Ano de 1939, Campos, interior do Estado do Rio de Janeiro, plantação de jiló, maxixe e quiabo. A mãe de prole já numerosa está para dar à luz mais um rebento, o irmão vai a cavalo buscar a parteira. Quando ele enfim nasce, o pai lavrador profetiza: esse aí vai ser doutor. Parece ficção, mas é o início da história de vida do Acadêmico Jorge Almeida Guimarães, mostrada num vídeo comemorativo dos seus 70 anos, em solenidade organizada pelo Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, em 3 de abril.

O homenageado formou-se médico veterinário na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), doutorou-se em Ciências Biológicas (Biologia Molecular) pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), foi diretor científico do CNPq e é hoje Professor Titular da UFRGS, Professor Emérito da UFRJ e presidente da Capes há quatro anos, num mandato repleto de mudanças positivas.

Foi professor do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da UFRJ entre 1982 e 1997, quando o IBqM ainda era um Departamento. Durante esse tempo, passou pelos cargos de chefe de Departamento e diretor do Instituto de Ciências Biomédicas. Durante o período em que atuou no IBqM, como em todos os lugares por onde passou, o Acadêmico deixou muitos discípulos. E foi uma discípula, Lina Zingali, que em parceria com a professora da UERJ Christina Barja-Fidalgo desenvolveu o vídeo De Campos aos Campi: Jorge Almeida Guimarães – 50 anos de dedicação à Ciência Brasileira. “No vídeo, narramos a trajetória acadêmica dele através do depoimento de alunos, desde o primeiro, Eloi Garcia, que foi diretor do Instituto Oswaldo Cruz, até os mais recentes, além de colaboradores importantes para a carreira científica dele”, conta Lina.

Guimarães colecionou em 50 anos de dedicação à Ciência brasileira títulos, condecorações e o que mais ficou evidente no evento: amigos, reconhecimento e muita admiração. Cada um dos palestrantes que subiu ao palco para homenagear o aniversariante reforçou estes aspectos, com fotos das variadas equipes, tiradas nos diversos laboratórios, com desenhos e comparações bem humorados e muitas memórias compartilhadas.

O presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM), Marcos de Moraes, disse estar homenageando um ícone da ciência brasileira por sua capacidade de liderança, de formação de recursos humanos e de gestão bem sucedida de entidades públicas. Além disso, deu seu testemunho da capacidade de pesquisa do homenageado na área biomédica, com grande qualidade no trabalho, apesar da pobreza de recursos da época em que começou.

O diretor da ABC e diretor-científico da Faperj – entidade cujo diretor-presidente, Rui Marques, estava representando -, Jerson Lima referiu-se à capacidade de Guimarães não só de gestão mas também de formação de gestores, como ele próprio, cujas experiências como gestor certamente foram estimuladas pelo entusiasmo contagiante de Jorge Guimarães. “Formou também uma grande quantidade de cientistas importantes, muitos deles presentes aqui nessa platéia”, evidenciou o Acadêmico.

O presidente da ABC Jacob Palis manifestou sua dificuldade em ser original ao falar de Jorge Guimarães, por ser ele uma unanimidade nacional, um pesquisador dedicado a destacar Ciência brasileira no cenário mundial. “É uma figura especialmente realizadora em todas as atividades em que se envolve, inclusive na Academia Brasileira de Ciências. Sua frase tudo que é bom pode, usada muitas vezes em sua gestão criativa e original na Capes, mostra que colocou nos eixos a verdadeira importância das coisas, fazendo com que os procedimentos não sejam mais importantes do que os resultados. Porque o Jorge é um homem de resultados”, concluiu Palis.

Após a exibição do filme, emocionante coletânea de depoimentos, foi inaugurada uma placa em homenagem ao pesquisador no Auditório Leopoldo de Meis, um tributo do Instituto de Bioquímica Médica e do Instituto de Ciências Biomédicas.

Subiram então ao palco do auditório diversos ex-alunos e atuais colegas e amigos do homenageado. Todos expuseram suas produções científicas realizadas com orientação de Guimarães, referindo-se inevitavelmente às suas qualidades pessoais.

O Acadêmico Eloi Garcia, primeiro aluno de doutorado de Jorge Guimarães. na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), continuou a convivência com Guimarães em São Paulo, na Universidade Paulista de Medicina, que mantém até hoje, extremamente produtiva e afetiva. “Naquela época chegávamos às vezes a dormir no laboratório”, rememorou Garcia.

O exemplo do mestre serviu para toda sua vida científica e como gestor, especialmente como padrão de atitude e comportamento. “Atividade científica não é só o resultado da aplicação feliz de um artifício técnico, ou da boa utilização de uma tecnologia ou um equipamento avançado. Tem que ter alguma coisa a mais – uma boa idéia. Aprendi com o Jorge que a idéia é a coisa mais nobre que um pesquisador pode produzir”

A vice-presidente da SBPC e Acadêmica Helena Nader, que conheceu Jorge Guimarães em 1970 na Escola Paulista de Medicina, destacou que a ciência, difícil sem recursos financeiros, é um trabalho de equipe. “Melhor quando feita por uma equipe de amigos, cúmplices e compadres”. Helena cumprimentou o aniversariante em nome do presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, que não pôde estar presente. Citando uma frase de José Martín, líder da revolução cubana – “a melhor maneira de ser livre é ser culto” -, ela atribuiu a Guimarães atitude correlata a esse pensamento no Brasil, desde que universalizou o Portal da Capes, que tem hoje 160 mil acessos por dia, dando acesso a artigos científicos de alto padrão a pesquisadores de todos os recantos do país.

O Acadêmico Adalberto Vieyra ressaltou em sua apresentação a força de guerreiro de Jorge Guimarães, um homem que realiza aquilo pelo que luta, aliada à fé do homem que acredita que seus objetivos serão concretizados, sempre em nome de um bem maior. Na direção da Capes, “o homem que faz e o homem que crê se misturam, num amálgama que há cinco anos agita e surpreende, contribuindo para a conclusão das obras inacabadas de nossa história”. Suas ações visaram a consolidação da soberania nacional, com a presença do Brasil nos diálogos de ciência e educação Sul-Sul, Norte-Sul e Mercosul; a internacionalização da ciência brasileira, o fomento das Escolas de Altos Estudos e a graduação sanduíche.

Em relação ao saldo da dívida da ciência e da pós-graduação brasileiras com a educação básica, Jorge Guimarães vem contribuindo ativamente para enfrentar a complexa realidade, onde ainda há muito o que fazer. De acordo com os dados apresentados por Vieyra, por um lado o país está formando mais de 12.000 doutores por ano, com 2,5% das publicações mundiais anuais, na 15ª posição no ranking mundial de artigos indexados e na 24ª posição no ranking de citações. Por outro lado, porém, o Brasil tem 50 milhões de analfabetos de diferentes categorias, 52% de professores leigos – 70% em ciências, 90% em física, 90% dos jovens de 18 a 24 anos fora da universidade e 99,5% dos jovens de 24 a 31 anos fora do sistema de pós-graduação.

O Acadêmico e coordenador do Instituto de Estudos Avançados da USP de São Carlos, Sérgio Mascarenhas, se referiu ao amigo Jorge como um mudador de cultura. “Toda ciência tem risco e oportunidade. A missão do cientista é transformar o risco em oportunidade. Você é um homem que esta mudando o futuro do Brasil.” Como físico experimental que é, Mascarenhas tomou a atenção da platéia ao entregar ao aniversariante brinquedos físicos diferenciados, sendo um deles um pião que, se rodado com força, tem seu centro de gravidade modificado: pelas leis da física clássica, seria sempre para baixo. “Para mudar a cultura, tem que ter o centro de gravidade para cima, assim como esse pião e você, Jorge”. O último brinquedo foi o barquinho socialista, que ao ser girado para a direita roda para a esquerda. Sua capacidade de tornar visível em forma de experiências físicas as suas idéias arrancou aplausos da platéia.

Os Acadêmicos Antônio Paes de Carvalho, Leopoldo de Meis, Célia Carlini, Jorge Guimarães, Adalberto Vieyra, Débora Foguel, Raimundo Braz Filho, Sérgio Mascarenhas, Glaucius Oliva e Roberto Lent.

Na congregação entre o IBqM e o Instituto de Biofísica, com a participação do reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira, a diretora do IBqM e Acadêmica Débora Foguel comparou Guimarães a um arquiteto, “pois tem contribuído expressivamente para projetar, remodelar e esculpir a história da Ciência e da Educação de todo um país”. A Acadêmica destacou o profundo orgulho que os professores do ensino superior e cientistas brasileiros têm do sistema de avaliação da pós-graduação vigente no país, que leva ao reconhecimento, admiração e aprovação dos esforços da Capes nesse sentido. Para Débora, o crescimento sólido e qualificado do Programa Nacional de Pós Graduação ocorrido nas últimas décadas alavancou consigo toda a ciência brasileira.

A pesquisadora referiu-se a um artigo recente do Ministro da Educação, Fernando Haddad, a partir do qual concluiu que “graças ao exemplo do Prof. Jorge, vemos chegar às escolas de todo o país a preocupação com a avaliação, não mais uma avaliação acompanhada de uma eventual e injusta punição dos alunos das escolas mal sucedidas. Do vigiar e punir evoluímos para o espírito colaborador, fraterno e solidário para com as escolas que têm dificuldades, sobre as quais não se pode depositar toda a responsabilidade de seu fracasso. Este, certamente, remonta a séculos de histórias de descaso e desmandos nesse país”, defendeu Débora.

O Acadêmico e diretor do Instituto de Ciências Biomédicas, Roberto Lent, destacou a importância que seu instituto atribui a Jorge Guimarães, que o consolidou com muito trabalho, diálogo e democracia. Contou a história de sua atuação à frente do instituto, transformando-o num espaço científico de destaque internacional, de forma ousada e criativa. Ressaltou também a capacidade de gestão de Jorge e a característica de colocar ciência em tudo. “Estamos torcendo para que em 2010 você seja o próximo Ministro da Educação”, arrematou Lent.

Acadêmico Leopoldo de Meis fez uma apresentação rica em imagens alegóricas, colocando o rosto de Guimarães no corpo de São Jorge, o santo guerreiro. “Jorge Guimarães é um amante da ciência”. De Meis valorizou sua capacidade de enfrentamento e vitória sobre o status quo, destacou seus atributos administrativos e os pontos mais relevantes de seu extenso e valoroso percurso profissional, associado ao progresso da atividade científica e da pós-graduação e do seu impacto no desenvolvimento tecnológico e econômico do país.

O reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira, ressaltou o fato de Guimarães ter aceito o desafio de mudar a educação superior brasileira, “tarefa para poucos”, em suas palavras, dando números que comprovaram o amplo aumento de recursos destinados às universidades federais, especificamente a UFRJ. Reconheceu as dificuldades enfrentadas pelo homenageado e acrescentou que “Jorge é grande não apenas porque sonha, mas porque continua a sonhar mesmo após uma derrota e perpetua a luta até obter a vitória.”

Durante o evento, que se iniciou as nove da manhã e foi encerrado com um coquetel quase 12 horas depois, diversos Acadêmicos compareceram em algum momento. Além dos palestrantes e dos fotografados, marcaram presença Alberto Passos Guimarães, Ângelo da Cunha Pinto>, Carlos Alberto Aragão, Guilherme Kurtz, Luiz Pinguelli Rosa, Luiz Davidovich, Marcelo Viana, Mécia de Oliveira, Rafael Linden, Rosalia Mendez Otero, Sérgio Teixeira Ferreira, Vivaldo Moura Neto.