As minas e o homem: duas realidades que precisam dialogar

20 de outubro de 2014 Por Diogo Cysne para Ascom ABC

Com uma temática voltada para os obstáculos que surgem na relação entre sociedade, interesses privados e meio ambiente e para o papel da ciência na política latino-americana, a sessão intitulada ”Administração de Conflitos Ambientais em Diversos Contextos” integrou o Workshop Internacional Sociedade e Natureza, realizado na Academia Brasileira de Ciências (ABC), nos dias 30/09 e 01/10.

Na palestra inicial, o professor adjunto do Programa de Pós-graduação em Geografia e do Departamento de Engenharia de Produção e Mecânica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Bruno Milanez, focou na dinâmica entre meio ambiente, economia e sociedade e explicou como o setor mineralógico é ideal para compreendê-la. ”Falar sobre mineração não significa apenas falar sobre o meio ambiente nacional, mas também sobre pessoas”, ele diz. ”Há um movimento crescente de resistência à abertura de novas minas na América Latina.”

Embora os benefícios da atividade sejam muito conhecidos no quadro econômico brasileiro, Milanez lembra que a sociedade é afetada por ela em pelo menos dois níveis: ”De um lado, você tem cidadãos locais, que são deslocados pelas minas. Do outro, há pequenas cidades com oito, dez mil habitantes que recebem de repente mais cinco mil pessoas, e muitas delas não estão prontas para esse influxo.”

Já quanto às alterações ambientais pelas atividades das minas, ele citou a cidade de Congonhas, em Minas Gerais. Com pouco mais de 48 mil habitantes, ela abriga em seus arredores uma mina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cuja proximidade do espaço urbano é suficiente para a população se sentir incomodada com os dejetos das operações.

Este, contudo, não é o único problema. ”As boas minas que a CSN tinha originalmente se esgotaram, então ela deseja mover-se para ainda mais perto da cidade, destruindo a camada de vegetação que a protege de boa parte da poeira das minas. Os movimentos locais reclamam e dizem que isso terá um impacto profundo em sua vida social.”

Para o professor, que é doutorado em política ambiental pela Lincoln University, um diálogo entre os interesses das populações e dos capitais privados se faz necessário, e as ciências sociais podem ser valiosíssimas para a facilitação do mesmo. ”Devemos construir uma ciência que se comunique com o governo, com as pessoas e empresas. Eu não vejo as ciências sociais dialogando com as companhias e abordando tópicos como éticas e valores das populações, então acho que este debate deva ser estimulado.”