Leia artigo do físico Celso Pinto de Melo, professor titular aposentado da UFPE, pesquisador 1A do CNPq e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. publicado em seu blog e no GGN:
Este é o primeiro de dois artigos que examinam, em perspectiva comparada, a experiência internacional da indústria farmacêutica e suas implicações estratégicas para o Brasil.
No texto introdutório que antecede esta série, publicado em meu Substack sob o título ‘O remédio e a fábrica: o elo invisível do poder industrial‘, argumentei que medicamentos não são apenas produtos de saúde, mas também a expressão visível de uma infraestrutura produtiva, científica e tecnológica muito mais ampla. Este primeiro artigo aprofunda essa discussão examinando o caso da Índia, talvez o exemplo mais bem-sucedido de construção deliberada dessa infraestrutura no mundo em desenvolvimento.
No início dos anos 2000, o tratamento anual contra o HIV/AIDS podia ultrapassar US$ 10 mil por paciente. Em poucos anos, esse valor caiu para algumas centenas de dólares. A mudança não foi resultado de uma ruptura científica súbita, mas de uma transformação produtiva e política: a entrada de fabricantes indianos no mercado global de medicamentos genéricos. Empresas como a Cipla passaram a produzir versões equivalentes de fármacos existentes a custos drasticamente inferiores, alterando não apenas o preço, mas o próprio acesso a tratamentos em países de baixa e média renda [1].
O episódio tornou visível um fato mais profundo: a Índia havia se tornado, silenciosamente, um dos principais polos farmacêuticos do mundo. Hoje, responde por cerca de um quinto do volume global de medicamentos genéricos, com presença consolidada em mercados regulados e forte capacidade exportadora.
A pergunta que se impõe não é apenas como isso foi possível, mas também o que essa trajetória revela sobre a organização do poder industrial contemporâneo.
A decisão fundadora
O ponto de inflexão remonta a 1970, quando a Índia reformou profundamente a sua legislação de propriedade intelectual. A nova lei aboliu as patentes de produto para medicamentos, mantendo apenas as de processo. Essa decisão abriu espaço para que empresas locais reproduzissem moléculas existentes por rotas alternativas de síntese, inaugurando um ciclo de aprendizado tecnológico centrado na engenharia química [3].
Longe de ser uma simples flexibilização regulatória, tratava-se de uma política industrial explícita. Ao permitir a engenharia reversa, o Estado indiano criou as condições para que empresas domésticas desenvolvessem competências em química fina e em processos produtivos. O objetivo não era competir imediatamente na fronteira da inovação, e sim construir capacidade interna.
Esse movimento deve ser compreendido à luz do contexto histórico. Como observa Chaudhuri, muitos países hoje desenvolvidos se utilizaram de estratégias semelhantes em fases anteriores de industrialização. A diferença, no caso indiano, foi a escala e a persistência dessa política.
Aprender produzindo
A abertura regulatória só produziu resultados porque foi acompanhada por um processo sistemático de aprendizado produtivo. Empresas indianas passaram a dominar não apenas a formulação de medicamentos, mas também as etapas intermediárias e, progressivamente, a produção de insumos farmacêuticos ativos (IFAs). Esse domínio exigiu o desenvolvimento de competências em síntese química, engenharia de processos e controle de qualidade.
Leia o artigo seguinte, que fecha a série:
Por que o Brasil precisa de uma missão farmacêutica nacional