Ciências Físicas, Ciências Matemáticas | Titular

Mário Schenberg (1914–1990)

(SCHENBERG, M.)
Nascimento: 02/06/1914
Data de Posse: 01/01/0000
Data Falecimento: 10/11/1990

Poucos cientistas brasileiros reuniram, de forma tão singular, excelência científica, erudição humanista e compromisso com o desenvolvimento nacional quanto Mário Schenberg. Considerado o maior físico teórico brasileiro de sua geração, foi pioneiro em áreas como astrofísica, mecânica quântica, relatividade e física matemática, deixando contribuições que permanecem fundamentais para a compreensão da evolução estelar. Ao mesmo tempo, destacou-se como crítico de arte, intelectual público e defensor da ciência como instrumento de soberania e transformação social.

Nascido em Recife, em 2 de julho de 1914, Schenberg formou-se em engenharia elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1935) e integrou a primeira turma de matemática da então recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (1936). Ainda jovem, chamou a atenção da comunidade científica internacional, trabalhando ao lado de alguns dos maiores físicos do século XX, como Enrico Fermi, Wolfgang Pauli, George Gamow e Subrahmanyan Chandrasekhar.

Sua produção científica foi especialmente marcante entre as décadas de 1930 e 1940. Em colaboração com Chandrasekhar, formulou o hoje conhecido limite de Schenberg-Chandrasekhar, resultado fundamental para a teoria da evolução das estrelas. Também participou da formulação do processo Urca, mecanismo responsável pela intensa perda de energia em estrelas massivas por emissão de neutrinos, conceito que se tornou essencial para a compreensão das explosões de supernovas. Essas contribuições projetaram a física brasileira no cenário internacional e consolidaram Schenberg como um dos grandes nomes da astrofísica teórica do século XX.

Na Universidade de São Paulo, exerceu papel decisivo na consolidação da pesquisa em física. Foi professor catedrático, dirigiu o Departamento de Física entre 1953 e 1961, participou da criação do Laboratório de Física do Estado Sólido e incentivou a modernização da universidade, incluindo a aquisição de seu primeiro computador. Como professor e orientador, influenciou profundamente gerações de pesquisadores e contribuiu para a formação da moderna escola brasileira de física teórica.

Sua atuação ultrapassou os limites da ciência. Schenberg foi um dos intelectuais brasileiros mais respeitados no campo das artes, tornando-se referência como crítico de pintura e defensor da produção artística contemporânea. Paralelamente, participou ativamente do debate público sobre ciência, tecnologia e desenvolvimento, defendendo a criação de políticas de Estado para a pesquisa científica, a autonomia tecnológica do país e a valorização das universidades.

Durante a ditadura militar, foi aposentado compulsoriamente pela aplicação do AI-5 em 1969, sendo impedido de exercer plenamente suas atividades acadêmicas por quase uma década. Com a abertura política, retornou à USP em 1979, retomando suas atividades de ensino e reflexão científica, sem jamais abandonar o compromisso com a liberdade intelectual e o pensamento crítico.

Mário Schenberg faleceu em São Paulo, em 10 de novembro de 1990. Seu legado permanece vivo tanto na física quanto na cultura brasileira. Seu nome batiza o detector brasileiro de ondas gravitacionais desenvolvido no Instituto de Física da USP e diversas instituições dedicadas à ciência e à educação. Mais do que um cientista excepcional, Schenberg tornou-se símbolo da integração entre conhecimento científico, sensibilidade artística e compromisso com o futuro do Brasil.