Texto adaptado de Fapeg
No dia 26 de fevereiro, quatro Acadêmicos foram premiados com o segundo lugar na modalidade “Inovação de Processos” do Prêmio Inova UFSC 2025, um dos eventos mais importantes da inovação científica brasileira. O reconhecimento se deu por uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (IQ – UFG) voltada à síntese sustentável de compostos com potencial terapêutico para o Alzheimer.
O trabalho foi conduzido pelos membros afiliados Sumbal Saba (UFG) e Jamal Rafique (UFG e UFMS), com participação do também afiliado Tiago Elias Frizon (UFSC) e do membro titular Antonio Luiz Braga (UFSC). O resultado foi uma patente, cuja autora principal é Sumbal Saba, concedida à UFG intitulada “Síntese de Derivados de Acil Selenoureia com Ação Antioxidante e Inibidora da Acetilcolinesterase para o Tratamento da Doença de Alzheimer”. A pesquisa contou com o apoio crucial da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg)
De acordo com Sumbal Saba, o composto mais promissor (identificado como Im) apresentou atividade superior à do medicamento comercial galantamina, atualmente uma das referências no tratamento de Alzheimer. Além disso, os compostos demonstraram forte ação antioxidante por múltiplos mecanismos simultaneamente, característica considerada estratégica no combate aos processos neurodegenerativos. A produção dessas moléculas utiliza técnicas de Química Verde e Síntese Sustentável: reações rápidas com irradiação por micro-ondas, solventes sustentáveis e sem geração de resíduos tóxicos. Ainda de acordo com a pesquisadora, o processo é escalável e promissor para futura produção farmacêutica.
Para explicar o mecanismo de ação, Sumbal Saba utiliza uma analogia simples: o cérebro de uma pessoa com Alzheimer pode ser comparado a uma cidade em que os serviços de comunicação começam a falhar progressivamente. Nesse cenário, as pequenas moléculas desenvolvidas pelo grupo, sintetizadas por rota verde, chamadas de derivados de acil selenoureia, atuariam como “técnicos de reparo” nessa cidade. Elas bloqueiam a enzima responsável por degradar o sinal de comunicação entre os neurônios e, ao mesmo tempo, combatem o estresse oxidativo, outro grande vilão da doença, um dos principais fatores associados à progressão do Alzheimer.
Desafios e perspectivas futuras
A professora Sumbal Saba reforça que a jornada como mulher, mãe e cientista emergente no Centro-Oeste (a pesquisadora é paquistanesa), liderando pesquisa de fronteira em Goiás, é também uma mensagem de que a ciência transformadora pode emergir de qualquer lugar, desde que haja talento, determinação e apoio institucional adequado.
Para ela, a concessão da patente representa apenas o início de uma jornada científica e tecnológica mais ampla. Os próximos passos, segundo ela, têm dois eixos principais: o aprofundamento científico e a transferência da tecnologia para aplicação real.
No campo científico, os ensaios pré-clínicos são a prioridade imediata, nos quais os compostos mais promissores serão testados em modelos celulares e animais para avaliar segurança, farmacocinética (como o composto se comporta no organismo) e eficácia terapêutica in vivo. Em paralelo, o grupo continuará otimizando as moléculas, buscando ampliar ainda mais a potência e reduzir possíveis efeitos colaterais.
“No campo da inovação, buscamos parceiros industriais, farmacêuticas e empresas de biotecnologia, interessados em licenciar a tecnologia patenteada para desenvolvimento de um futuro candidato a fármaco contra Alzheimer. A escalabilidade comprovada do processo (de 1 mmol a 10 mol com 83 a 94% de rendimento) é um argumento técnico robusto para essa conversa”, pontua.
A expectativa é que, em um horizonte de cinco a dez anos, ao menos um dos compostos desenvolvidos no Laboratório de Síntese Sustentável e Organocalcogênio (LabSO-UFG) possa avançar para fases clínicas, tornando-se um dos primeiros candidatos a fármaco contra Alzheimer originado integralmente em uma universidade pública brasileira e na região Centro-Oeste.
O laboratório segue formando novos pesquisadores em química medicinal e sustentável, doutores e mestres que levarão essa expertise para outros laboratórios, empresas e instituições em todo o Brasil, multiplicando o impacto do que foi construído em Goiás, afirma a pesquisadora.