Resumo:
- Momento geopolítico traz oportunidades de reposicionamento para os países em desenvolvimento, que podem ser aproveitadas com investimento estratégico em novas tecnologias.
- Trazer startups para dentro das universidades é crucial para desenvolver o ecossistema de inovação brasileiro.
- Financiamento à inovação deve ser dinâmico e considerar que o processo é inerentemente caótico.
- América Latina carece de mais centros de pesquisa compartilhados entre os países.
No dia 8 de junho, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) sediou o encontro A Interface Ciência-Inovação na América Latina, organizado em parceria com a Rede InterAmericana de Academias de Ciências (Ianas) e com patrocínio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Governo Federal. Durante o encontro, expoentes da inovação nacional, representantes de agências de financiamento e de academias nacionais do continente discutiram as melhores formas de transformar pesquisa em desenvolvimento concreto para a região. “Nossos países ainda não entenderam o papel da ciência para a economia, desenvolvimento e combate às desigualdades”, afirmou a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, abrindo o encontro.
Oportunidades para o mundo em desenvolvimento
A primeira palestra ficou a cargo do presidente da Finep, Luiz Antonio Elias, que fez uma defesa enfática do desenvolvimento induzido. Segundo afirmou, o atual cenário de instabilidade geopolítica e reorganização das cadeias globais de valor oferece uma grande oportunidade de reinserção para os países da América Latina. “Não podemos nos contentar em sermos fornecedores de commodities e acharmos que isso fará a diferença na nossa relação com o mundo”.
Elias comemorou o crescimento nos valores investidos através do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), hoje o maior instrumento de fomento à ciência nacional. Após conviver com contingenciamentos entre 2016 e 2022, o FNDCT ganhou novo fôlego desde 2023. “Nos últimos três anos foram R$ 9 bi investidos de forma direta, recursos não-reembolsáveis. Isso é três vezes mais do que no período anterior”. Ele também elogiou os acordos firmados com fundações estaduais de amparo à pesquisa, que contribuem “na capacidade de olhar para o local e apontar caminhos”.

Startups nas universidades: conexão fundamental
O físico e Acadêmico Vanderlei Bagnato, ex-coordenador da Agência USP de Inovação, defendeu que inovar na academia é um estado de constante alerta às utilidades que a pesquisa pode vir a ter. Segundo ele, a universidade deve atuar como facilitadora, trazendo empresas para dentro do campus. “As melhores infraestruturas científicas da América Latina estão nas universidades. É mais barato investir em startups trazendo elas para dentro do que pagar para que construam infraestrutura própria”, avaliou.
O Acadêmico elogiou o trabalho das Unidades Embrapii, mas criticou a falta de mais empresas dentro do ecossistema universitário. “De cada um milhão de ideias, mil são provadas em princípio; cem são capazes de virar protótipo; dez viram produto; e uma vira sucesso de mercado. Aonde temos ideias todos os dias? Na academia. Quem faz a prova de princípio? A academia. Quem chega ao protótipo? A academia. Mas quem cria o produto? Empresas. Quem conquista mercado? Empresas”, resumiu.
Na mesma linha, o engenheiro Jorge Audy, superintendente de Inovação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC RS), defendeu as incubadoras de startups como absolutamente centrais para atingirmos a inovação. “A única coisa em comum às dez maiores empresas do mundo é que nasceram dentro de um ecossistema de inovação acadêmico”, frisou.
Trazendo o exemplo da Google, fundada por dois alunos de doutorado de Stanford, Audy afirmou que a empresa segue gerando dividendos para a universidade até hoje. “Nas últimas décadas tivemos dois ‘unicórnios’ surgidos em universidades no Brasil, a GetNet e a Aquiles, ambas compradas por bilhão de dólares. Foram negócios incríveis para os estudantes, mas as universidades não receberam nada. Isso porque temos uma dificuldade enorme em criar mecanismos que façam com que as instituições fiquem com um pouco dos resultados”, criticou o palestrante.
Representando a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o engenheiro e empresário Pedro Wongtschowski também defendeu os ecossistemas de startups como fundamentais para trazer densidade e interação entre os empresários. Ele defendeu que startups brasileiras precisam nascer voltadas para o mundo, falando inglês e mirando o mercado externo. “Temos no Brasil um número crescente de startups qualificadas em saúde, biotecnologia, fintechs e outras áreas. Temos hubs importantes em Florianópolis, São Paulo, São José dos Campos, Recife, Campina Grande e outras cidades. Um problema que eu vejo é que, como o Brasil é muito grande, muitas insistem em só falar português e só olhar para o mercado interno”, criticou.

Bons modelos de fomento são dinâmicos e compartilham riscos
O diretor de operações da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), Marcelo Prim, defendeu que o sucesso do modelo vem do compartilhamento de riscos e do fortalecimento da confiança mútua entre academia e empresas. Apesar de inspirada no sucesso da Embrapa, a Embrapii oferece um formato diferente. “Nós credenciamos grupos de pesquisa que já possuem excelência operacional e relação estabelecida com a indústria. Oferecemos um selo de qualidade”.
A partir daí, empresas interessadas em compartilhar os riscos e benefícios da inovação podem escolher o grupo e o projeto com o qual desejam trabalhar, dividindo os custos com a unidade escolhida e a própria Embrapii. Por não depender de chamadas e editais, o processo é considerado desburocratizado e ágil, características fundamentais para a inovação. Mas para além da agilidade, continuidade e redundância também são cruciais. “Considero que neste último o Brasil ainda peca, deveríamos testar mais modelos, estimular institutos a competirem entre si. A experiência internacional mostra que isso dá resultado”, sugeriu Prim.
A crítica aos modelos engessados de financiamento foi compartilhada por alguns dos panelistas. “Nosso modelo de gestão de recursos públicos ainda segue uma lógica cartesiana, temos de já saber na partida quanto e para quê cada centavo será usado. Mas a inovação é inerentemente caótica”, resumiu Ruy de Araújo Caldas, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). “Precisamos urgentemente evoluir para um modelo de grants que privilegie o resultado, não este modelo atual em que perdemos tempo demais com rubricas”, complementou Jorge Audy.
Outra crítica recorrente é de que os procuradores federais nas instituições públicas de pesquisa muitas vezes travam projetos de inovação por insegurança jurídica. Representando o Laboratório de Inovação da Advocacia-Geral da União, o jurista Bruno Portela defendeu que, entre os Marcos Legais de CT&I e das Startups e a Lei de Licitações, o Brasil possui mais de vinte instrumentos jurídicos que permitem aos pesquisadores perseguirem a inovação com segurança. “O problema é que a maioria dos advogados públicos ainda não está familiarizado com eles. Por isso, estamos organizando caravanas por todo o Brasil para apresentar os mecanismos”, garantiu.
Para além do financiamento direto, outra importante ferramenta é o estímulo à demanda, conforme destacou o diretor de Projetos Estratégicos do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Caetano Penna. Ele trouxe exemplos de subprogramas dentro da iniciativa Inova Empresas, da Finep e BNDES, que funcionaram ou deixaram de funcionar pela influência da demanda. “Nos biocombustíveis, o mandato de mistura do etanol na gasolina garantiu demanda; no caso da Saúde, o poder de compra do SUS; já no Agro, foi graças a demanda já existente no próprio mercado. Mas nas áreas de Petróleo e Aerodefesa não tivemos inovação porque não houve garantia de compra pela Petrobras, no caso do primeiro, e pelo Ministério da Defesa e Agência Espacial Brasileira, no caso da segunda”, descreveu.

Mais cooperação para os desafios da América Latina
Um dos expoentes brasileiros em inteligência artificial, o cientista da computação Virgílio Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ministrou uma palestra sobre os usos inovadores da IA que a Ucrânia vem encontrando na guerra. A IA está sendo usada desde o controle de drones até a tomada de decisões. “Se por um lado ela retira o soldado do risco direto, por outro a IA acelera os processos, fazendo com que o conflito escale mais rápido”, advertiu Almeida.
Mas o exemplo ucraniano traz uma lição diferente para o Brasil e a América Latina: a de que a IA floresce quando aplicada aos desafios locais. Representantes das academias nacionais de Argentina, Chile, Colombia, Costa Rica e Panamá tiveram a oportunidade de compartilhar um pouco do trabalho de suas instituições e os desafios que enfrentam atualmente. Entre a falta de investimento e incertezas políticas, todos concordaram que a IA é um dos temas centrais para o futuro.
“Entre as Big Techs, há uma visão neocolonial de que os países em desenvolvimento não precisam desenvolver IA, mas comprar as deles. As relações entre os países hoje estão centradas nessa tecnologia, então é claro que Brasil e América Latina precisam desenvolver as suas”, reforçou Almeida, que aproveitou para criticar o Plano Brasileiro de IA, lançado em agosto de 2024. “Ainda não vimos nada de concreto do Plano, estamos numa época em que as decisões precisam ser rápidas para serem efetivas”.
Sobre a interação latino-americana, Vanderlei Bagnato criticou a cooperação ainda tímida no continente. “Temos estrutura, mas quantos consórcios existem entre os países da América Latina e Caribe? Na Europa não existem centros em cada país. Nenhum país sozinho terá fôlego para competir com as potências”, alertou.

O que pensam as Academias Latino-americanas
Ao final do encontro, representantes das Academias de Argentina, Chile, Colombia, Costa Rica, Panamá e da Ianas, tiveram a oportunidade de compartilhar a experiência de seus países na inovação. A programação original também contava com o presidente da Academia Nacional de Ciencias do Peru, que não pôde comparecer devido a questões de saúde. Apesar disso, a instituição está entre as signatárias da declaração final. Confira os principais pontos das falas:
Argentina: Alicia Dickenstein, presidente da Academia Nacional de Ciencias Exactas, Físicas e Naturales (ANCEFN), destacou o momento de estrangulamento financeiro que vive a ciência argentina e elogiou a quantidade de agências de fomento do ecossistema brasileiro. Apesar das restrições, ela citou os prêmios concedidos pela instituição nos últimos anos, reconhecendo inovações em energia nuclear, satélites, biodiesel, câncer e covid-19.
Chile: Sergio Lavandero, presidente da Academia Chilena de Ciencias, destacou o papel da instituição no acompanhamento de políticas voltadas à inovação no país, citando uma nova lei que busca aproximar o setor acadêmico das empresas. Para ele, inovação requer uma mudanças cultural profunda, incluindo a forma como a academia se comunica e enfrenta o problema crescente da desinformação.
Colombia: Carlos Alberto Vargas, presidente da Academia Colombiana de Ciências Exatas, Físicas e Naturais (ACCEFYN), lembrou que o país está às vésperas de um segundo turno presidencial acirrado, no qual ambos os candidatos tem planos tímidos relacionados à ciência. Para ele, além do problema estrutural do baixo investimento, a pouca interação entre os atores do ecossistema também precisa ser pensada. “Precisamos institucionalizar com mais força a ciência”, resumiu.
Costa Rica: Guillermo Alvarado, tesoureiro da Academia Nacional de Ciencias de Costa Rica, destacou o assessoramento da instituição ao governo, particularmente na questão sísmica, já que a Costa Rica convive com terremotos. Ele também destacou um projeto de comunicação científica nos parques nacionais, que cobrem 25% da área nacional e se tornaram destinos turísticos visados. Entre os problemas, enfatizou a falta de investimento e a pouca interação entre os laboratórios.
Panamá: Mairim Solis, vice-presidente da Asociación Panameña para el Avance de la Ciencia (Apanac), destacou o papel da entidade na criação de pontes entre governo, cientistas e universidades para o estímulo da ciência, tecnologia, inovação e educação no país. Ela defendeu que a articulação não deve ser apenas nacional, mas regional e que países com ciência mais consolidada podem ajudar nessa empreitada.
Leia a Declaração Final do evento:
Assista ao evento na íntegra:
