“O subdesenvolvimento não é uma etapa, mas uma forma de organização do sistema produtivo mundial.” Celso Furtado, O mito do desenvolvimento econômico (1974)
Embora não sejam escassas na crosta terrestre, as terras raras tornaram-se sinônimo de disputa estratégica no século XXI. A designação inclui dezessete elementos químicos – do lantânio ao lutécio, além do ítrio e do escândio – fundamentais à produção de ímãs permanentes, turbinas eólicas, motores elétricos, sensores, lasers e dispositivos de comunicação.
O caráter “raro” desses elementos não se deve à escassez na natureza, e sim à complexidade de separá-los entre si devido à semelhança química que apresentam. A extração e o refino exigem processos caros, complexos e de alto impacto ambiental, marcados pelo uso intensivo de ácidos e solventes e pela geração de rejeitos tóxicos e radioativos (Hurst, 2010). É justamente aí que reside o poder geopolítico: poucos países dominam essas etapas críticas.
Nos anos 1980, os Estados Unidos eram o maior produtor mundial, concentrando suas operações em Mountain Pass, na Califórnia. A partir da década seguinte, a China consolidou um domínio quase absoluto sobre a cadeia, integrando mineração, separação química e manufatura (Mancheri, 2012). O país construiu esse controle combinando planejamento estatal, investimento em pesquisa e políticas industriais de longo prazo.
O exemplo de Bayan Obo, na Mongólia Interior, é emblemático. Em 1992, ao visitar a região, local de uma das maiores minas de terras raras da China, Deng Xiaoping declarou: “O Oriente Médio tem petróleo; a China tem terras raras.” A frase aludia ao fato de o país deter mais de 30% das reservas mundiais desses minérios (Seth, 2024). Ali, o governo chinês passou a estruturar um complexo industrial completo – da extração mineral ao refino e à fabricação de ligas, ímãs e dispositivos de alta tecnologia – e formou técnicos e engenheiros especializados (Mancheri et al., 2019). O resultado foi um monopólio de fato: hoje, a China responde por cerca de 70 % da produção mundial de óxidos de terras raras e por mais de 90 % dos ímãs de alto desempenho.
A dependência externa de grandes economias industriais – como Estados Unidos, Japão e países da União Europeia – tornou-se evidente em 2019, quando Pequim restringiu a exportação de metais usados em ímãs de defesa em meio às tensões comerciais com Washington. Naquele ano, cerca de 88% das exportações chinesas de terras raras destinaram-se a apenas cinco países – Estados Unidos, Japão, Holanda, Coreia do Sul e Itália, evidenciando a forte concentração e a interdependência assimétrica que marcam o setor. Essa configuração torna os importadores vulneráveis a choques comerciais ou geopolíticos – pelo risco de desabastecimento – e a própria China dependente de poucos compradores estratégicos.
Em 2025, a China ampliou o controle com uma diretiva que impôs licença prévia para exportações não só de terras raras, mas também de produtos fabricados no exterior que utilizem insumos de origem chinesa – estendendo seu poder regulatório a toda a cadeia global. Controlar as terras raras é, em última instância, controlar o ritmo da inovação tecnológica – dos motores elétricos e turbinas eólicas aos chips, sensores e sistemas de defesa que definem a economia do século XXI.
No Brasil, a história começou cedo, mas foi interrompida – e, em certos momentos, sabotada. Já nos anos 1940, a Orquima S.A., fundada em São Paulo por imigrantes austríacos liderados pelo químico Pawel Krumholz, iniciou o tratamento industrial de areias monazíticas ricas em tório, lantânio e európio [i] (Rosental, 2005).
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