A paixão pelo futebol levou Bruno Gualano à graduação em educação física na Universidade de São Paulo (USP), mas foi a curiosidade científica que guiou sua trajetória para além do esporte. Nascido no ano de 1984, em São Paulo, Bruno cresceu na zona leste de São Paulo, de onde guarda boas memórias e amigos. Sua infância foi muito ativa, vivida nas ruas e cercada de gente. O esporte, principalmente o futebol, sempre esteve presente. A mãe foi professora e deixou o magistério para cuidar dos filhos – ele tem um irmão mais novo. O pai era comerciante de hortifrutigranjeiros.
Por conta do amor pelo esporte, escolheu a graduação em educação física na Universidade de São Paulo (USP). Sua enorme curiosidade sobre o funcionamento do mundo derivou no interesse pela ciência. Antes de entrar na graduação, já sabia que seria cientista. No primeiro semestre do curso já entrou na iniciação científica e passou praticamente os quatro anos no programa, determinado a entender como a atividade física e a nutrição podem impactar a saúde e o desempenho humano. Seguiu para o doutorado na mesma instituição.
Durante sua formação, teve a oportunidade de ter grandes mentores, entre eles o renomado cientista Roger Harris, cujas contribuições para a fisiologia do exercício, bioquímica e nutrição influenciaram profundamente sua abordagem científica. De Harris, Gualano herdou o rigor metodológico, a busca incessante por mecanismos que expliquem fenômenos fisiológicos e a importância de questionar paradigmas. Essa influência foi determinante para consolidar sua carreira na investigação dos efeitos da nutrição e do exercício na saúde e na performance humana.
Hoje ele é professor associado do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. Coordena o Laboratório de Avaliação e Condicionamento em Reumatologia e o Grupo de Pesquisa em Fisiologia Aplicada Nutrição, ambos na FMUSP, onde ainda chefia o Laboratório de Investigação Médica em Reumatologia e o Centro de Medicina do Estilo de Vida. Atuou como professor visitante na Nottingham Trent University, no Reino Unido, e no Instituto de Tecnologia Waikato, na Nova Zelândia. É pesquisador associado ao Centro de Pesquisa em Alimentos [Food Research Center] e do Núcleo de Pesquisas Avançadas em Alimentos e Nutrição, ambos da USP.
Seus estudos desafiaram conceitos estabelecidos, especialmente ao demonstrar os benefícios da atividade física para pacientes com doenças crônicas, como artrite reumatoide, lúpus e miopatias inflamatórias. Durante a pandemia de covid-19, liderou pesquisas pioneiras sobre as sequelas da doença em diferentes populações, incluindo pacientes hospitalizados, crianças, idosos e atletas profissionais. Conduziu o USP Móvel, projeto que percorreu mais de 22 mil quilômetros em São Paulo para monitorar a saúde de pacientes do Hospital das Clínicas privados de atendimento presencial, além de desenvolver programas digitais de promoção de estilo de vida saudável. Seu trabalho também ajudou a desmistificar o uso de suplementos e terapias ineficazes contra a covid-19, como no estudo publicado no JAMA que demonstrou a ineficácia da vitamina D no tratamento da doença.
O compromisso em transformar conhecimento em impacto social o levou a idealizar o Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O projeto surgiu da necessidade de integrar ciência, assistência e educação para promover mudanças sustentáveis na saúde da população. No centro, Gualano e sua equipe – composta por médicos, nutricionistas, profissionais de educação física, estatísticos, psicólogos, biólogos, epidemiologistas, cientistas de dados e inteligência artificial, antropólogos e cientistas sociais – desenvolvem pesquisas transdisciplinares sobre intervenções em atividade física, nutrição e bem-estar, com foco especial em populações vulneráveis, como trabalhadores precarizados, pacientes com doenças crônicas de alta complexidade, usuários de drogas, pessoas transgênero etc. O centro também atua na formação de profissionais da saúde e na criação de programas de promoção da qualidade de vida dentro do Hospital das Clínicas.
Para Gualano, fazer ciência vai além dos laboratórios e publicações. Ele é um ativo divulgador científico, dedicando-se à popularização da ciência por meio de colunas jornalísticas, redes sociais e livros infantis voltados ao letramento científico. Em sua coluna na Folha de S. Paulo, aborda temas polêmicos, como desinformação sobre saúde e negacionismos, sempre sob o prisma da ciência e da ética. Além disso, coordena iniciativas de comunicação científica, como o Ciência InForma, que traduz conteúdos acadêmicos para o público geral, e a coleção infantil Bel: Ciência para Crianças, que incentiva o pensamento crítico desde a infância.
Com uma carreira marcada pela inovação, internacionalização e impacto social, Gualano acredita que a ciência deve ser acessível a todos – uma ferramenta essencial para o desenvolvimento e bem-estar das populações. Agora eleito membro afiliado da ABC, pretende ampliar seu ativismo pela ciência, em prol da construção de uma sociedade mais crítica, justa, humanitária e igualitária.
Fora da ciência, a literatura e o esporte são os principais hobbies de Bruno Gualano. Recentemente, conseguiu cumprir uma meta antiga que era estudar formalmente filosofia. Fez um pós-doutorado e, hoje, cursa a graduação. Fascinado pelo conhecimento filosófico, diz que ele tem modificado sua forma de ver o mundo, inclusive sua atuação como cientista. “Como afirma Maximo Pigliucci, a ciência é a melhor forma de entender o mundo, mas entender o mundo não é o mesmo que entender como viver nele. Esse é o papel da filosofia que, por isso, complementa e, a meu ver, supera o conhecimento meramente técnico e instrumental”, concluiu.