Conciliando carreiras

Fazer pesquisa no Brasil é trabalho duro, requer vocação e uma boa dose de resiliência, duas características marcantes na trajetória de José Edson Sampaio. Matemático e ex-desenvolvedor de softwares, atualmente professor na Universidade Federal do Ceará (UFC), Sampaio tomou posse como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 2026. Hoje, ele olha para trás com orgulho de um percurso desafiador, no qual teve de conciliar muita coisa, mas pelo qual seu talento para a matemática sempre falou mais alto.

José Edson Sampaio nasceu em Sâo Paulo, mas não se considera paulista. Antes de completar seu primeiro ano, a família se mudou para o interior do Ceará, para a comunidade rural do Sítio Cipó, no município de Milhã. Com dois anos veio uma nova mudança, para o Sítio Logradouro, no município vizinho de Solonópole. Lá ele viveu até completar dez anos, quando retornou para o Sítio Cipó, onde permaneceu até ir para a faculdade. Pelas idas e vindas, José diz que se considera milhaense, mesmo não tendo nascido por lá.

A infância foi divertida, mas dura, conciliando a escola com o trabalho no campo ao lado dos pais. Filho de pequenos agricultores, a rotina era dada pelas exigências de cada estação, mas José encontrava tempo para diversão, principalmente para o futebol e a bila, também conhecida como bilha ou bolinha de gude. Foi na escola que o talento para as exatas primeiro apareceu, mas pode-se dizer que o Acadêmico gostava de quase tudo, chegando a considerar ser historiador.

Quando chegou ao ensino médio, José passou a ter aulas de física e adorou. O caminho parecia decidido, apesar de seus amigos mais próximos insistirem que ele seria matemático. Estavam certos, pois graças a uma decisão tomada num instante, José ingressou numa estrada que o levaria por uma vida inteira. “Saí de casa para me inscrever no vestibular em física, mas, no momento de preencher o formulário, escolhi matemática”, conta.

Se o ensino básico foi de conciliação entre escola e campo, o ensino superior foi de conciliação entre a matemática e a computação. Em 2006, José Edson se mudou para a capital, onde cursaria duas graduações: em desenvolvimento de softwares pela Faculdade de Ciências Tecnológicas de Fortaleza (FCTFOR); e em matemática pela Universidade Federal do Ceará (UFC). “Foi um pouco caótico”, resume o Acadêmico.

Mas se a graduação foi caótica, a pós-graduação conseguiu superar. Isso porque, ao se formar desenvolvedor, José passou a dar aulas de programação numa cidade a 70 km de Fortaleza. No ano seguinte, ao graduar-se matemático, ingressou como professor no Instituto Federal do Ceará (IFCE), campus Quixadá, a 170 km da capital. José precisou conciliar mestrado e doutorado com a prática docente e os deslocamentos contínuos, mas permaneceu firme, obtendo o título de mestre em 2012, e doutor, em 2015. “Minha esposa, Syndel, foi muito importante por quase todo esse período, assim como meus pais, sobretudo minha mãe, pois me deram todo o suporte que podiam oferecer”, agradece o Acadêmico.

Em 2016 veio um importante marco, José Edson assumiu como professor de sua alma máter, a UFC, onde leciona e pesquisa até hoje. Em 2018 veio outro importante marco, José Edson saiu do país para fazer pós-doutorado no Basque Center for Applied Mathematics (BCAM), em Bilbao, Espanha. Em 2020, retorna ao Brasil, voltando para suas atividades de ensino e pesquisa na UFC.

“Eu sou da Teoria de Singularidades, que se preocupa em estudar o comportamento de pontos num determinado espaço que não se comportam como a maioria dos pontos ao seu redor. Trabalho primariamente com Geometria Lipschitz de Singularidades, e de maneira grosseira, estou interessado em saber, de maneira indireta, se uma superfície tem locais onde ela é pontiaguda, cortante, tem uma quina ou se é completamente lisa”, explica o pesquisador sobre sua pesquisa. Esse tipo de abordagem é muito usado, por exemplo, na modelagem computacional 3D, que pode vir a gerar novos materiais e produtos.

Como bom matemático, o Acadêmico é encantado com a resolução de problemas. “Trabalho em busca de um momento, que pode durar muito ou ser apenas um instante, que é quando dou uma prova para um problema, e este problema se torna, então, um teorema”, explica. “Como matemático puro, quero sempre advogar pelo financiamento à pesquisa fundamental, aquela que gera conhecimento de fronteira, mesmo sem aplicação imediata. Essa é a base de toda inovação futura”.

É com esse espírito que José Edson ingressa na ABC, pretendendo construir pontes nacionais e internacionais que possam cada vez mais alavancar a ciência de sua região. “Este título é um selo de qualidade, foi muito bom recebê-lo e ter esse reconhecimento à minha pesquisa”, conclui.

(Marcos Torres para ABC, 1/9/2026 | Fotos: Renner Boldrino)