Mulheres continuam sub-representadas em organizações científicas, mostra novo relatório

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Em 11 de fevereiro de 2026, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o Conselho Internacional de Ciência (ISC), a Parceria InterAcademias (IAP) e o Comitê Permanente pela Equidade de Gênero na Ciência (SCGES) lançaram um novo relatório global que examina a igualdade de gênero em organizações científicas. O relatório “Towards gender equality in scientific organizations: assessment and recommendations conclui que a representação nessas instituições continua aquém da composição da comunidade científica em geral, ressaltando a necessidade de ação institucional contínua.

As mulheres representam uma parcela crescente da força de trabalho científica global (31,1% dos pesquisadores no mundo em 2022, segundo a UNESCO), mas continuam sub-representadas nas organizações que moldam o reconhecimento científico, a liderança e a tomada de decisões. O novo relatório conclui que a representação feminina nas academias científicas e nas uniões científicas internacionais está em 19%. Este é o terceiro relatório global do ISC e mostra um crescimento com relação aos anteriores. Em 2015, esse número era de 12%, enquanto em 2020, 16%. Vale ressaltar que a Academia Brasileira de Ciências (ABC) é uma das instituições que apoiou e participou de todos os levantamentos até aqui.

Academias científicas e uniões científicas internacionais desempenham um papel importante na definição de agendas e normas científicas, no reconhecimento da excelência científica e no assessoramento de formuladores de políticas públicas. Por meio dessas funções, influenciam fortemente quais expertises se tornam visíveis e quais vozes moldam a ciência. A persistente sub-representação nessas instituições levanta questões sobre inclusão, legitimidade e a identificação e o aproveitamento eficaz do talento científico.

O relatório apresenta a avaliação global mais abrangente até o momento sobre igualdade de gênero em organizações científicas. Com base em dados institucionais de mais de 130 academias e uniões científicas internacionais, além de respostas de quase 600 cientistas em todo o mundo, o estudo analisa padrões de representação, participação e liderança de mulheres cientistas a partir de dados coletados em 2025.

O que a evidência mostra

Desde 2015, com a publicação da primeira edição do estudo, a representação feminina aumentou modestamente, em média, mas o progresso tem sido desigual.

As mulheres continuam sub-representadas em cargos de liderança, órgãos de governança e sistemas de reconhecimento, como posições seniores e prêmios. Nas academias nacionais, as mulheres representam, em média, 19% dos membros em 2025, acima dos 12% em 2015 (primeira edição) e dos 16% em 2020 (segunda edição), com grande variação entre instituições, que vai de menos de 5% a quase 40%.

A sub-representação é mais acentuada na liderança sênior: entre 50 academias nacionais, apenas 20% têm atualmente uma mulher presidente, um aumento modesto em relação aos 17% em 2015 e sem mudança desde 2020. Nas uniões científicas internacionais, a representação geral reflete em grande parte a composição de gênero das disciplinas, enquanto a presença de mulheres na liderança é comparativamente mais alta, em torno de 40% nas uniões.

Essas lacunas não podem ser explicadas apenas pelo efeito de “gargalo”. Em vez disso, os processos institucionais são determinantes. As desigualdades de gênero na representação não resultam principalmente de restrições explícitas de elegibilidade. A maioria das organizações científicas relata procedimentos formalmente abertos e baseados no mérito. No entanto, práticas de indicação, normas de seleção e a dependência de redes informais continuam a influenciar quem é identificado, incentivado e indicado. Como resultado, as mulheres permanecem sub-representadas nos grupos de indicação em relação à sua presença entre os cientistas elegíveis.

Muitas organizações introduziram iniciativas ou declarações de políticas voltadas para a promoção da igualdade de gênero. No entanto, essas medidas costumam ter alcance limitado, concentrando-se em conscientização ou incentivo, em vez de mudanças nos processos organizacionais centrais. Além disso, em sua grande maioria, não são acompanhadas de recursos dedicados, mandatos claros ou estruturas de governança incorporadas, o que reduz ainda mais seu impacto.

Experiências reais por trás dos dados

As respostas da pesquisa individual com cientistas ilustram como esses padrões são vivenciados na prática. As mulheres que ingressam em organizações científicas participam em níveis comparáveis aos dos homens, mas isso não se traduz em progressão ou reconhecimento equivalentes. As mulheres têm três vezes mais probabilidade de relatar barreiras ao avanço, incluindo oportunidades perdidas associadas a responsabilidades de cuidado.

Em diferentes disciplinas e contextos organizacionais, as mulheres também são significativamente (4,5 vezes) mais propensas do que os homens a relatar experiências de assédio e microagressões, além de expressar níveis mais baixos de confiança na transparência dos processos de seleção e nos mecanismos de denúncia e tratamento de condutas inadequadas.

Um estudo piloto anterior havia documentado as estratégias que as mulheres utilizam para navegar nesses ambientes, incluindo o engajamento direcionado no nível internacional, a dependência de redes de mulheres e a atuação em advocacy — compensando individualmente lacunas institucionais, em vez de se beneficiarem de apoio sistêmico.

Do diagnóstico à ação

Em vez de propor metas fixas, o relatório identifica um conjunto de alavancas institucionais que podem apoiar uma participação, liderança e reconhecimento mais justos. Entre elas estão reformas nos processos de indicação e seleção, a melhoria na coleta e no uso de dados desagregados por gênero e o fortalecimento das práticas de monitoramento e avaliação. O relatório também destaca boas práticas de organizações científicas nas quais mudanças em regras e estruturas formais sustentaram progressos mais duradouros.

Em conjunto, os resultados apontam para um desafio estrutural, e não para a falta de mulheres qualificadas. As organizações científicas continuam moldadas por práticas de longa data que influenciam quem é indicado, selecionado, reconhecido e ouvido. Ao documentar esses mecanismos em diferentes instituições e disciplinas, o relatório oferece uma base robusta de evidências para apoiar práticas organizacionais mais transparentes, responsáveis e inclusivas. Enfrentar as desigualdades de gênero na liderança científica não é uma questão simbólica, mas de eficácia institucional, legitimidade e uso responsável da expertise científica em um contexto global complexo.

Confira alguns destaques do relatório:

(adaptado de ISC)