Por que o Brasil precisa de uma missão farmacêutica nacional

Leia artigo de Celso P. de Melo, professor titular aposentado da UFPE, pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências, publicado no GGN, em 1/6:

Entre capacidades dispersas e poder não realizado: o desafio de integrar ciência, indústria e Estado em uma estratégia de longo prazo

No artigo anterior vimos que a ascensão da indústria farmacêutica indiana não resultou apenas de investimentos ou de um grande mercado interno. Ela decorreu da construção paciente de um elo invisível entre ciência, produção, aprendizado tecnológico e escala industrial.

A pergunta agora é outra: o Brasil possui condições de construir esse mesmo elo?

Capacidade existe. O que falta é sistema.

O diagnóstico é conhecido. O Brasil dispõe de instituições científicas relevantes, de capacidade produtiva instalada e de um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. Ainda assim, permanece dependente da importação de insumos farmacêuticos críticos, especialmente os insumos farmacêuticos ativos (IFAs), que estruturam toda a cadeia produtiva [1, 2].

Essa dependência não decorre da ausência de capacidades, mas de sua fragmentação.

Como discutido no artigo anterior, a trajetória da Índia foi marcada por uma lógica distinta: o domínio do processo produtivo como base para a construção de escala e inserção internacional [3, 4].]

A experiência indiana mostrou que a construção de poder farmacêutico não começou com a descoberta de novas moléculas, mas com o domínio progressivo dos processos produtivos, da química fina e dos insumos farmacêuticos ativos.

A questão que se coloca agora é saber por que o Brasil, dispondo de ativos científicos e institucionais expressivos, ainda não conseguiu produzir resultado semelhante.

A diferença central talvez esteja menos na disponibilidade de ativos isolados e mais na capacidade de articulá-los ao longo do tempo em uma estratégia industrial coerente.

Ilhas de capacidade: um sistema que não se conecta

(…)

Como essa figura revela, os principais ativos científicos, produtivos e institucionais existem e estão distribuídos no território nacional, mas operam com baixa densidade de conexões. O resultado é um sistema com elevada capacidade potencial, porém incapaz de gerar escala industrial de forma coordenada.

O efeito é uma situação paradoxal: capacidades relevantes existem, mas permanecem insuficientemente integradas para produzir densidade industrial e autonomia estratégica.

A estrutura produtiva brasileira no setor farmacêutico pode ser descrita como um conjunto de “ilhas de capacidade” – instituições, empresas e centros de pesquisa que operam com baixa integração sistêmica [5].

Essa imagem de fragmentação não é exclusiva do setor farmacêutico. Em análise anterior, ao discutir o padrão de desenvolvimento brasileiro, descrevi o país como um “arquipélago de capacidades” – ilhas produtivas e institucionais que coexistem sem integração sistêmica consistente [6]. O diagnóstico aqui é, em essência, o mesmo, aplicado a um setor estratégico.

O gargalo estrutural: o elo que não fecha

O ponto mais crítico dessa fragmentação é a produção de IFAs. Apesar da existência de uma indústria farmacêutica relevante na etapa de formulação, a dependência de insumos importados permanece elevada, concentrada principalmente na Ásia [11].

Essa dependência não é homogênea – e varia conforme a criticidade dos produtos. Para explicitar essa heterogeneidade, é útil organizar o problema em termos de risco sistêmico, combinando a dependência externa e a importância sanitária.

(…)
(Celso P. de Melo para GGN, 1/6/2026)