Abrindo caminho para novas tecnologias

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A ciência é um processo vivo, em que cada descoberta abre novas possibilidades e, ao mesmo tempo, novos questionamentos. O desafio constante de buscar respostas para perguntas que ainda não foram feitas e de contribuir para o avanço do conhecimento, ajudando a desvendar fenômenos antes desconhecidos, é o que estimula Ingrid Barcelos diariamente. “Além disso, a ciência tem um impacto direto na sociedade, melhorando tecnologias, saúde, comunicação e nossa compreensão do mundo”, apontou a membra afiliada da ABC, eleita para o período 2025-2029.

Nascida em 1986, na cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, Ingrid teve uma infância muito feliz. Gostava de dançar e de estudar, se relacionava bem com os professores. No colégio, só não gostava de educação física. Suas matérias favoritas eram matemática, geografia, física e história.

Seus pais sempre trabalharam fora. Atualmente, a mãe é cabeleireira e costureira e o pai, vendedor de cosméticos e motorista de Uber. Ingrid foi a irmã mais velha por muito tempo, com três irmãs mais novas. Há alguns anos conheceu uma irmã mais velha que ela, com graduação universitária, quando Ingrid já estava no mestrado. Assim, ela não teve referências acadêmicas na família.

No ensino médio, o interesse de Ingrid era pela educação. Seus professores a incentivavam muito a fazer faculdade, ideia que não fazia parte do seu mundo familiar. Mas entendeu que era por meio da universidade que alcançaria seus objetivos e, em, 2005, entrou para a licenciatura em física na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). ]

Quando entrou na iniciação científica, com o professor Rodrigo Gribel, se envolveu com o estudo de nanomateriais e percebeu que a ciência era um universo fascinante. “O Gribel foi um divisor de águas na minha carreira, porque me deu acesso ao mundo da pesquisa, me permitiu participar de congressos, interagir com cientistas, dentre todas as inúmeras portas que me abriu. Trabalhei nesse grupo até o início do meu doutorado, quando resolvi me dedicar a outra área”, destacou Ingrid Barcelos.

Ingrid relembra que queria muito ser professora. “Demorei para perceber que minha paixão pela educação estava ligada à importância que ela teve na minha vida. Tive a oportunidade de dar aulas por dez anos, até que a pesquisa tomasse por completo o espaço de quaisquer outras atividades. Nessa trajetória, eu ‘escolhi’ ser professora e a ciência ‘me escolheu’”, avalia a Acadêmica.

Durante a licenciatura e o bacharelado, Ingrid teve dificuldades, percebendo o abismo educacional que existia na sua formação anterior. “Eu pensei inúmeras vezes em desistir, mas foi uma fase de aprendizado intenso”, contou. O mestrado e o doutorado, que cursou também na UFMG, foram grandes desafios, mas ela conta que teve muito apoio dos professores e colegas de laboratório, o que foi fundamental.

Ingrid fez um período sanduíche no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e sua tese de doutorado foi laureada com o prêmio José Leite Lopes de 2015. “Trabalhei muito duro durante esse período e sempre me inspirei na força da minha mãe. Mas, sem dúvida nenhuma, o meu orientador de doutorado, Ângelo Malachias, foi um fator determinante. Tive um orientador que me ajudou a crescer, que me desafiou a ser melhor a cada dia e que me apoiou. Acho que inúmeras vezes ele acreditou mais em mim do que eu mesma”, ressaltou.

Em seguida, Barcelos realizou estágio de pós-doutorado na UFMG, com tempo de trabalho no Laboratório de Fotônica Avançada do Instituto de Nanotecnologia, na Itália, com ênfase em óptica no estudo do acoplamento luz-matéria em sistemas éxcitons-plasmons. Entre 2017 e 2021, atuou como pesquisadora na linha de nanoespectroscopia de infravermelho no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), desenvolvendo estudos relacionados às propriedades vibracionais de materiais na nanoescala, óptica de campo próximo e efeitos de polaritons em materiais bidimensionais. Em 2021, recebeu o prêmio “Para Mulheres na Ciência – Categoria Física”, concedido pela L’Oréal-Unesco-ABC.

Atualmente, Ingrid Barcelos lidera, no LNLS, o Laboratório de Amostras Microscópicas (LAM), que é dedicado a preparação de amostras avançadas. Sua pesquisa é focada em materiais ultrafinos, com espessura de apenas alguns átomos, que possuem propriedades muito especiais quando interagem com a luz. “Esses materiais podem controlar e direcionar a luz em uma escala extremamente pequena, o que abre caminho para novas tecnologias. Isso inclui sensores ópticos mais avançados que podem ser usados, por exemplo, para detectar substâncias em pequenas quantidades. Além disso, estudo como a luz pode se comportar nesses materiais de maneiras inéditas, permitindo criar dispositivos menores e mais rápidos”, explicou a cientista. “A ideia de explorar esses fenômenos e transformar conhecimento fundamental em aplicações concretas é algo que me inspira e me desafia todos os dias”, declarou a Acadêmica.

A eleição para membra afiliada da ABC é, para Ingrid Barcelos, uma honra gigantesca. Além do reconhecimento do seu trabalho, traz a responsabilidade de retribuir à comunidade científica e à sociedade tudo que recebeu. “A ciência mudou minha vida e me proporcionou oportunidades que, no início da minha trajetória, pareciam distantes. Agora, quero usar essa posição para abrir portas para jovens cientistas, em particular, meninas que sonham seguir carreira na ciência, mas, muitas vezes, não encontram apoio ou referências”, declarou a física.

Além do incentivo à diversidade na ciência, Barcelos pretende ainda atuar junto à ABC, com iniciativas de divulgação científica e colaborando com projetos que aproximem a pesquisa da sociedade. “Acredito que tornar a ciência mais acessível e inspirar novas gerações é essencial para o desenvolvimento do país. Além disso, quero contribuir para o fortalecimento da pesquisa no Brasil, buscando formas de garantir que a ciência receba o investimento e o reconhecimento que merece”, afirmou a Acadêmica.

Além da ciência, viajar é uma das suas maiores paixões. Ter a oportunidade de conhecer novas culturas, explorar diferentes gastronomias e, assim, ampliar sua visão de mundo é para Ingrid uma experiência incrível e enriquecedora. Outra coisa que a faz feliz é receber os amigos em casa e cozinhar. “A cozinha, para mim, é um espaço de encontro, conexão e troca de boas conversas. Gosto de preparar comidas gostosas, abrir uma boa cerveja e aproveitar momentos de leveza e descontração. Seja na correria do laboratório ou nos momentos de descanso, gosto de tudo que amplia meu olhar sobre o mundo. Tenho a sorte e o privilégio de fazer o que eu gosto, e sou muito feliz e realizada com a profissão que me escolheu.”

(Elisa Oswaldo Cruz para ABC | Fotos: SDC/FMRP-USP)