Oceano é o “centro de gravidade” do planeta

A primeira Sessão Especial da Reunião Magna 2026 da Academia Brasileira de Ciências reuniu ciência, geopolítica, economia e meio ambiente em torno de uma ideia central: o oceano como eixo estratégico da sobrevivência e da prosperidade humana. O convidado da sessão, realizada em 5 de maio, foi o almirante Ilques Barbosa, oficial da Marinha do Brasil e assessor da Presidência da Fundação Getulio Vargas.

Ao longo da conferência, Barbosa defendeu que o oceano deve ser compreendido como “centro de gravidade” do planeta por razões políticas, estratégicas, científicas, econômicas e, sobretudo, ambientais. Em tom didático e frequentemente recorrendo à experiência acumulada na vida marítima, o almirante alertou para os riscos do desequilíbrio ambiental e para a necessidade de o Brasil investir em ciência, educação e governança oceânica.

Correntes oceânicas e equilíbrio planetário

Logo no início de sua fala, Barbosa recorreu à metáfora naval para explicar a importância do oceano para o equilíbrio da Terra. “Eu não sou cientista, eu sou marinheiro. E, do ponto de vista do marinheiro, se um navio tiver seu centro de gravidade deslocado, ele emborca”, afirmou.

Segundo o almirante, os oceanos funcionam como sistemas integrados que conectam todo o planeta por meio das correntes marítimas, associadas às correntes atmosféricas. Ele destacou que esses movimentos distribuem energia, nutrientes, plâncton e até elementos fundamentais para ecossistemas terrestres, como a Amazônia. “As correntes marítimas e atmosféricas são como as artérias, as veias e os pulmões do corpo humano”, comparou.

Barbosa explicou que diferenças de salinidade, temperatura e pressão moldam a dinâmica oceânica e influenciam fenômenos ambientais globais. Também chamou atenção para a formação de grandes áreas de acúmulo de lixo plástico em alto-mar, resultado da própria circulação oceânica.

O oceano como eixo do poder global

Ao abordar a dimensão geopolítica do oceano, o palestrante ressaltou que cerca de 80% do comércio mundial circula pelos mares. Para ele, o domínio das rotas marítimas continua sendo determinante para o poder econômico e político das nações. “O PIB mundial está ali. Mexeu com navio, tem problema”, disse, citando tensões em regiões estratégicas como o Estreito de Ormuz.

O almirante retomou a Teoria do Poder Marítimo, formulada no século XIX por Alfred Thayer Mahan, segundo a qual o controle dos oceanos define a hegemonia das grandes potências. Barbosa observou que essa lógica atravessa a história, dos fenícios aos chineses contemporâneos. “Quem controla os oceanos controla o planeta”, afirmou. “Hoje, a maior frota do mundo é a chinesa.”

Segundo Barbosa, o oceano concentra interesses relacionados à segurança econômica, alimentar, energética, ambiental e até cibernética, devido à presença de cabos submarinos responsáveis pelas comunicações globais.

Ciência, soberania e economia azul

O palestrante destacou que grande parte do oceano permanece desconhecida, apesar de sua relevância estratégica. “Conhecemos mais a Lua do que o oceano”, observou.

Para o almirante, investir em ciência oceânica é essencial para garantir soberania e desenvolvimento econômico. Ele lembrou que cerca de 80% da produção brasileira de óleo e gás vem do mar e que a chamada economia azul está em rápida expansão.

Citando dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Barbosa afirmou que atualmente existem 19 atividades econômicas diretamente ligadas ao oceano, número que poderá chegar a 35 até 2050. “A complexidade é muito elevada e exige aprofundamento científico”, ressaltou.

O almirante também mencionou o avanço da China no estudo do mar profundo, com investimentos em submarinos, engenharia oceânica e infraestrutura científica. Para ele, o Brasil precisa transformar conhecimento em capacidade estratégica. “Temos bons cientistas e boas ideias. Precisamos dar o salto”, afirmou.

Educação e capacitação como prioridade

Em diversos momentos da palestra, Barbosa enfatizou a importância da formação científica e tecnológica para o futuro do país. Em sua avaliação, o Brasil dispõe de cerca de 25 anos para promover uma transformação educacional capaz de preparar os jovens para um mundo marcado por inteligência artificial, robótica e internet das coisas. “Sem capacitação, nossa juventude ficará fora do mercado. Isso significa condenação à pobreza”, alertou.

O almirante defendeu o fortalecimento das bolsas de pesquisa, a continuidade dos investimentos públicos em ciência e o estímulo à formação de recursos humanos qualificados. “Não existe país desenvolvido em que o Estado não seja o principal investidor da ciência”, declarou.

Amazônia, oceano e centros de gravidade do Brasil

Ao refletir sobre os ativos estratégicos brasileiros, Barbosa apontou a Amazônia e a ciência como “centros de gravidade” nacionais. Nesse contexto, citou uma frase do ex-presidente da ABC, Luiz Davidovich: “A Amazônia vale muito mais em pé do que no chão.”

Para o palestrante, preservar a floresta e ampliar a capacidade científica nacional são objetivos inseparáveis. Ele citou instituições brasileiras que atuam em áreas estratégicas relacionadas ao oceano, como a Universidade de São Paulo (USP), o Cenpes/Petrobras, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a Embraer.

Também destacou a criação do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) como passo importante para consolidar a pesquisa oceânica no país.

Governança internacional dos oceanos

Outro ponto central da palestra foi a governança global dos mares. Barbosa comentou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, conhecida como Convenção da Jamaica, assinada em 1982, e destacou seus mecanismos para regular soberania marítima, exploração econômica e preservação ambiental.

O almirante também mencionou o Tratado Global dos Oceanos (BBNJ), aprovado pelas Nações Unidas em 2023 e em vigor desde janeiro de 2026, voltado à proteção da biodiversidade em áreas além da jurisdição nacional.

Embora reconheça os avanços diplomáticos, Barbosa demonstrou cautela em relação à participação equitativa dos países em desenvolvimento na exploração de recursos marinhos estratégicos.

“É difícil acreditar que as grandes potências vão permitir que todos participem igualmente das vantagens do conhecimento e dos minerais críticos do fundo do mar”, afirmou.

Desenvolvimento e preservação ambiental

Por fim, o almirante tratou dos impactos da poluição marinha, especialmente do plástico e do óleo, sobre os ecossistemas oceânicos e sobre atividades econômicas. Ele defendeu ações de limpeza e mitigação ambiental, mas criticou o que considera excesso de restrições em determinados debates sobre exploração econômica, citando o caso da Margem Equatorial brasileira. “Não significa poluir ou agir sem cuidado. Mas precisamos discutir o tema com equilíbrio”, argumentou.

Para Barbosa, o avanço do Brasil depende da combinação entre preservação ambiental, desenvolvimento científico e planejamento estratégico de longo prazo. “O país já enfrentou muitas situações difíceis e não quebrou. O Brasil é muito forte”, concluiu.

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Foto: Mário Marques)