Desde a comida que comemos até as roupas que vestimos, a ciência e o desenvolvimento tecnológico estão presentes em tudo ao nosso redor, moldando nossa vida de maneiras que muitas vezes passam despercebidas. Mas foi notada, desde sempre, por Lucas William Mendes, nascido em 1985, em Limeira, no interior do estado de São Paulo.
O menino cresceu com liberdade, brincando na rua, jogando futebol e explorando o bairro de bicicleta. No colégio, Lucas sempre se destacou nas notas. As disciplinas de biologia, química e história eram as que mais o cativavam. “Desde cedo, meu fascínio por temas científicos era evidente. Revistas como Galileu, Superinteressante e Terra, além de programas de TV como O Mundo de Beakman, alimentavam minha curiosidade pelo mundo natural e me ajudavam a entender melhor os mistérios da ciência”, relatou o Acadêmico.
Seu pai trabalhava como vendedor de brindes, como folhinhas, calendários, canetas e outros itens, percorrendo diferentes cidades para garantir o sustento da família. A mãe dedicava-se aos cuidados do lar e dos três filhos. Para ajudar nos gastos, passava roupa para fora uma vez por semana.
Lucas era o caçula e teve os irmãos mais velhos como referência. O irmão formou-se em engenharia agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) e fez doutorado em genética e melhoramento de plantas. A irmã formou-se em letras e hoje é professora universitária. “Meu irmão foi o primeiro da família a sair do país. Primeiro, para congressos, e depois, para morar um tempo. Sua trajetória foi uma referência para mim”, relatou o Acadêmico.
Com o esforço dos pais e o apoio de tios, Lucas conseguiu cursar uma escola particular adventista em boa parte do ensino básico, o que lhe abriu horizontes. Seu pai, grande incentivador do seu interesse por ciência, alugava documentários e comprava coleções vendidas em bancas de jornais, como Conhecer por Dentro, Atlas Mundial e a Enciclopédia Folha. “A que mais me influenciou foi a coleção Descobrir – Uma Aventura pelo Mundo da Ciência, lançada no final dos anos 80 pela editora Globo. Ela trazia pôsteres, projetos científicos, modelos para montar e muito mais, transformando-se em uma verdadeira janela para o mundo da ciência”, apontou.
No ensino médio, Lucas Mendes já tinha certeza do que queria para sua vida. “Um marco que nunca esqueci foi o anúncio da clonagem da ovelha Dolly, em 1996. A repercussão mundial desse feito científico me impressionou profundamente e reforçou meu interesse pelas ciências da vida”, recordou. Decidiu cursar biologia, porque avaliou que seria o curso que melhor o direcionaria para a ciência, especialmente para áreas que envolvessem genética e DNA. Fez o vestibular e foi aprovado para o curso de ciências biológicas na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Rio Claro.
Para poder começar a nova fase, Lucas Mendes conseguiu moradia na casa estudantil da universidade e uma bolsa do Programa de Auxílio ao Estudante (PAE). “Um dos requisitos para manter a bolsa era a realização de um estágio em pesquisa, o que acabou sendo o pontapé inicial para minha carreira científica”, contou. Logo começou uma iniciação científica na área de comportamento animal, sob a orientação do professor José Chaud Netto.
A partir do segundo ano, Lucas conseguiu uma bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que lhe permitiu dedicação integral à pesquisa, além de fazer cursos de formação complementar e participar de eventos científicos. Estudou por quatro anos o comportamento da aranha Nephilengys cruentata na predação de vespas sociais de diferentes tamanhos, desenvolvendo suas habilidades em metodologia científica, análise de dados e escrita acadêmica. “O trabalho culminou na minha monografia de conclusão de curso e na minha primeira publicação científica, na revista Sociobiology”, contou o Acadêmico.
No mestrado, Lucas foi para o Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP), em Piracicaba, buscando explorar novos horizontes e focar sua pesquisa em genética e biologia molecular. “Encontrei a professora [e Acadêmica] Tsai Siu Mui, que se tornou minha orientadora do projeto da dissertação em análise molecular das estruturas e diversidade de comunidades microbianas em solo de manguezal preservado da Ilha do Cardoso”, contou o cientista. O desenvolvimento desse projeto exigiu um amplo aprendizado em tecnologias de biologia molecular para caracterização de comunidades microbianas, além de análises utilizando ferramentas de bioinformática e estatística multivariada. “Estudei a composição microbiana no transecto floresta-restinga-manguezal, demonstrando como cada ambiente molda uma comunidade microbiana específica e destacando a importância dessas comunidades para a manutenção do ecossistema”, explicou Lucas Mendes. Seus resultados evidenciaram a relevância de preservar a diversidade de microrganismos do solo, com ênfase na importância dos manguezais para o equilíbrio ambiental.
A seguir, Mendes entrou para o doutorado em Ciências (Biologia na Agricultura e no Ambiente), também no CENA/USP, quando estudou os efeitos do desmatamento e das mudanças no uso da terra sobre as comunidades microbianas em solos da Amazônia. Para aprimorar seus conhecimentos em metagenômica, bioinformática e análise de dados, realizou parte da pesquisa no Departamento de Ecologia Microbiana do Instituto Holandês de Ecologia, um centro de excelência localizado em Wageningen.
O estágio no exterior foi um marco na carreira do pesquisador, graças ao contato e à troca de experiências com estudantes e pesquisadores de diversos países. Seus resultados demonstraram que as comunidades microbianas respondem de maneira distinta a diferentes tipos de manejo do solo. “Enquanto o funcionamento do ecossistema em solos de floresta nativa é mantido pela abundância de microrganismos, nas áreas alteradas esse funcionamento é sustentado pela alta diversidade e redundância funcional”, esclareceu o cientista, cuja tese recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2015, na área de Ciências Agrárias, e, em 2016, foi agraciada com o Prêmio Tese Destaque USP, na mesma área.
De maneira geral, suas pesquisas têm como principal objetivo entender o papel dos microrganismos no solo e suas interações com o ambiente, buscando fornecer informações que possam ser aplicadas na manutenção de ecossistemas, na recuperação de áreas degradadas e na promoção de cultivos agrícolas mais sustentáveis. Um exemplo fascinante dessa relação, de acordo com Mendes, é o fato de que uma planta abriga mais células de microrganismos do que células próprias. Essa comunidade microbiana, selecionada pela própria planta, desempenha um papel crucial em seu desenvolvimento, auxiliando na absorção de nutrientes, na proteção contra patógenos e no aumento da resistência a estresses ambientais. Compreender essa interação, de acordo com Mendes, abre caminho para modular essas relações de forma a promover uma agricultura mais sustentável, reduzindo a dependência de insumos artificiais, como fertilizantes e agrotóxicos, e até mesmo recuperando áreas degradadas. “Meu trabalho também busca, portanto, transformar esse conhecimento em ferramentas práticas que contribuam para a saúde dos ecossistemas e para a produção agrícola de forma mais harmoniosa com o meio ambiente”, afirmou.
Mendes destaca que fica cada vez mais claro como o microbioma — a coleção de bactérias, fungos e vírus — é extremamente importante para a saúde e o funcionamento dos ecossistemas. “O avanço tecnológico nos permitiu criar ferramentas que ajudam a acessar e explorar essa incrível diversidade microbiana, que ainda é pouco conhecida. Quanto mais pesquisamos, mais entendemos que humanos, plantas e animais dependem dessas interações para seu desenvolvimento e sobrevivência”, ressaltou o cientista.
A eleição para membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) foi uma surpresa para Lucas Mendes. Esse reconhecimento o deixou orgulhoso e realizado, mas também lhe trouxe um profundo senso de responsabilidade. “Saber que faço parte de uma instituição tão prestigiada me motiva a continuar produzindo ciência de qualidade no Brasil, contribuindo não apenas para o avanço do conhecimento, mas também para a formação de novos profissionais e para o desenvolvimento tecnológico do país”. Lucas Mendes acredita que a ciência tem o poder de transformar realidades, e é essa a missão que carrego consigo: gerar informações que possam impactar positivamente a sociedade, formar recursos humanos capacitados e impulsionar a inovação no Brasil.
Fora do mundo da ciência, Mendes dedica seu tempo à família, especialmente aos dois filhos: um menino de quatro anos e uma menina de um ano. “São momentos preciosos, que equilibram minha rotina e me conectam ao que realmente importa”, declarou. Além disso, contou que a carreira científica lhe proporcionou a incrível oportunidade de conhecer quase 50 países ao redor do mundo, nos quais se encantou com a história, a cultura e a culinária, que registra com sua câmera — dado que a fotografia é outra de suas paixões.
Quando não está viajando fisicamente, Lucas viaja através da leitura, filmes e séries. E, como parte da Geração Y, é um gamer apaixonado e um entusiasta de novas tecnologias. “Acompanhar as inovações tecnológicas e explorar mundos virtuais são hobbies que me conectam à minha geração e me inspiram a pensar de forma criativa”, frisou o Acadêmico.