ABC participa de mais uma edição do Vozes da Ciência

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A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) lançou, neste dia 28 de novembro, mais um debate da série Vozes da Ciência, dessa vez com o tema “O Lugar da Ciência no Brasil que Queremos: Democracia e Soberania Sempre”. A última edição havia sido realizada em maio de 2025, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC), quando especialistas debateram contribuições para o plano nacional de CT&I.

A presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, participou do debate, acompanhada pela presidente da SBPC, Francilene Procópio de Carvalho, pelo Acadêmico Aldo Zarbin (UFPR), pela pesquisadora Soraya Smaili (Unifesp) e pelo diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e ex-embaixador do Brasil na Itália.

Rubens Ricupero

Ricupero abriu as discussões lembrando de dois setores econômicos em que o Brasil é um competidor global, a agropecuária e a aeronáutica. “Em ambos, o nosso êxito vem não tanto dos recursos naturais ou de uma tradição prévia, mas de investimento em conhecimento, em ciência e em tecnologia.”

“É muito interessante que sejamos exportadores de um produto tão sofisticado quanto o avião, mas não tenhamos o mesmo sucesso num setor mais ‘simples’ como o automobilístico, que sempre foi dependente do capital estrangeiro. Já no setor aéreo, conseguimos ser um exportador respeitado por meio da Embraer, uma empresa brasileira que começou no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), que começou estatal e que só depois foi privatizada”, recordou.

“Na agricultura, somos o único grande exportador agrícola inteiramente tropical. No passado havia muito ceticismo quanto a essa possibilidade fora de plantios tropicais como açúcar, café ou cacau. Hoje somos tão acostumados a pensar no Brasil como potência na soja que nem nos damos conta de que a soja era um produto de climas temperados. E isso foi graças à Embrapa”, complementou o ex-ministro.

Helena Nader

Por sua vez, Helena Nader frisou que o século 21 é o século do conhecimento, onde o maior valor agregado que um país pode ter está no cérebro dos seus jovens. “Precisamos começar a educar nossas crianças para a inteligência artificial. Mas não podemos esperar a próxima geração para investir em ciência, é preciso fazer as duas coisas. No início do século investíamos mais do que a China em ciência. Hoje são eles que investem 2,7% do PIB em pesquisa, a Coreia do Sul também, fizeram o caminho correto”.

Nader adicionou à lista de Ricupero as empresas WEG e Petrobras, que também se tornaram líderes em seus mercados graças ao investimento em pesquisa. “Temos hoje alguns dos laboratórios nacionais mais modernos do mundo, um acelerador de luz síncrotron, o Sirius em Campinas, altamente tecnológico. Precisamos trazer a indústria para perto. Era para o Congresso e o Executivo sentarem à mesa para termos um plano de duas ou três décadas”.

A presidente da ABC não deixou de criticar a derrubada dos vetos presidenciais à Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº 15.190/2025), que significa um dos mais duros golpe ao controle ambiental brasileiro. “Não posso ignorar a virada de costas que o Congresso deu à ciência e à sociedade brasileira. Colocou o pais na contramão enquanto saímos de uma COP 30”.

Francilene Procópio Garcia

Francilene Procópio juntou sua voz à crítica de Nader. “A derrubada dos vetos rompe com a ciência, com o meio ambiente e com o bom senso. É o tipo de decisão que fragiliza o clima, a moradia, a saúde, a produção de alimentos, o emprego e a segurança dos brasileiros. Decisões desconectadas das evidências científicas comprometem o futuro das próximas gerações, as vidas perdidas na pandemia nos lembram que negar a ciência mata”.

A presidente da SBPC destacou três eixos para o desenvolvimento científico nacional. O primeiro é a infraestrutura, valorizando o sistema que existe no Brasil e garantindo o financiamento necessário para o seu pleno funcionamento. “Sem dinheiro estável e plurianual não vamos chegar lá, infraestruturas precisam ser criadas e mantidas”.

O segundo eixo se refere ao enfrentamento das desigualdades e às emergências. “A ciência é um mecanismo de proteção à vida. Adaptação climática salva comunidades inteiras e estudos climáticos permitem cidades mais resilientes. Precisamos também de políticas firmes de combate ao negacionismo. As pessoas precisam acreditar na ciência, então precisamos criar conteúdo de qualidade para enfrentar as informações falsas”.

Já o terceiro eixo se refere à qualificação de pessoas, à educação. “Precisamos expor nossas crianças à educação científica desde cedo, porque isso constrói pensamento crítico. No ensino superior, precisamos transformar a pesquisa numa verdadeira carreira. Precisamos também estar mais abertos a formas complementares de financiar as universidades. A filantropia é uma realidade nos EUA e na Europa, precisa ser fácil aqui também. Mas ela não irá substituir o financiamento público”, sugeriu.

Assista ao debate completo:

(Marcos Torres para ABC, 28/11/2025)