Macaco também faz de conta

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Leia matéria de Paloma Oliveto publicada no Correio Braziliense em 6 de fevereiro:

A capacidade de imaginar algo que não está presente — ou mesmo que não existe — é uma das bases da cognição humana. Ela sustenta o pensamento sobre o futuro, a compreensão das crenças dos outros, o raciocínio sobre hipóteses e o próprio faz de conta infantil. Agora, um estudo publicado na revista Science mostra que essa habilidade pode não ser exclusivamente humana. Experimentos com um bonobo sugerem que a capacidade de formar “representações secundárias” — manter na mente uma versão imaginada da realidade — pode remontar ao ancestral comum entre humanos e outros grandes primatas, que viveu entre 6 milhões e 9 milhões de anos atrás.

Os pesquisadores Amalia P. M. Bastos e Christopher Krupenye, da Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos, queriam descobrir se Kanzi, um bonobo de 43 anos treinado em linguagem simbólica, seria capaz de acompanhar a localização de objetos inexistentes em situações de faz de conta compartilhado — como tomar chá “de mentirinha”. Os resultados indicam que sim.

(…)

Três perguntas para Carlos Menck, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências

Se um bonobo demonstrou capacidade de formar representações mentais de objetos “imaginários”, o que isso sugere sobre a origem evolutiva da cognição simbólica?

Acho que isso acaba sendo uma evidência bastante forte de que existe essa cognição simbólica. Então, essa capacidade de prever os objetos pretendidos, como diz no trabalho, já existia na natureza. Há vários outros dados que indicam isso, não só nos primatas, que são próximos a nós, mas até em animais domésticos. Várias vezes se questiona se o cachorro respondeu de tal forma porque devia estar com uma capacidade imaginária abstrata na sua cabeça. Então, isso existe. Eu acho que tudo caminha mesmo para ser essa a resposta.

Até que ponto o treinamento linguístico e a enculturação podem ter ampliado capacidades cognitivas já existentes nesses animais, em vez de terem criado algo totalmente novo do ponto de vista evolutivo?

O treinamento linguístico desse animal ajudou os pesquisadores a observarem a capacidade de abstração do bonobo, não tenho dúvidas. E isso traz um ponto muito importante, que é a questão de cultura. Qual foi o ponto em que a gente teve evolução cultural? Eu acho que existiu uma evolução genética clara até o momento em que conseguimos desenvolver uma habilidade de fala, de comunicação muito complexa, e suficiente para que a gente fizesse essa comunicação entre os seres humanos. O desenvolvimento da fala permitiu o começo de uma evolução cultural muito mais rápida. Já exista nos animais, por exemplo, a habilidade de desenvolver ferramentas e de usá-las com objetivos claros. Mas, a partir do momento em que o ser humano mostrou capacidade de comunicação mais complexa, permitiu uma evolução muito mais rápida, cultural. Depois, veio a escrita, que foi outro salto na evolução cultural, pois representa uma melhoria na nossa capacidade de comunicação.

Quais implicações esse tipo de descoberta traz para o debate sobre teoria da mente e atribuição de estados mentais em outros primatas?

O impacto é que isso ajuda a reforçar a ideia de que a capacidade de abstração está nos animais. O ser humano tomou um caminho que foi possível pela comunicação. Mas não tenho dúvidas de que os animais têm uma capacidade de entender coisas. Por exemplo, quando uma ave pesca, ela pode tentar pensar um pouco qual a melhor forma de pescar, não é só algo que recebeu geneticamente, é um raciocínio de certa forma abstrato que a ajuda a sobreviver.

(…)

Leia a matéria na íntegra no site do Correio Braziliense

(Paloma Oliveto para o Correio Braziliense, 6/2)