dados genéticos de bactérias, vírus e outros microrganismos, sua equipe procura compreender como esses organismos evoluem, desenvolvem resistência a antibióticos e interagem com seus hospedeiros. Os modelos computacionais permitem selecionar, com muito mais rapidez e precisão, moléculas e alvos biológicos que poderão ser investigados experimentalmente.
“Em vez de realizar todos os experimentos em laboratório, utilizamos ferramentas computacionais para analisar milhões de informações biológicas e selecionar os candidatos mais promissores. Isso ajuda a economizar tempo, recursos e acelerar o desenvolvimento de soluções para problemas de saúde.”
Os resultados dessas pesquisas têm aplicações em áreas como doenças infecciosas, desenvolvimento de vacinas, medicina de precisão e resistência antimicrobiana — um dos maiores desafios da saúde pública mundial.
Para Tiwari, entretanto, a tecnologia nunca é um fim em si mesma. Computadores, algoritmos e inteligência artificial são ferramentas para responder perguntas biológicas relevantes e produzir conhecimento capaz de beneficiar a sociedade. Essa visão o acompanha desde o início da carreira e explica a maneira como costuma definir seu próprio trabalho: utilizar a ciência para resolver problemas reais.
Ciência sem fronteiras
Ao longo dos últimos anos, o Brasil tornou-se sua segunda casa. Foi aqui que realizou sua formação científica mais avançada, estabeleceu parcerias duradouras e encontrou um ambiente de pesquisa que considera decisivo para seu desenvolvimento profissional. Por isso, fala frequentemente de um sentimento de gratidão e de responsabilidade em relação à ciência brasileira.
A eleição como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências representa, para ele, o reconhecimento dessa trajetória construída em colaboração. “Receber esse título foi uma grande honra. Além de um reconhecimento individual, considero essa oportunidade uma forma de contribuir ainda mais para o fortalecimento da ciência no Brasil.”
Na Academia, pretende atuar especialmente em três frentes: estimular a divulgação científica, incentivar jovens estudantes a seguir carreira na pesquisa e fortalecer redes de cooperação entre instituições brasileiras e internacionais. Também espera compartilhar sua experiência em bioinformática, genômica e inteligência artificial aplicada às ciências da vida, áreas que vêm transformando a forma como pesquisadores compreendem organismos, doenças e processos biológicos.
Sua própria trajetória demonstra a importância dessa colaboração internacional. Formado na Índia, consolidado cientificamente no Brasil e conectado a redes globais de pesquisa, Sandeep acredita que os grandes desafios científicos do século XXI exigem conhecimento produzido de forma coletiva e sem fronteiras.
O conhecimento cresce quando é compartilhado
Fora do laboratório, Tiwari aprecia atividades que alimentam a curiosidade e ajudam a renovar o olhar sobre o mundo. Gosta de documentários, obras de ficção científica, caminhadas, meditação e de conhecer diferentes culturas, experiências que considera importantes para ampliar perspectivas e estimular novas ideias. Essa curiosidade permanente talvez seja o traço que melhor conecta sua vida pessoal à sua atuação como cientista.
Entre a pequena cidade de Deoria, no norte da Índia, e os laboratórios da Universidade Federal da Bahia, o ensinamento do avô que nunca esqueceu continua orientando sua trajetória: o conhecimento é a maior riqueza que alguém pode possuir porque, ao contrário dos bens materiais, cresce à medida que é compartilhado. Ao desenvolver pesquisas que aproximam biologia, computação e ciência de dados para enfrentar problemas de saúde, formar novos pesquisadores e fortalecer a colaboração internacional, Sandeep Tiwari reafirma a ideia de que o verdadeiro valor da ciência não está apenas nas descobertas que produz, mas na capacidade de compartilhar este conhecimento e colocá-lo a serviço da sociedade.